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CÍCERO DE ANDRADE URBAN, é Médico Oncologista e Mastologista, professor titular de Metodologia Científica e Bioética na Universidade Positivo e colaborador do Instituto de Ciência e Fé, autor de “Bioética Clínica”, entre outros.

 


ANO 9 - ED 102 - MARÇO DE 2008

ENTRE A CIÊNCIA E A FÉ

Cícero Urban

“As tecnologias provenientes das células-tronco possuem potencial de modificar tanto a maneira com a qual nós tratamos as doenças, quanto a forma de como compreendemos a vida”. Dessa maneira se expressou Débora Spar, pesquisadora da Universidade de Harvard, em editorial publicado na mais importante revista médica do mundo.

A pesquisa com células-tronco vem sendo colocada na imprensa leiga e científica, ou mesmo na internet, como o grande avanço para a descoberta de tratamentos efetivos para doenças degenerativas tais como: o diabetes, a insuficiência cardíaca, o mal de Parkinson, o Alzheimer, a recuperação de traumas medulares e, até mais recentemente, para a cura do câncer. É preciso, por outro lado, lembrar que são avanços “potenciais”, ou seja, que podem ocorrer para algumas áreas e que os seus limites e efeitos indesejados ainda são quase totalmente desconhecidos. Não é demais recordar que em medicina não existe panacéia que cure a todos os males.

A ciência não evolui através do otimismo fácil ou do entusiasmo dos pesquisadores e da sociedade, mas através da superação de contrastes e de paradigmas. Para Popper, não conseguimos efetivamente comprovar uma hipótese científica, mas conseguimos desmenti-la. É a sua teoria da falseabilidade, que faz (ou deveria fazer) de nós pesquisadores ao mesmo tempo críticos e ponderados em nossas afirmações. A verdade científica é passageira.
A verdade teológica, por outro lado, é proveniente da revelação divina. Perene e dogmática em suas colocações. As grandes religiões têm se posicionado de maneira contrária ao relativismo moral, à perda do senso de família, à dessacralização da vida e ao uso de alguns seres humanos em detrimento de outros.

O embrião humano, sem nenhum estatuto ontológico ou jurídico até hoje que o proteja, é hoje considerado para alguns um amontoado de células e, portanto, como um objeto disponível. Para outros, é um ser humano em fase inicial e que merece o mesmo respeito e proteção jurídica dado aos outros seres humanos. Uma terceira via defende que o embrião deve ser protegido conforme o grau de desenvolvimento em que se encontra. Dentro deste último ponto de vista, apenas os embriões em fase precoce poderiam ser utilizados nas pesquisas. Esta fase é denominada por alguns como pré-embrião. Portanto, é preciso deixar claro que não existe consenso nem entre os cientistas em relação a isto.

A ciência aprendeu algumas lições bastante duras com a sua imprudência nos últimos anos. A aplicação prematura da terapia gênica provocou a morte de alguns voluntários sadios nas pesquisas nos Estados Unidos. Também foram graves as conseqüências médico-legais da transmissão do vírus da aids e da hepatite C através de transfusões de sangue, e da encefalopatia espongiforme (a doença da “vaca louca”), que provocou a morte de seres humanos e de animais. Dentro desta perspectiva de risco, um único clone de células-tronco pode ser empregado em centenas ou milhares de pacientes, amplificando em progressão geométrica a transmissão de doenças que vimos até hoje em progressão aritmética com outras tecnologias. Muitas destas doenças, de origem viral, em príons ou predisposição genética a tumores, ainda não possuem testes específicos.

As células-tronco embrionárias produzem teratomas em animais de laboratório. Estes são tumores, em sua maioria benignos, mas que já demonstram o potencial oncogênico destas células. Todo novo fármaco descoberto inicialmente é testado em animais de laboratório. Caso este fármaco produza tumores (sejam eles benignos ou malignos) nestes animais, o produto é automaticamente descartado e não será utilizado para pesquisa em seres humanos. É pesquisa considerada antiética, em que o risco é maior do que os potenciais benefícios.

Além disso, em oncologia, as células-tronco vêm sendo estudadas como as responsáveis, junto com outros fatores, pela resistência dos tumores aos tratamentos quimioterápicos e à sua maior agressividade. Portanto, nem tudo o que estas células produzem pode ser considerado como positivo. Aliás, o câncer é considerado como uma doença de células-tronco.

Por outro lado, as pesquisas com células-tronco adultas, as que não são de origem embrionária, têm apresentado resultados bastante promissores em diversas doenças e os riscos que envolvem o uso destas células em seres humanos parecem menores. Não enfrentam a mesma resistência do organismo receptor, a possibilidade de transmissão de doenças e a oposição teológica são menores. As maiores dificuldades encontram-se ainda na sua identificação e cultivo, processo que vem sendo estudado em vários centros e que vem apresentando resultados positivos. Não parece que as células-tronco embrionárias possam apresentar aplicação direta em seres humanos, mas que possam servir apenas para uma melhor compreensão das doenças. Teriam, portanto, um benefício indireto. Mas rotas alternativas estão sendo criadas e é possível que não tenhamos necessidade dos embriões.

Assim, antes mesmo de colocarmos à prova os dogmas teológicos, precisamos vencer etapas científicas importantes e que não serão resolvidas em poucos anos. Parece, para alguns, que a grande barreira para todo o progresso está na religião ou na maneira de como iremos enquadrar o embrião na nossa sociedade e no direito. Entretanto, são estas mesmas células embrionárias que nos apresentam as esperanças e as ilusões da tecnologia a nos colocarem as barreiras da prudência científica. Cientistas, teólogos, filósofos, bioeticistas e juristas devem estar atentos para não transformá-las nas tragédias anunciadas da imprudência e do imediatismo fácil, que tantas vezes se repetiram na história da humanidade.

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