LUIZ EDUARDO W.
WANDERLEY, professor titular da Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo, Assessor "ad hoc" do
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico,
Assessor "ad hoc" do Fundação de Amparo à Pesquisa
do Estado de São Paulo, sócio do Ação
Educativa e sócio do Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização
e Educação Popular. Tem experiência na área
de Sociologia, com ênfase em Sociologia do Desenvolvimento.
Atua principalmente com os temas Educação de Base,
Educação Popular, Igreja Católica. Já ministrou
conferência para o Icefé.
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ANO 9 - ED 100 - JANEIRO DE
2008
DESAFIOS DA GLOBALIZAÇÃO
PARA
AS RELIGIÕES (1)
Luiz
Eduardo W. Wanderley

Foto: Spooky2006
O entendimento do que seja a globalização
está longe
de ser consensual. Ela é motivo de múltiplas interpretações,
quase sempre divergentes. Sousa Santos (2002), em artigo sobre a natureza,
causas, dinâmica da globalização, traça
um roteiro fundamentado em diversas abordagens e autores, que recobre
uma ampla variedade de análises. E afirma que é melhor
pensá-la no plural, ou seja, globalizações. Fixar-me-ei
em algumas de suas colocações, sem pretender resumir
seu instigante texto, para iluminar o tema em foco.
Sua matriz analítica indica quatro dimensões. A globalização
econômica “é sustentada pelo consenso econômico
neoliberal” e seus efeitos atingem com mais peso os países
periféricos, por meio dos programas de ajuste estrutural, tais
como, desregulação estatal, privatizações,
predomínio da lógica financeira, bolhas especulativas,
classificação do risco país segundo agências
financeiras de rating etc. O Brasil, que subordinou sua economia às
injunções das agências multilaterais (Banco Mundial,
FMI, OMC), nas eleições de 2002 vivenciou com intensidade
essa lógica perversa.
A globalização social, motivada principalmente pela “tripla
aliança” (empresas multinacionais, com hegemonia destas,
elite capitalista local e 'burguesia estatal') e que incide sobre a
estrutura nacional de classes, vem gerando intensificação
e novas formas de desigualdade social ancoradas na redução
dos custos salariais, liberalização do mercado, redução
de direitos, despedidas massivas, desemprego estrutural. Para combater
a pobreza, tomam-se medidas compensatórias que “minorem,
mas não eliminem, a exclusão, já que é um
efeito inevitável (e, por isso, justificado) do desenvolvimento
assente no crescimento econômico e na competitividade a nível
global” (p. 35).
A globalização política, que se traduz na compressão
da autonomia dos Estados periféricos, na perda da centralidade
tradicional do Estado-nação “enquanto unidade privilegiada
de iniciativa econômica, social e política” (p.36).
Há uma ameaça crescente contra a soberania dos Estados
mais fracos, sobretudo da parte das agências financeiras internacionais
e das empresas multinacionais. Como tendência geral surge um
novo modelo de regulação social e econômica, no
qual se estabelece uma parceria entre o Estado e organizações
da sociedade civil (ONGs, movimentos etc.), num novo conceito de governance (governação?).
Por outro lado, dadas certas iniciativas de âmbito mundial, comenta-se
sobre a possibilidade de um “Estado global” (a OMC seria
uma etapa, nesse sentido, para a classe capitalista global?), de um “governo
global”. Instrumentos do porte dos Tratados internacionais, Tribunal
Penal Mundial, modelos de integração regional (União
Européia) estão apontando para uma institucionalidade
transnacional.
A globalização cultural, que adquiriu um papel preponderante
na matriz da globalização. Há um grande debate
sobre a sua importância atual, principalmente com o avanço
das tecnologias informáticas, eletrônicas e cibernéticas,
sobre se ela conduz à homogeneização ou diferenciação
e a possibilidade ou não de estar emergindo uma cultura global.
Para o autor, “no domínio cultural, o consenso neoliberal é muito
selectivo. Os fenômenos culturais só lhe interessam na
medida em que se tornam mercadorias que como tal devem seguir o trilho
da globalização econômica”(p.49).
