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ANO 6 - ED 70 - JUNHO DE 2005
IN
MEMORIAN
Newton
Freire-Maia
(1918-2003)
Marceline Quadros Achcar

Newton
Freire-Maia em foto da década de 50
Newton
Freire-Maia, mineiro da cidade de Boa Esperança, onde nasceu
em 29 de junho de 1918, foi um dos cientistas mais expressivos do
seu tempo. Pesquisador e professor da USP - Universidade de São
Paulo desde 1946, ele veio a Curitiba a convite, em 1951, para lecionar
na Universidade Federal do Paraná, na época Faculdade
de Filosofia, Ciências e Letras. A disciplina era Genética,
área da Biologia que ele introduziu no Brasil, nas décadas
de 1940 e 1950. Na UFPR, foram 52 anos ininterruptos de dedicação.
O Laboratório de Genética, que deu origem ao Departamento
de Genética da instituição, foi iniciativa sua.

Pioneiros da genética humana em foto da década
de 70. Da esquerda para a direita: Oswaldo Frota-Pessoa, Freire-Maia e
Francisco Mauro Salzano.
Seus
primeiros trabalhos foram sobre casamentos consangüíneos
(pessoas aparentadas entre si).Também se debruçou sobre
a pesquisa das displasias ectodérmicas, para as quais idealizou
uma forma de classificação mundialmente utilizada até
hoje. Ainda nessa área, o professor e seus colaboradores descreveram
mais de 10% das displasias ectodérmicas (o número dessas
displasias cresceu muito nos últimos 30 anos: de uma quantidade
que variava entre 1 e 8, antes de 1971, passou para 146, no ano de
1996; em 2001, o bioquímico Toni Lisboa Costa, em estudos de
mestrado na UFPR, elevou esse número para 192). Ao longo de
sua carreira científica, Freire-Maia orientou dezenas de teses
de mestrado e doutorado, sendo fundador da Sociedade Brasileira de
Genética e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência,
além de ter representado o Brasil na Organização
Mundial da Saúde. Proferiu palestras e ministrou cursos em
instituições brasileiras e estrangeiras, realizando
contatos científicos em 27 países e recebendo vários
prêmios no Brasil e no exterior. Foi responsável pela
produção de 474 obras bibliográficas, distribuídas
entre livros, artigos e textos para jornais e revistas. Em 1984,

Em Brasília, com a esposa, a geneticista Eleidi
Freire-Maia, após receber, em agosto de 2002, a Comenda da Ordem
Nacional do Mérito Científico.
O
legado
Avanços na área da Biologia Molecular também se devem
às mais décadas de revolucionários trabalhos realizados
pelo cientista Freire-Maia
O
legado científico de Newton Freire-Maia continua pulsante,
inspirando estudos voltados ao entendimento da gênese humana.
Pioneiro nos estudos da Genética no Paraná e um dos
mais importantes cientistas brasileiros, Freire-Maia deixou obras
que sustentam pesquisas e descobertas nesse campo.

