
EVARISTO E. DE
MIRANDA, doutor em ecologia, autor do livro “Guia
de curiosidades católicas”, recém editado pela
Ed. Vozes e diretor do Instituto Ciência e Fé. Dirige
a EMBRAPA Monitoramento Ambiental por Satélite, Campinas/SP.
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ANO 9 - ED 102 - MARÇO DE
2008
A VIDA E OS ÍNDIOS DESALMADOS
Evaristo
Eduardo de Miranda

Uma lenda propaga que, na descoberta
da América, a Igreja teria discutido se os índios eram
seres humanos, com alma. Uma tese relevante, pois permitiria escravizá-los.
Para a Igreja, quem a defendia eram os verdadeiros desalmados. Com
esses desumanos, ela discutiu e enfrentou-se, como fez em defesa da
vida nesta Campanha da Fraternidade de 2008.
A idéia vinha de longe. Aristóteles, em
seu livro “Política”, mencionava os povos bárbaros
como escravos por natureza. Seu destino era o de serem conquistados,
escravizados e de servir aos gregos. Um direito justo, dado por superioridade
racial. A tese teve ampla difusão e fundamentou a escravidão
na Grécia e na expansão romana. Os nazistas desenvolveram,
no século XX, uma aplicação semelhante aos eslavos,
ciganos e judeus. Situações análogas ocorriam
há milênios, sobretudo na África negra. O mundo
era assim. E essa tese chegou nas Américas, na espada de alguns
conquistadores castelhanos.
No século XVI, o Papa Paulo III interveio. Afirmou, solenemente
na bula Sublimis Deus, de 1537, que os índios eram homens e
tinham alma. Naquele tempo, uma bula papal era como uma resolução
da assembléia geral da ONU. A Sublimis Deus, considerada por
juristas a primeira declaração universal dos direitos
humanos, enfrentou Estados e grupos de interesses.
Essa Carta Magna dos índios, proclamou solenemente: “Nós,
ainda que indignos, exercemos na terra o poder de Nosso Senhor (...)
consideramos que os índios são verdadeiros homens”.
Na defesa de seus direitos e bens, o Papa agregava “que os ditos índios
e todas as outras gentes (...) ainda que estejam fora da Fé de
Cristo não haverão de ser privados de sua liberdade e
do domínio de suas coisas, antes bem podem livre e licitamente
usar, possuir e usufruir de tal liberdade e domínio, e não
se deve reduzi-los a servidão”. Essa bula foi a primeira
proclamação intercontinental dos direitos inerentes a
todos os homens e da liberdade das nações, acima de Estados,
sistemas políticos e interesses econômicos. A Igreja e
a lei portuguesa defenderam o direito originário dos índios
independente da tutela do Estado ou de quem fosse.
Passados 500 anos, todos dão razão à postura da
Igreja. Daqui a 500 anos, qual será o entendimento (e o julgamento)
da posição da Igreja sobre pesquisas genéticas
com embriões humanos? Como no século XVI, ela vê o
embrião como uma pessoa humana, indefesa. Necessita ser protegida.
O grau de civilização de uma sociedade se mede pela atenção
que ela dedica na defesa dos mais frágeis e indefesos, proclamou
o Papa João Paulo II. Como no século XVI, outros grupos
pensam o contrário: embriões não são pessoas.
Não têm direitos humanos. Não são pessoa
jurídica. São objetos. Podem ser manipulados em pesquisas.
Isso ajudará a curar doenças e beneficiará pessoas.
Alguns falam com pretensa autoridade científica. Outros anunciam
claramente seus interesses: lucros e genodólares associados às
pesquisas.
Se o Estado é leigo, a nação, o povo e a sociedade
brasileira não são. Alguns tentam negar aos defensores
incondicionais da vida, o direito de fazê-lo. A Igreja e a fé não
deveriam meter-se com isso. Como João Batista em seu tempo,
a Igreja não negocia sua doutrina. Não se cala. Não
abdica de defender a vida, mesmo e quando a sua palavra é silenciada,
deturpada, criticada ou apresentada como sem sintonia com a “modernidade”.
Sua palavra não impediu a morte de milhares de índios.
Nem impedirá a de milhares de embriões e fetos. Ela continuará sendo
pronunciada e ecoando no coração dos homens de boa vontade.
Foi assim nesta Campanha da Fraternidade. É assim, há dois
mil anos. No que pese Herodes e suas propostas cotidianas de matança
de inocentes: “Escolhe, pois, a vida!” (Dt 30,19).
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