Buscando uma teorização crítica da globalização
hoje, e, desde logo, refutando a falácia do determinismo (a
idéia de que a globalização seja “um processo
espontâneo, automático, inelutável e irreversível
que se intensifica e avança segundo uma lógica e uma
dinâmica próprias suficientemente fortes para se imporem
a qualquer interferência externa”)(p.50), bem como a falácia
do desaparecimento do Sul, Sousa Santos aponta três contradições
que caracterizam esse período transicional: entre globalização
e localização; entre o Estado-nação e o
não-Estado transnacional; entre “os que vêem na
globalização a energia finalmente incontestável
e imbatível do capitalismo e os que vêem nela uma oportunidade
nova para ampliar a escala e o âmbito da solidariedade transnacional
e das lutas anticapitalistas” (p.54-55).
Mesmo sendo motivo de polêmica e contrariando as definições
de modo de produção dadas pelos historicistas e estruturalistas,
o autor assim define modo de produção de globalização; “é o
conjunto de trocas desiguais pelo qual um determinado artecfato, condição,
entidade ou identidade local estende a sua influência para além
das fronteiras nacionais e, ao fazê-lo, desenvolve a capacidade
de designar como local outro artefacto, condição, entidade
ou identidade rival” (p.63).
Esse modo de produção geral de globalização
desdobra-se em quatro modos de produção que, no entender
do autor, dão origem a quatro formas de globalização
(p. 66-71): Localismo globalizado: “consiste no processo pelo
qual determinado fenômeno local é globalizado com sucesso”;
Globalismo localizado: “consiste no impacto específico
das condições localizadas pelas práticas e imperativos
transnacionais que decorrem dos localismos globalizados”; Cosmopolitismo: “Trata
da organização transnacional da resistência de
Estados-nação, regiões, classes ou grupos vitimizados
pelas trocas desiguais de que se alimentam os localismos globalizados
e os globalismos localizados”; Patrimônio comum da humanidade: “trata-se
de lutas transnacionais pela protecção e desmercadorização
de recursos, entidades, artecfatos, ambientes considerados essenciais
para a sobrevivência digna da humanidade e cuja sustentabilidade
só pode ser garantida à escala planetária”.
Para Beck (Paz e terra, S. Paulo, 1999:27-28): “Globalismo designa
a concepção de que o mercado mundial bane ou substitui
ele mesmo, a ação política; trata-se portanto
da ideologia do império do mercado mundial, da ideologia do
neoliberalismo. O procedimento é monocausal, restrito ao aspecto
econômico, e reduz a pluridimensionalidade da globalização
a uma única dimensão - a econômica , que, por sua
vez, ainda é pensada de forma linear e deixa todas as outras
dimensões - relativas à ecologia, à cultura, à política
e à sociedade civil - sob o domínio subordinador do mercado
mundial”.

Foto: Andrzej Solnica
Globalidade significa: já vivemos há tempos
em uma sociedade mundial, ao menos no sentido de que a idéia
de espaços
isolados se tornou fictícia. Nenhum país, nenhum grupo
pode se isolar dos outros...
Mundial”, na expressão “sociedade
mundial”, designa então a diferença, diversidade,
e “sociedade” designa não-integração,
de tal forma que se pode compreender... a sociedade mundial como diversidade
sem unidade.
Globalização significa... os processos, em cujo andamento
os Estados nacionais vêem a sua soberania, sua identidade, suas
redes de comunicação, suas chances de poder e suas orientações
sofrerem a interferência cruzada de atores transnacionais.
O que torna a globalidade irreversível? (idem:30 e 31)
1 - Ampliação geográfica e crescente
interação
do comércio internacional, a conexão global dos mercados
financeiros e o crescimento do poder das companhias transnacionais;
2 - A ininterrupta revolução dos meios
tecnológicos
de informação e comunicação;
3 - A exigência, universalmente importa, por
direitos humanos ou seja, o princípio (do discurso) democrático;
4 - As correntes icônicas da indústria
cultural global;
5 - A política mundial pós-internacional
e policêntrica
- em poder e número - fazem par aos governos uma quantidade
cada vez maior de atores transnacionais (companhias, organizações
não-governamentais, uniões nacionais);
6 - A questão
da pobreza mundial;
7 - A destruição ambiental mundial,
e;
8 - Conflitos transculturais
localizados.
“Ninguém tem resposta clara para a questão fundamental
da segunda modernidade: como a justiça social é possível
na era global? (...) Em termos práticos, a questão está ligada
a: primeiro, organizar e incorporar garantias básicas; segundo,
fortalecer redes sociais de autoproteção e autoorganização;
e terceiro, levantar e vigiar a questão da justiça econômica
e social em escala mundial, nos centros da sociedade civil global (idem:
266-267).