Átila Fernando Visinoni
Um dos mais
recentes trabalhos baseados em seus ensinamentos está sendo desenvolvido
pelo odontólogo Átila Fernando Visinoni, que iniciou neste
ano o doutorado em Genética na UFPR - Universidade Federal do Paraná,
visando ao aprofundamento do estudo molecular dos genes associados às
displasias ectodérmicas. Visinoni dará continuidade ao trabalho
de Freire-Maia, que se dedicou ao estudo das displasias ectodérmicas
por mais de três décadas, tendo analisado casos e descrito
as formas desses distúrbios genéticos, até então
pouco explorados pela comunidade científica. As displasias ectodérmicas
têm origem num dos três folhetos do embrião humano.
Chamados de ecto, meso e endoderme, os folhetos são formados por
células indiferenciadas, que originarão todos os tecidos
e órgãos do corpo. A ectoderme dará origem ao tubo
neural, à pele e seus anexos (pêlos e glândulas) e
aos dentes. Quando existe alguma alteração estrutural na
ectoderme, os seus derivados podem apresentar defeitos, as chamadas displasias.
Em seu doutorado, Visinoni aprofundará os estudos iniciados durante
o mestrado sobre a mais comum das displasias ectodérmicas, a Síndrome
de Christ-Siemens-Touraine (CST), que se manifesta com distúrbios
na função das glândulas sudoríparas, além
de alterações em pêlos e dentes do indivíduo.
A pessoa afetada tem grande dificuldade em suar (hipoidrose), os pêlos
são finos ou ausentes, a pele é seca e os dentes mostram-se
malformados. As alterações faciais conferem aos indivíduos
uma feição característica, geralmente com nariz achatado
na base, fronte proeminente, lábios grossos, orelhas malformadas,
arcadas superciliares salientes e rugas, principalmente ao redor dos olhos
e da boca.
O envolvimento de Visinoni com os ensinamentos de Freire-Maia possui histórico
de alguns anos. O pesquisador, que também atua como professor do
curso de Odontologia do Centro Universitário Positivo - UnicenP,
lembra que quando começou o mestrado, em 2000, o professor Freire-Maia
estava afastado da orientação de trabalhos, mas mesmo assim
aceitou o convite para ser seu orientador, junto com a geneticista Eleidi
Freire-Maia. Dessa forma, Visinoni iniciou nos laboratórios do
Departamento de Genética da UFPR o primeiro estudo molecular de
displasia ectodérmica no Brasil, abordando o distúrbio pela
causa genética, com a análise do DNA. A pesquisa foi desafiadora
desde o princípio, pois Visinoni retirou o DNA de células
de sangue coletado por Freire-Maia e pela professora Marta Pinheiro, em
um trabalho realizado na década de 1980. O material, oriundo de
duas famílias de Minas Gerais, portadora da síndrome CST,
ficou congelado nos laboratórios do Departamento de Genética
da UFPR por quase vinte anos. "A expectativa de ter sucesso na retirada
do DNA era grande, visto que as técnicas de congelamento disponíveis
na época em que o sangue foi coletado não eram as mais eficazes",
conta Visinoni.
Visinoni obteve êxito no uso do material, atingindo o objetivo principal
do estudo, que era detectar as mutações do gene recessivo
do cromossomo X, chamado ED1 e causador da síndrome CST, em quatro
famílias brasileiras e compará-las com as cerca de 60 mutações
anteriormente descritas. Duas dessas famílias são do sul
de Minas Gerais e do norte de São Paulo, outra reside na capital
paulista e a quarta é da cidade paranaense de São José
dos Pinhais. A dissertação de mestrado foi publicada na
revista americana "American Journal of Medical Genetics", em
2003
Com a intenção de tornar mais fácil o entendimento
do distúrbio, o professor Freire-Maia sugere que se use o nome
de Displasia Ectodérmica Hipoidrótica Ligada ao Cromossomo
X. O gene é transmitido pela mãe e se manifesta com mais
freqüência nos filhos homens (um menino em cada cem mil meninos
nascidos). As mães transmissoras do gene do distúrbio em
geral o manifestam de forma muito leve, quando não são absolutamente
normais. As filhas seguem o mesmo padrão das mães, mas sempre
serão transmissoras do gene quando o tiverem. Para o homem com
essa displasia, o risco mais sério é para os netos e não
para os filhos de ambos os sexos.A pesquisa de Visinoni foi o último
trabalho de Freire-Maia como orientador. A tese foi defendida em agosto
de 2002 e Freire-Maia faleceu em 10 de maio de 2003. "O legado do
professor Newton tem continuidade. Ele foi um pioneiro e deixou vários
estudos em diversas áreas da genética, mas uma de suas maiores
atuações foi no campo das displasias ectodérmicas,
que no Brasil não são muito estudadas. Era uma pessoa maravilhosa
e foi uma honra trabalhar com ele", enfatiza Visinoni. "Mesmo
em conversas informais, o professor transmitia seus conhecimentos, entremeados
por lembranças e observações bem-humoradas",
ressalta o pesquisador.
Em seu doutorado,
sob a orientação dos professores Eleidi Alice Chautard-Freire-Maia,
Ricardo Lehtonen Rodrigues de Souza e Nina Amália Brancia Pagnan,
Visinoni quer ampliar o estudo anterior, intensificando a análise
molecular dos genes associados às displasias e descobrindo outras
mutações do gene ED1. O objetivo é oferecer ao paciente
um diagnóstico mais preciso e um aconselhamento genético
mais aprofundado. Os dados integrarão o banco de informações
do CEDE - Centro de Estudos de Displasias Ectodérmicas, fundado
pelo professor Newton Freire-Maia, em 1982, dentro do Departamento de
Genética da Universidade Federal do Paraná.
O CEDE é a única instituição no mundo especializada
no estudo das displasias ectodérmicas. As finalidades do centro
no campo da pesquisa não se limitam à descrição
de novas afecções ou catalogações com finalidade
estatística. As investigações contribuem para esclarecer
a patologia e fornecer aconselhamento genético em vários
níveis, beneficiando as famílias com diversas informações,
visto que as displasias ectodérmicas têm distribuição
universal, sem preferência por grupos étnicos ou estratos
sócio-econômicos.
Apesar de não existir cura para as displasias ectodérmicas,
há tratamentos disponíveis, muitos deles com procedimentos
simples. "O CEDE orienta gratuitamente as pessoas e, para que cumpra
o propósito para o qual foi criado pelo professor Freire-Maia,
é necessário que seja divulgado o trabalho que ali é
realizado", destaca Visinoni.
Interessados
em conhecer as atividades do CEDE ou em aconselhamento genético
podem entrar em contato com Átila Visinoni (telefone 41-652-1480
/ e-mail: atila@ufpr.br) ou com Eleidi
Freire-Maia (telefone 41-361-1553 / e-mail: eleidi@ufpr.br).
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