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ORIOVISTO GUIMARÃES é Reitor da Universidade Positivo, Diretor-presidente do grupo Positivo e integrante da Academia Paranaense de Letras.

 


ANO 9 - ED 102 - MARÇO DE 2008

O MAIS TERRÍVEL DE TODOS OS ENGANOS

Oriovisto Guimarães

Parece-me ser fato inegável que a maioria dos homens, a grande massa, não gosta de conviver com a dúvida e encarar na solidão, que é a condição de existência do indivíduo, o peso das perguntas que há muitos séculos atormentam os homens. De onde vim? Para onde vou? A morte é o fim de tudo? Por que existe alguma coisa ao invés de não existir nada? Como fazer justiça? O que é o bem? O que é o mal? Qual o regime político ideal? Democracia? Ditadura do proletariado? Como devo proceder em minha vida afetiva? E com minha sexualidade?

Muitas perguntas, muitas inquietações, poucas respostas definitivas. Na busca da paz interior, muitos homens cometem o mais terrível de todos os enganos, terceirizam o trabalho de crescimento de sua própria alma e tornam-se espíritos-anões que vivem subjugados pelas idéias de um único guru, uma única ordem mística ou religiosa, ou uma única utopia política. São evidentes as semelhanças entre os sacerdotes e os militantes. Dissolvem o próprio ego no grupo a que pertencem, matam as dúvidas cometendo um verdadeiro suicídio da individualidade.

É famosa a frase que muitos atribuem a Sócrates, mas que na verdade estava escrita na entrada do Tempo de Delfos “conhece-te a ti mesmo”. Isso há mais de 2400 anos.

Mas como conhecer um eu que já não existe? Um eu que naufragou no nós?

O próprio Cristo, quando interrogado pelos fariseus sobre quando viria o reino de Deus, respondeu: “Não vem o reino de Deus com visível aparência. Nem dirão: Ei-lo aqui! Ou: lá está! Porque o reino de Deus está dentro de vós”. (Lc 17. 20, 21 Bíblia Sagrada, Ed. SBB).

Como chegar ao reino de Deus se o diluí no partido político, na utopia, no guru de plantão ou na verdade única de uma dada religião?

Não sou religioso, não pretendo discutir aqui se existe vida após a morte ou mesmo um reino de Deus. Mas o reino de Deus, na Terra, aqui nesta vida, é o que eu chamo de felicidade e concordo totalmente com Cristo, ele está dentro de nós.

Pico Della Mirândola, que nasceu em 1463, em seu famoso ensaio De Hominis Dignitate, explica que quando Deus fez o mundo deu a cada criatura uma natureza perfeita, pronta e acabada. O homem foi a única criatura que deixou inacabada e para compensar concedeu-lhe o livre arbítrio.

Nas palavras de Pico Della Mirândola: “Ó Adão, Deus não te criou nem celeste nem terreno, nem mortal nem imortal. A ti, e somente a ti, como criador de ti mesmo, caberá escolher a forma que mais te agrada. Poderás degenerar para os níveis mais baixos da vida terrena e te tornares um animal, ou ascender aos mais altos níveis da existência e te tornares uma criatura divina”.

Arthur Schopenhauer escreveu por volta de 1800: “A principal verdade da arte de ser feliz continua sendo a de que tudo depende muito menos daquilo que se tem ou representa do que daquilo que se é. A personalidade é a felicidade suprema. Em todas as ocasiões possíveis usufrui-se na verdade apenas de si mesmo. Se o próprio eu não vale muito, então todos os prazeres são como vinhos excelentes em boca azedada com fel”.

Epicteto, sábio estóico, nascido no ano 55 d.C. disse: “Se alguém desse seu corpo para um passante qualquer, você naturalmente ficaria furioso. Por que, então, você não sente nenhuma vergonha em entregar sua preciosa mente a qualquer pessoa que queira influenciá-la?”

André Comte-Sponville, filósofo francês contemporâneo, afirma: “Sem o indivíduo, o povo não passa de um mito; a sociedade, de uma abstração; o Estado, de um monstro”.

Outro dia tive um sonho com o reino de Deus em que acredito, aquele que está dentro de nós, e na porta principal não vi São Pedro com uma chave na mão; havia sim uma fechadura giratória, como na porta de um cofre-forte. Mais abaixo, uma tabuleta que dizia: “Se você quer entrar, descubra sozinho o segredo que abre a porta, não atendemos intermediários ou ajudantes, pois o segredo é diferente de pessoa para pessoa e a qualquer tentativa desonesta de arrombar a porta abre-se um alçapão que leva direto para o reino da infelicidade”.

Transcrito do jornal Gazeta do Povo, de 29/02/2008

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