Mesmo considerando as aproximações e interpenetrações
entre os três termos - mundialização, internacionalização
e globalização -, às vezes utilizados como sinônimos,
outras vezes indicando posições teóricas e realidades
concretas diferentes, apresento aqui algumas idéias pontuais
sobre cada um, relacionando com as religiões e o tema da justiça
social.
Numa primeira aproximação, é válido
constatar que, quaisquer que sejam as opções pelos termos
e eventuais interpenetrações entre eles, nos distintos
processos de sua difusão pela humanidade, algumas idéias
e práticas
cruéis se repetem (dominação, exploração,
injustiça, violência), outras positivas persistem (domínio
de línguas estrangeiras, intercâmbios de várias
naturezas, diálogo de culturas), outras aumentaram de intensidade
(rapidez das mudanças nas últimas décadas), e
outras mais irrompem como novas.
Desde logo, ciente de minhas limitações
no tratamento de uma temática tão vasta e complexa, farei
apenas referências
muito vagas às religiões mundiais em geral, fixar-me-ei
no cristianismo, porém com o foco centrado no catolicismo. E
como universo privilegiado, a América Latina. Sei que é um
recorte limitador, mas a escolha já abarca um mundo. Sobre as
religiões, entendendo-as como um conjunto de crenças
e práticas, faço uma constatação inicial:
todas são condicionadas, sob formas distintas, pelas sociedades
inclusivas; mantêm algum grau de autonomia relativa perante esses
condicionantes; e condicionam, de diferentes modos as mesmas sociedades.
Mundialização Pode ser entendido como
um processo de aumento gradativo de relações e fluxos
que se estabeleceram entre povos os mais variados, ocupando regiões
dispersas pelo mundo, nos campos econômico, político,
cultural e religioso. Desde sempre esse processo foi tenso, repleto
de tensões e conflitos.
Pois, geralmente, tratava-se da imposição de uma civilização
ou cultura à outra, com momentos, recorrentemente limitadíssimos,
de aproximação e respeito às culturas diferentes.
Neste sentido, a história da humanidade é um imenso repositório
de tentativas dessa natureza, e os impérios de todos os matizes
sempre o perpetraram. Certamente sem esquecer as condicionantes de
tempo e espaço, de conhecimento e tecnologia, que os atores
em cada conjuntura histórica propiciaram, trazendo outros horizontes,
visões de mundo, práticas que modificaram com intensidade
as realidades circundantes.
Neste marco amplíssimo, todas as grandes religiões, das
suas origens à sua consolidação, tiveram por escopo
e tudo fizeram para se mundializar, com as restrições
que seus recursos humanos e materiais permitiram (existem religiões
mais localizadas, mesmo nacionais, nas quais esse objetivo não
comparece como algo premente). No catolicismo, vale relembrar a consigna
do Evangelho “ide e pregai a todas as gentes”. E com esse
desiderato, gerou-se um vastíssimo movimento missionário,
com inserções nos tempos pré-modernos e que perduram
até os dias de hoje. O que deve ser destacado foi o fato de
que, ao mesmo tempo em que se estruturou a sede romana e os valores
e o pensamento ocidental penetraram distintas regiões do globo,
eles foram também impactados por valores e modos de pensar provenientes
de culturas e civilizações as mais diversas. O mesmo
se pode dizer das demais religiões.
No caso do catolicismo, conhece-se o período de longa duração
no qual ele se impôs como religião oficial, servindo de
ideologia legitimadora dos regimes dominantes. No continente latino-americano,
evangelizar significou apoiar decisivamente os processos de colonização
português e espanhol, numa integração orgânica.
Gutierrez resume com dureza a conquista das Índias: “ouro
e morte, cobiça e destruição”. Em seus estudos
sobre Bartolomé de Las Casas, assim sintetiza a visão
de alguns missionários: “Posto que os bens adquiridos
pelos encomedeiros são o resultado de um regime injusto e opressivo,
baseado no trabalho dos índios, se trata, moralmente falando,
de um despojo, de um roubo” (1989:48). A saída defendida
por Las Casas seria a restituição do que foi tomado injustamente.
Para ele, a presença dos colonizadores que se diziam cristãos
ia contra toda a mensagem do Evangelho.
