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MARIA TEREZA GOMES, é jornalista formada pela Universidade Federal do Paraná e pela University of Michigan Business School


ANO 9 - ED 101 - FEVEREIRO DE 2008

"ORA ET LABORA"
COMO UM FREIRA ALEMÃ CONSTRUIU UM CENTRO DE REFERÊNCIA EM SAÚDE NO INTERIOR DO CEARÁ

Maria Tereza Gomes


Irmã Edeltraut Lerch

"O calor nordestino era sufocante para sua pele alvíssima, mas ela dirigia assim mesmo a Rural, vidros abaixados, pelas cidades do Vale do Cariri em busca de doações e médicos interessados em dar consulta, aplicar anestesia, operar. Muitas vezes sozinha percorreu os 550 quilômetros de Barbalha, sua base de fé e trabalho, até Fortaleza, a capital do Ceará, para mais uma audiência com mais um secretário de Saúde para mais uma rodada com o pires na mão. Por iniciativa própria, aprendeu a trocar pneu, mexer no carburador, consertar a rebimboca da parafuseta. Até hoje, aos 78 anos, irmã Edeltraut gosta de dirigir e dá risada quando o povo conta que ela levantava poeira pelas rodovias maltratadas do interior cearense. Certa vez, em direção a Recife, o policial rodoviário a flagrou acima da velocidade. “Irmã, aqui só pode 80”, diz o guarda. Ela retruca: “Com 80 eu custo muito a chegar, e tenho muita coisa para resolver”.

Nem o sol escaldante nem as estradas impediram que essa irmã ligada ao Priorado do Nordeste da congregação das Beneditinas Missionárias de Tutzing, da Bavária alemã, construísse sua obra numa cidade sobre a qual jamais ouvira falar num país para onde havia sido enviada, sem consulta prévia, 15 anos antes. Um cronista local, Napoleão Tavares Neves, relatou assim a inauguração do Hospital Maternidade São Vicente de Paulo ocorrida no dia 1º de maio de 1970: “Após a santa missa inaugural as portas foram abertas à visitação pública. O espanto foi geral: era grande demais, luxuoso para cidade de gente tão pobre. Não tem como manter-se aberto, diziam todos”.


Inauguração do auditório:
irmã Edeltraut e o secretário de
saúde do Ceará, Dr. João Ananias

Não era falta de fé a incredulidade do povo daquela cidade pobre que vivia à sombra de Juazeiro do Norte, o berço do poderoso Padre Cícero, distante apenas 10 quilômetros. É que poucos conheciam a terceira dos sete filhos do casal Gisela e Wenzel Lerch, nascida em 5 de dezembro de 1929 num pedaço alemão que naquele período pré-Segunda Grande Guerra ainda pertencia à República da Checoslováquia. Nada sabiam sobre a família de pequenos fazendeiros que perdeu, de uma só vez, sua nacionalidade, sua terra e a possibilidade de ter batata e pão à mesa. Nada sabiam sobre a jovem que, num trem apinhado de desabrigados, deixou para trás a adolescência, passou fome, virou empregada doméstica, e se descobriu adulta, aos 20 anos, em Frankfurt, quando diz ter sentido o chamado para a vida religiosa.

 
Da esquerda para a direita:
Irmgard, irmã Edeltraut e Ilse
Lerch. Irmãs de sangue.

Os pais foram contra, mas em 1950 ela virou noviça. Como as beneditinas são uma ordem pobre, de freiras trabalhadoras, ela escolheu estudar enfermagem. Em outubro de 1955, foi enviada para o Priorado de Olinda, no litoral de Pernambuco. Nada sabia de português, mas ensinou puericultura e higiene no curso de pedagogia, ajudou a formar novas freiras e era também enfermeira da Casa Mãe. Em 1969, nomeada superiora e diretora da nova Fundação do Hospital-Maternidade São Vicente de Paulo, foi de ônibus para Barbalha, onde está até hoje.

Quando desceu da condução, pediu informações a um menino que fazia bicos por ali, carregando compras dos freqüentadores da feira de rua - como a maioria das crianças dali, aquele trabalhava desde sempre. Era Antonio Ernani de Freitas aos 8 anos, seu futuro braço direito, quase filho pelas próximas décadas. O hospital para onde ele a levou era um conjunto de paredes. Sem equipamentos, sem camas, sem viva alma. Ao inaugurá-lo, um ano depois, tinha maternidade, pediatria, clínica médica e isolamento. Antes do São Vicente de Paulo, os barbalhenses levavam seus doentes para Crato distante 24 quilômetros, ainda hoje maior e mais desenvolvida.


