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LUIZ EDUARDO WALDEMARIN WANDERLEY, professor titular da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Assessor "ad hoc" do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, Assessor "ad hoc" do Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, sócio do Ação Educativa e sócio do Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular. Já ministrou conferência para o Icefé.


ANO 9 - ED 101 - FEVEREIRO DE 2008

DESAFIOS DA GLOBALIZAÇÃO
PARA AS RELIGIÕES (2)

Luiz Eduardo W. Wanderley

Com uma consciência clara dos efeitos negativos do regime capitalista, muitos dos quais denunciados com vigor nos documentos pontifícios, e dos perigos do regime comunista, principalmente considerando o ateísmo pregado por seus dirigentes e a perseguição dos cristãos realizada em alguns países que suscitaram o refrão de “Igreja perseguida”, houve uma opção clara em todos os documentos da DSI pela Terceira Via, rejeitando as vias do capitalismo e socialismo reais. Como linhas norteadoras de uma sociedade mais justa e humana, em razão das diretrizes traçadas, surgiram as elaborações fecundas do humanismo integral, do personalismo, do solidarismo cristão, que foram assimiladas por diversos grupos e movimentos pelo mundo. Como projeto societário, o modelo que vingou e se expandiu pelo mundo foi o da Democracia Cristã, com presença ativa no continente europeu e mesmo em certos países da América Latina. Apesar de experiências valiosas em governos que presidiram, aqui e acolá, suscitando mesmo, em alguns partidos latino-americanos, tendências mais à esquerda do espectro político, no geral seus membros tenderam para a aceitação do capitalismo e posições mais à direita, ou da social-democracia seguindo o modelo que vingou na Europa.

Se tomarmos por referência o surgimento e a difusão da modernidade, todas as religiões mundiais passaram por profundas dificuldades para assimilá-la. No conjunto dos elementos que a definem, considerando o processo de racionalização, ressalta o da secularização e da laicização, quer entendidos como sinônimos, quer entendidos como explicação científica que supera a precedente explicação religiosa, no de secularização, e como separação da Igreja e do Estado, no de laicização.
Poulat sugere uma grade sofisticada de análise, tendo por base a França, mas que pode ser ampliada pra outras realidades:

1- Um fenômeno de sociedade: emergência da consciência, do indivíduo, da razão como instâncias necessárias e suficientes, enquanto que a religião cessa de ser constitutiva da vida social, da ordem pública e da moral comum.

2 - Dois quadros de referência: a instituição católica com seus dois estatutos (clérigos e leigos); uma entidade política (laicidade de ou no Estado) e a Santa Sé como poder internacional.

3 - Três planos de realidade: o Estado, as instituições e poderes constituídos, e a sociedade civil.

4 - Quatro sistemas de legitimação: - uma laicidade “sacral”, englobada numa visão transcendente da sociedade; - uma laicidade “esclarecida”, englobando a Igreja e o cristianismo numa concepção imanente da história - ultrapassagem da precedente; - uma laicidade “radicalizada”, aquela reclamada pela IIIª República, cumprimento da precedente; -uma laicidade “reconhecida”, na Constituição, uma República laica.

Um tema recorrente, durante um largo período histórico, contempla a “guerra” entre o Papado e os liberais, muitos dos quais católicos. Em contraposição ao individualismo proclamado pelo liberalismo, o livre pensar, o livre exame, a liberdade de consciência, de religião, a Igreja se sentiu mortalmente atingida. “Em síntese, o individualismo liberal secretava o indiferentismo religioso e o ateísmo social”, sociedade laicizada, não tendo mais necessidade de Deus para governar a sua marcha, o reservava à vida privada, na esfera íntima da consciência e da família” (Poulat, 1987:57). A Igreja romana estigmatizará e reprimirá os católicos que se diziam liberais e modernos.

À guisa de conclusão, ele dirá: “Burgueses e proletários: luta de classes, ao redor do poder. Leigos e clérigos: guerra de escolas, ao redor do saber. Poder que se legitima por seu saber e saber que é a entrada de um poder. Um Carrefour ideológico e estratégico: as relações entre igreja, burguesia, laicidade, saber, poder, liberdade” (Poulat, p. 265).