Em todo esse período histórico, o sentido dado à caridade
foi centrado mais na caridade pessoal, num espectro que variou da esmola,
do acolhimento, de serviços de toda a ordem, até atividades
ampliadas de filantropia e assistência social. Uns poucos defendiam
os direitos dos pobres, de raiz bíblica, “condenados à morte
e à destruição pelo opressor em busca de ouro”,
o que sugere a percepção do índio, ou da nação índia,
como um oprimido, como um pobre.
E na condição dos missionários, seguindo as marcas
profundas dadas por seus fundadores e seguidores, no que concerne à concepção
de dignidade humana e seus correlatos, hierarquias, poderes, nível
de vida, prestígio etc.
Internacionalização Processo
de intensificação
gradual ou acelerado das relações e fluxos, de toda a
natureza, que se estabeleceram entre os Estados-nação,
após o surgimento e legitimação do Estado moderno,
potencializado pelo avanço do capitalismo. E, num segundo momento,
pelo próprio socialismo.
Foi a época áurea do denominado imperialismo, caracterizado
pela dominação imposta em todas as esferas sociais, mas
com um grande acento no econômico, político e militar,
de um Estado sobre outro(s). Processo que gerou fraturas imensas, rupturas,
perda de identidades anteriores dos povos existentes, contradições
de todo o tipo, um desenvolvimento desigual e combinado. Na América
Latina, fruto da reflexão de inúmeros pensadores sobre
os impactos do imperialismo nas sociedades nacionais, cunhou-se a expressão
dependência (caracterizada pelo estancamento, que acontecia também
em todas as esferas sociais, pela marginalidade e pela desnacionalização),
dos países subdesenvolvidos às injunções
dos países desenvolvidos. Houve um grande debate teórico,
com conseqüências práticas em cada sociedade nacional,
sobre os limites postos pelo desenvolvimento associado e as frágeis
ou inexistentes possibilidades de um desenvolvimento autônomo
no continente.
Outro debate teórico muito difundido se cingiu ao estudo das
categorias de formação econômico-social e modo
de produção, para dar conta de realidades históricas
concretas, singulares, num determinado período da História
(Santana Cardoso et alii, 1973; Santiago, 1975). O debate abarcava
as noções de modo de produção indígena,
modo de produção escravista, modo de produção
colonial, modo de produção mercantil, denotando a complexidade
das abordagens.
Concomitantemente, essa situação engendrou resistências
de todo o tipo, de maior ou menor intensidade, devendo-se ressaltar,
inicialmente, os movimentos de libertação nacional que
lutaram por romper as amarras que vinculavam os povos colonizados aos
colonizadores. As implicações dessas prolongadas lutas
e seus contornos foram analisadas nos marcos da chamada questão
nacional. É sabido que a libertação política
quase sempre não significou a libertação econômica,
pois a dependência, sob formas disfarçadas ou manifestas
permaneceu, e nem significou a libertação cultural basta
lembrar da celebrada análise da introjeção do
colonizador dentro do colonizado.
Tentativas de integração continental e regional vêm
desde os primórdios, podendo-se lembrar das figuras de Simon
Bolívar, Martín, O'Higgins e tantos outros, com uma visão
ora utópica, ora tida como romântica, tendo em vista os
problemas impeditivos de sua concretização e os restritos
passos práticos obtidos.
Alternando as dimensões de nacionalização (inserção
num determinado Estado-nação) e internacionalização
(relações internacionais entre Estados; no caso da Igreja
Católica, relações entre cada diocese e as instâncias
nacionais do episcopado com o Vaticano), é interessante tecer
alguns comentários. Em primeiro lugar, recordando as enormes
dificuldades de enraizamento da Igreja católica em vários
países e as tensas relações com os governos de
turno, cuja saída legal foi dada pelas Concordatas (convenções
sobre assuntos religiosos numa nação). Em segundo lugar,
as conflitivas relações mantidas por igrejas nacionais
com Roma, o que conduziu progressivamente a uma centralização
exagerada que culminou com o reconhecimento pela Itália do território
do Vaticano, e a centralização do poder na figura do
Papa.
Dada a irradiação da instituição eclesiástica
nos diversos continentes, um formato de caráter democrático,
mas com avanços limitados, foi a formação das
Conferências Episcopais que, com muitas tensões e mesmo
conflitos, incorporaram o princípio da descentralização
de muitas funções da sede romana, no entanto com um poder
diminuto. É conhecido o fato de que todas as vezes que uma Conferência
tendeu a uma maior autonomia do centro romano, e a CNBB é testemunho
desse processo, aconteceram cerceamentos. Deve-se constatar um paradoxo
em comparação com o regime secular: no sentido de que
num momento em que se estabeleciam as bases de perda da centralidade
do Estado-nação, sob as injunções da globalização,
as Conferências passaram a valorizar a dimensão nacional,
superando uma dada fragmentação ancorada nas igrejas
particulares.
