
EVARISTO EDUARDO DE MIRANDA, diretor
do Instituto Ciência e Fé,
autor do livro “Guia de Curiosidades Católicas” (Ed.
Vozes)
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ANO 9 - ED 100 - JANEIRO DE
2008
O ORÁCULO CELESTE

Ilustração:
Oksana Petrova
As Sagradas Escrituras não transbordam de exemplos
de tolerância religiosa ou ecumenismo. Os magos são muito
criticados na Bíblia. Naturalmente. Eles eram considerados perigosos
feiticeiros (Gn 41,8; Ex 9,8; Dt 18,11; Dn 1,20; At 8, 9 e 13,6). Como
podem os magos se tornarem adoradores no nascimento de Jesus? Já seria
um milagre de Jesus, logo de entrada? De certa forma, sim. Esse relato
do evangelho de Mateus mostra como a ciência não afasta
obrigatoriamente o homem de Deus e, pelo contrário, pode ser
um caminho para a descoberta do Transcendente.
De volta ao Tempo Comum, é possível tomar distância
e dedicar um outro olhar a esse tema evangélico. O termo grego
do evangelho de Mateus para referir-se aos magos (Mt 2) não
designava apenas feiticeiros mas também os homens sábios,
de ciência. Para a maioria dos estudiosos, os magos do Oriente
seriam persas. Eles eram sacerdotes do zoroastrismo, estudiosos dos
astros, uma classe privilegiada e influente sobre o Estado. Eles conheciam
escrituras sagradas (Mt 2,5-6), a astronomia e, graças a sua
matemática celeste, seguiram com precisão o movimento
da estrela nos Céus (Mt 2,7).
Os magos do evangelho de Mateus
eram os cientistas daquele tempo. Astrônomos
e astrólogos, eles não precisaram de anúncios
proféticos, nem de leituras bíblicas, nem de vozes de
anjos para tomar conhecimento do nascimento do Menino Deus, do Messias.
Eles calcularam no oráculo celeste. Como cientistas, foram os
primeiros a deduzir, matemática e astronomicamente, o nascimento
desse novo rei, perscrutando a voz oracular dos Céus. Estava
escrito nas estrelas. O evento astronômico por eles observado
deve ter sido considerável para alimentar tal determinação.
E eles tinham ciência e consciência para sabê-lo.
De certa forma, não foi pela fé, nem pela religião,
e sim pela razão e pela ciência que eles chegaram até Jesus.
Sobre os Reis Magos, o evangelho de Mateus não diz se eram três,
nem reis e muito menos seus nomes. O texto relata como eles vieram
do Oriente a Belém, guiados por uma estrela, para adorar Jesus,
evoca suas aventuras com Herodes e como encontraram Maria com o Menino
Jesus, o adoraram e lhe entregaram como presentes ouro (natureza real,
presente dado a reis), incenso ou olíbano (natureza divina,
empregado no culto e altares) e mirra (para embalsamar os mortos, evocando
o sofrimento e a morte futura, sinal de imortalidade) (Mt 2,11). Segundo
a tradição, Gaspar (branco) trouxe o ouro, Melquior (moreno)
o incenso e Baltazar (negro) a mirra. O número de três
magos terá sido influenciado ou deduzido pelos três presentes
oferecidos.
Os nomes de Melquior, Baltazar e Gaspar surgiram no século VIII.
Beda o Venerável considera-os representantes da Europa, Ásia
e África, os três continentes conhecidos naquele tempo.
Na origem, os evangelhos apócrifos do século IV, como
o pseudo-Mateus e sobretudo o evangelho armênio da Infância,
transformaram os magos em doze reis e lhes atribuíram os nomes.
Talvez para mostrar a realização das previsões
do Antigo Testamento (Sl 72,10; Is 60,6). No século XVI, a necessidade
urgente de evangelizar os índios influenciou rapidamente a cultura
portuguesa, e encontrou eco imediato na arte. Vasco Fernandes no célebre
quadro “Adoração dos Magos” (1501-1506),
substituiu o tradicional Rei Mago negro, Baltazar, por um ameríndio,
com indumentária europeizada e cocar, revelando a esperança
na rápida cristianização dos índios do
Brasil. E assim, os continentes americano, africano e eurasiático
passaram a adorar Jesus na figura dos três Reis Magos.
Mesmo sendo persas, ganharam nomes judaicos. Em hebraico, este autor
hipotetiza que: Melchior significaria “rei da luz” (melech-or),
Baltazar, “senhor do tesouro” (baal-otsar) e Gaspar, “o
tesoureiro” (gisbar). O episódio do Reis Magos mostra
os muitos itinerários para chegar-se a Deus. Na busca de plenitude,
no encontro de nossa humanidade e divindade, esses itinerários
levam sempre à pessoa única de Jesus Cristo, o Verbo
Incarnado, o Filho Monógeno. Caminho, Verdade e Vida.
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