![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
|
MARIA TEREZA GOMES, é jornalista
formada pela Universidade Federal do Paraná e pela University
of Michigan Business School |
"ORA ET LABORA" Maria Tereza Gomes ![]() Irmã Edeltraut Lerch "O calor nordestino era sufocante para sua pele alvíssima,
mas ela dirigia assim mesmo a Rural, vidros abaixados, pelas cidades
do Vale do Cariri em busca de doações e médicos
interessados em dar consulta, aplicar anestesia, operar. Muitas vezes
sozinha percorreu os 550 quilômetros de Barbalha, sua base de
fé e trabalho, até Fortaleza, a capital do Ceará,
para mais uma audiência com mais um secretário de Saúde
para mais uma rodada com o pires na mão. Por iniciativa própria,
aprendeu a trocar pneu, mexer no carburador, consertar a rebimboca
da parafuseta. Até hoje, aos 78 anos, irmã Edeltraut
gosta de dirigir e dá risada quando o povo conta que ela levantava
poeira pelas rodovias maltratadas do interior cearense. Certa vez,
em direção a Recife, o policial rodoviário a flagrou
acima da velocidade. “Irmã, aqui só pode 80”,
diz o guarda. Ela retruca: “Com 80 eu custo muito a chegar, e
tenho muita coisa para resolver”. ![]() Inauguração do auditório: irmã Edeltraut e o secretário de saúde do Ceará, Dr. João Ananias Não era falta de fé a incredulidade do povo daquela cidade
pobre que vivia à sombra de Juazeiro do Norte, o berço
do poderoso Padre Cícero, distante apenas 10 quilômetros. É que
poucos conheciam a terceira dos sete filhos do casal Gisela e Wenzel
Lerch, nascida em 5 de dezembro de 1929 num pedaço alemão
que naquele período pré-Segunda Grande Guerra ainda pertencia à República
da Checoslováquia. Nada sabiam sobre a família de pequenos
fazendeiros que perdeu, de uma só vez, sua nacionalidade, sua
terra e a possibilidade de ter batata e pão à mesa. Nada
sabiam sobre a jovem que, num trem apinhado de desabrigados, deixou
para trás a adolescência, passou fome, virou empregada
doméstica, e se descobriu adulta, aos 20 anos, em Frankfurt,
quando diz ter sentido o chamado para a vida religiosa. ![]() Da esquerda para a direita: Irmgard, irmã Edeltraut e Ilse Lerch. Irmãs de sangue. Os pais foram contra, mas em 1950 ela virou noviça. Como as
beneditinas são uma ordem pobre, de freiras trabalhadoras, ela
escolheu estudar enfermagem. Em outubro de 1955, foi enviada para o
Priorado de Olinda, no litoral de Pernambuco. Nada sabia de português,
mas ensinou puericultura e higiene no curso de pedagogia, ajudou a
formar novas freiras e era também enfermeira da Casa Mãe.
Em 1969, nomeada superiora e diretora da nova Fundação
do Hospital-Maternidade São Vicente de Paulo, foi de ônibus
para Barbalha, onde está até hoje. ![]() Jantar com empresários da GE em São Paulo Quem quiser pode ir verificar o São Vicente de
Paulo atual: atende a 45 municípios da região com seus
216 leitos; tem pronto-socorro, UTI (inclusive neo-natal) e clínicas
médica,
cirúrgica, pediátrica, obstétrica e unidade de
médio risco. Em meados de 2004, atendeu a média de 40
mil pessoas por mês. Só na fisioterapia foram quase três
mil atendimentos. E ainda tem a Unidade de Oncologia, a única
fora de Fortaleza, inaugurada com banda (a irmã adora banda!)
e políticos. José Serra, então ministro da Saúde,
foi. Somadas, quimioterapia e radioterapia fazem mais de três
mil sessões mensais.
![]() Da esquerda para a direita: irmã Edeltraut, Dr. Aramicy Pinto, presidente da associação dos hospitais do Ceará; Dr. Rommel Feijó, deputado federal na íntrega da comenda Manoel Carlos de Gouveia "Essa entidade filantrópica, de assistência social no ramo
de saúde e sem fins lucrativos - as irmãs têm voto
de pobreza, e todo o lucro é revertido para o hospital -, é um
centro de referência de saúde no interior do Nordeste
brasileiro. Para construí-lo, a irmã Edeltraut ora e
trabalha incansavelmente, como ensinou São Bento, o pai dos
monges, nascido em 480. ![]() Da esquerda para a direita: senhora Alexandra; embaixador da alemanha no brasil; Sr. Antonio Ernani de Freitas e irmã Edeltraut Lerch, por ocasião da visita do embaixador à Barbalha e mais especialmente à irmã Edeltraut. Em Barbalha, ninguém se lembra da irmã sem trabalhar. Se ela não
tinha nada para fazer, limpava paredes e o chão. Vivia com um pano na
mão. O povo dali gosta de contar como corria para cima e para baixo em
busca de dinheiro para manter e ampliar sua obra. Também falam da vez,
com o hospital ainda fechado, em que ela percorreu 30 cidades alemãs falando
nos púlpitos das igrejas sobre uma cidade carente no interior do Brasil
que precisava de um hospital. Além de doações em dinheiro,
conseguiu o primeiro raio X. Em outra ocasião, ao ler na revista Exame
sobre o então poderoso CEO da General Electric, Jack Welch, mandou uma
carta para ele lá nos Estados Unidos. Solicitava ajuda para comprar (quem
sabe, ganhar!) um desses equipamentos caríssimos que a multinacional americana
fabrica. A doação não veio, mas o desconto viabilizado pela
filial brasileira ajudou na compra. |
|