Seguindo um pouco o movimento crescente de valorização
do âmbito regional, evidentemente com outra natureza e dinâmica,
típicas da sociedade moderna, surgiram as Conferências
regionais, enfrentando maiores dificuldades em função
dos obstáculos para fazer convergir experiências históricas
de nações com culturas multivariadas. Na América
Latina, coube à Conferência Episcopal Latino-Americana
- CELAM exercer um papel importante, num período de tempo limitado,
com base na liderança de um pugilo de bispos renovadores. É de
se recordar o significado das reuniões continentais e seus efeitos
internos e externos à instituição, relembrando
Puebla, Medellín e Santo Domingo. Por sua ressonância,
o evento Medellín trouxe impactos expressivos por dois motivos,
entre outros. Um primeiro, pela legitimação dada à “opção
preferencial pelos pobres”, com influência impactante nas
sociedades inclusivas. Um segundo, derivado dos diagnósticos
formulados sobre a realidade latino-americana, que receberam as contribuições
de um grupo de assessores especializados, denunciando a situação
de pobreza, as injustiças e desigualdades sociais perversas,
e o imperativo do compromisso social dos cristãos para a sua
superação.
Exatamente como resultado desses pontos houve uma inquietação
crescente de setores conservadores, instalados no interior dos diversos
países do continente, nos arraiais norte-americanos, e principalmente
na Cúria Romana. É sabido que representantes dessas forças
conservadoras, externas e internas à instituição
eclesiástica, pressionaram a diplomacia vaticana, relembrando
que se vivia a época da Guerra Fria, reivindicando uma tomada
de posição contra o que se caracterizava, segundo eles,
como uma guinada à esquerda dos participantes da Igreja Popular,
apoiada nas orientações da teologia da libertação.
O temor concreto se traduzia no que tudo isto representava de favorecimento
dos vínculos dos católicos com partidos políticos
e movimentos sócio-políticos transformadores, considerados
revolucionários e contrários ao capitalismo.
Fruto dessas pressões e temores, o CELAM oscilou para uma posição
de crítica radical e de controle sobre a Igreja Popular, e a
reunião de Santo Domingo foi a expressão maior dessa
mudança de orientação, ainda que tivesse conseguido
manter, em alguns pontos, uma análise da realidade social na
linha das reuniões anteriores. A partir daí, houve um
encolhimento da importância da Conferência.
Os embates entre conservadores e renovadores são recorrentes.
Por uma parte, as análises e as práticas inovadoras,
em certos países, se consolidaram e originaram novos formatos
eclesiais, tais como as comunidades eclesiais de base e as pastorais
populares, com irradiações continentais e mesmo para
outros continentes. Por outra parte, houve a importação
de movimentos internacionais pelas igrejas nacionais, que valorizam
uma espiritualidade de cunho mais tradicional, abandonando o compromisso
social e político.
Um resgate histórico da doutrina social da igreja católica
mostra uma tônica e busca incessante de justiça social.
Sabe-se que ela veio à luz muito em função da
situação gerada pelo capitalismo europeu, a partir das
injustas condições de vida vigentes para o proletariado.
Ainda que a interpretação da realidade e as propostas
proclamadas tendam a situar a caridade mais no sentido da filantropia
e da assistência social, não raro foram apontados caminhos
mais profundos de ações coletivas e de reformas transformadoras,
como, por exemplo, a noção de desenvolvimento, a noção
de trabalho superando a de propriedade. Para uma geração
de militantes, as encíclicas Mater et Magistra, Pacem in
Terris, Populorom Progressio serviram de bandeira para engajamentos
mais comprometidos com as mudanças sócio-econômicas-políticas,
em múltiplos países e com destaque para os da América
Latina.
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Bibliografia:
AGUIRRE,
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Igreja: carisma e poder. São Paulo, Ática.
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Liberté laïcité la guerre des deux France et le
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Latina. Córdoba, Cuadernos de Pasado y Presente/40.
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Théo Araújo (org.). (1975). América colonial ensaios.
Rio de Janeiro, Pallas.
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