Um dos maiores escândalos, que perpassa a história da religião católica e, com maior ou menor incidência nas demais religiões, se fixa no tema da justiça e seu aguilhão a pobreza. Não cabe aqui trazer à tona as trágicas estatísticas da pobreza absoluta e relativa que circundam todos os continentes, mormente nos países empobrecidos e, retoricamente denominados de emergentes, de resto amplamente conhecidas. Se a pobreza e as injustiças permeiam a história da humanidade, mesmo ressalvando momentos de sua diminuição e tentativas bem sucedidas de sua superação e até eliminação, em teoria e no discurso as religiões mundiais a denunciam, combatem e procuram minimizá-las com propostas concretas. No caso do cristianismo, desde a origem, a comunhão e a divisão dos bens era um desiderato e, por um bom tempo, orientou a vida dos fiéis. Mas, com o passar dos anos, a partilha dos bens se reduziu a condutas paternalistas e até humilhantes, com algumas exceções fecundas.

Considerando, pois, a prática efetiva dos cristãos, profetas, santos, padres da Igreja, autoridades, movimentos, leigos e clérigos, têm feito denúncias, elaborado medidas para que a mensagem evangélica não fique nas palavras e leve a ações. Inúmeros analistas, de várias correntes teóricas e políticas, mesmo com diferenças substanciais entre eles, mostram os impactos das mudanças trazidas pela globalização no sentido de ampliar ou aprofundar a pobreza, como resultante da globalização neoliberal em curso (desemprego estrutural, flexibilização do trabalho, exclusão social etc.).

No cristianismo, por exigência derivada da própria tradição, a opção pelos pobres tem sido uma bandeira permanente. Citando vozes alternadas, o Sínodo dos Bispos de 1971 lembrava; “A ação a favor da justiça e a participação na transformação do mundo apresenta-se-nos, claramente, como uma dimensão constitutiva do anúncio do Evangelho, quer dizer, missão da Igreja para a redenção do gênero humano e libertação de toda situação opressora”. Dom Pedro Casaldáliga, em carta ao papa João Paulo II, escrevia que ”não podemos dizer com muita sinceridade já termos feito a opção pelos pobres. Em primeiro lugar, porque não partilhamos, em nossas vidas e em nossas situações, a pobreza real experimentada por eles. E, sem segundo lugar, porque não atuamos, diante da 'riqueza da iniqüidade', com aquela liberdade e firmeza adotadas pelo Senhor. O opção pelos pobres, que não excluirá nunca a pessoa dos ricos uma vez que a salvação é oferecida a todos e a todos deve ser dirigido o ministério da Igreja -, exclui o modo de vida dos ricos, 'insulto á miséria dos pobres', e seu sistema de acumulação e de privilégio, necessariamente espoliador e marginalizador da imensa maioria da família humana, de povos e de continentes inteiros” (Casaldáliga, 1988: 31).

> CONCLUI NA PRÓXIMA EDIÇÃO

Bibliografia:

AGUIRRE, Luis Pérez. (1996). A Igreja em crise questões pendentes para seu terceiro milênio. São Paulo, Ática. BOFF, Leonardo. (1994). Igreja: carisma e poder. São Paulo, Ática.

CASALDÁLIGA, Pedro. (1988). Carta ao papa João Paulo II. Iglesias, N.60.

GUTIÉRREZ, Gustavo. (1989). Dios o el oro en Las Índias siglo XVI. Lima, Perú, CEP/RIMAC.

POULAT, Émile. (1987). Liberté laïcité la guerre des deux France et le principe de la modernité. Paris, Cerf/Cujas.

SANTANA CARDOSO, Ciro Flamarion et alii.(1973). Modos de producción en América Latina. Córdoba, Cuadernos de Pasado y Presente/40.

SANTIAGO, Théo Araújo (org.). (1975). América colonial ensaios. Rio de Janeiro, Pallas.

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Desafios para a globalização (1)

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