 Jantar com empresários da GE em São Paulo

Quem quiser pode ir verificar o São Vicente de Paulo atual: atende a 45 municípios da região com seus 216 leitos; tem pronto-socorro, UTI (inclusive neo-natal) e clínicas médica, cirúrgica, pediátrica, obstétrica e unidade de médio risco. Em meados de 2004, atendeu a média de 40 mil pessoas por mês. Só na fisioterapia foram quase três mil atendimentos. E ainda tem a Unidade de Oncologia, a única fora de Fortaleza, inaugurada com banda (a irmã adora banda!) e políticos. José Serra, então ministro da Saúde, foi. Somadas, quimioterapia e radioterapia fazem mais de três mil sessões mensais.

 
Da esquerda para a direita: irmã Edeltraut,
Dr. Aramicy Pinto, presidente da associação
dos hospitais do Ceará;
Dr. Rommel Feijó, deputado federal na íntrega
da comenda Manoel Carlos de Gouveia

"Essa entidade filantrópica, de assistência social no ramo de saúde e sem fins lucrativos - as irmãs têm voto de pobreza, e todo o lucro é revertido para o hospital -, é um centro de referência de saúde no interior do Nordeste brasileiro. Para construí-lo, a irmã Edeltraut ora e trabalha incansavelmente, como ensinou São Bento, o pai dos monges, nascido em 480.

Até ser aposentada compulsoriamente aos 75 anos - uma regra na maioria das congregações -, a irmã acordava todos os dias às 3h da madrugada. Depois de orar e meditar, visitava os pacientes. Por volta das 5h, voltava à capela para as orações rituais com as outras irmãs. Só então, tomava o café. O dia seguia com mais uma ronda pelo hospital, burocracias do cargo e reuniões com os assessores diretos, mas só quando havia necessidade. Ernani e Antonina Luna Ribeiro (esta, colaboradora por quase 33 anos), dizem que ela nunca tomava decisões antes de ouvi-los, mas não se esquivava da última palavra, nem mesmo das mais difíceis. Em meados da década de 80, com os recursos oficiais à míngua, precisou demitir metade dos funcionários. Falou e chorou - com cada um deles. Quando o dinheiro voltou a pingar, muitos foram recontratados. Atualmente, 500 médicos, enfermeiros e funcionários trabalham com carteira assinada para o São Vicente de Paulo.


 
Da esquerda para a direita: senhora Alexandra; embaixador da
alemanha no brasil; Sr. Antonio Ernani de Freitas e irmã Edeltraut
Lerch, por ocasião da visita do embaixador à Barbalha e mais
especialmente à irmã Edeltraut.

Em Barbalha, ninguém se lembra da irmã sem trabalhar. Se ela não tinha nada para fazer, limpava paredes e o chão. Vivia com um pano na mão. O povo dali gosta de contar como corria para cima e para baixo em busca de dinheiro para manter e ampliar sua obra. Também falam da vez, com o hospital ainda fechado, em que ela percorreu 30 cidades alemãs falando nos púlpitos das igrejas sobre uma cidade carente no interior do Brasil que precisava de um hospital. Além de doações em dinheiro, conseguiu o primeiro raio X. Em outra ocasião, ao ler na revista Exame sobre o então poderoso CEO da General Electric, Jack Welch, mandou uma carta para ele lá nos Estados Unidos. Solicitava ajuda para comprar (quem sabe, ganhar!) um desses equipamentos caríssimos que a multinacional americana fabrica. A doação não veio, mas o desconto viabilizado pela filial brasileira ajudou na compra.

É assim que o Cariri, região conhecida como a terra dos verdes canaviais embora no meio do deserto, é abençoada com chuvas constantes aprendeu a amar a irmãzinha, como a chama o político Tasso Jereissati, cuja carteira de identidade é de estrangeira permanente, que no estado civil é religiosa e que, perguntada se sente orgulho do que realizou, responde: “Orgulho? Isso não, o que me encanta mais é a humildade. O que me deixa feliz é o senso de missão cumprida”.

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