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ANO 9 - ED 102 - MARÇO DE
2008
O TERCEIRO SETOR EM VOGA
reportagem
de Rafael Riva Finatti
O Terceiro Setor está ganhando espaço
e não é só em decorrência dos escândalos
de corrupção, tal como vem sendo noticiado na imprensa
brasileira. Apesar de não haver dados exatos sobre o número
de entidades no país “neste momento, em algum lugar,
pode estar sendo criada uma ONG”, afirma o jornalista José Carlos
Fernandes, professor da PUC-PR estima-se que o Terceiro Setor seja
um dos segmentos que mais crescem no Brasil. Em 2002, as fundações
e associações sem fins lucrativos representavam aproximadamente
5% das organizações existentes no país, um crescimento
de 156% em relação a 1996. Hoje, o número de entidades
do Terceiro Setor já teria passado das 300 mil, envolvendo mais
de 1,5 milhão de pessoas.
Tamanho crescimento gera uma demanda: profissionais capazes de melhor
gerir essas instituições. Por isso, estão surgindo
em todo o país cursos de especialização e aperfeiçoamento
na área, voltados tanto para profissionais e voluntários
que já atuam em entidades sem fins lucrativos, como também,
para pessoas interessadas em criar uma ONG e outros curiosos pelo tema
e com interesse em ter um diferencial em seu currículo profissional.
Em Curitiba, instituições de ensino privadas como a UnicenP
(hoje Universidade Positivo), a Facinter, a UniFAE, o CIPPEX (Centro
Internacional de Pesquisa, Pós-Graduação e Extensão)
e a PUC já ofertaram ou vão ofertar cursos relacionados
ao Terceiro Setor.
Neste mês de março, também a Universidade Federal
do Paraná, através do Núcleo Interdisciplinar
de Estudos sobre o Terceiro Setor (NITS) está ofertando um curso
na área: “ONGs: Princípios Fundamentais para sua
criação e manutenção”. Com uma carga
horária de 364 horas/aula divididas em 21 módulos teórico/práticos
e 1 aplicado com estudo de caso, o curso promovido pelo NITS tem como
diferencial a interdisciplinaridade e a oportunidade de aplicar os
conhecimentos obtidos em uma organização real.
Os objetivos são muito claros: “propiciar aos participantes
adquirir capacidade de avaliação prévia das conveniências
conjunturais e estruturais para criação de uma nova organização
não governamental, fornecer conhecimentos dos princípios
fundamentais que devem nortear a decisão de sua criação
e capacitar para a sua gestão de forma que ela se consolide
no tempo e se mantenha como instituição saudável,
acreditada e com sustentabilidade”, enuncia o folder do curso.
Para a coordenadora do NITS, Ana Lucia Jansen de Mello Santana, a falta
de profissionais capacitados para atuar nas organizações
do Terceiro Setor foi a principal razão para a criação
do curso, em 2005. Segundo ela, muitas ONGs são criadas por
motivações diversas, sem percepção da complexidade
de controles e técnicas de gestão. “Ainda que isso
indique o desvirtuamento das ONGs, que tiveram um histórico
de movimentos informais, o mundo mudou e também o universo do
Terceiro Setor, onde foi preciso enfrentar a burocratização
acompanhada de todas conseqüências que isto acarreta, como
registros, cumprimento de prazos, profissionalização
etc”. Assim, o curso do NITS tem observado também a empregabilidade
dos participantes: muitos dos que passaram pelas edições
anteriores do curso estão atuando profissionalmente em organizações
do Terceiro Setor.

Professora Ana Lucia
Jansen de Mello Santana:
capacitação de profissionais para atuar
nas organizações do Terceiro Setor
Essa perspectiva positiva com relação ao mercado de trabalho
condiz com as perspectivas de Ana Lucia para o futuro do Terceiro Setor
no Brasil. “O debate sobre as transferências dos recursos
governamentais para ONGs no governo Lula, como qualquer outra CPI,
obscurece o trabalho fantástico de muitas ONGs Brasil afora.
Porém, não vejo possibilidades de retrocesso no avanço
da prestação de serviços destas organizações
nas diferentes áreas em que atua”, afirma a coordenadora.
Assim, a expectativa é que o curso atinja o número ideal
de alunos: trinta. Quem se matricular, terá que freqüentar
um mínimo de 80% das aulas, que acontecem às sextas-feiras à noite
e aos sábados, pela manhã, ministradas por um corpo docente
com vasto conhecimento acadêmico e aplicado. Além disso,
no final do curso, cada aluno se deparará com uma ONG selecionada
pelo NITS que se encontre em situação precária
do ponto de vista gerencial. A idéia é realizar um diagnóstico
da entidade e, com base nisso, elaborar uma proposta de planejamento
estratégico, com o objetivo de torná-la sustentável.
Pode ser o primeiro passo, quem sabe, para que a entidade fique mais
perto de seus objetivos filantrópicos do que das “maracutaias” pilantrópicas
que insistem em permear o mundo do Terceiro Setor.
O
que é o Terceiro
Setor? |
Poucas
pessoas, mesmo os profissionais de áreas
correlatas como o Direito, a Sociologia e a Economia, sabem definir
o que é o Terceiro Setor. Alguns, inclusive, confundem com
o setor terciário da economia, o chamado setor de serviços,
o que é errado.
Pode-se conceituar o Terceiro Setor como o conjunto de organismos
e instituições dotados de autonomia e administração
própria que apresentam como função e objetivo
principal atuar voluntariamente junto à sociedade civil
visando ao seu aperfeiçoamento.
Destaque para a questão
da autonomia; as atividades realizadas pelo Terceiro Setor, apesar
de em prol da sociedade, se dão de forma independente do
primeiro (o Estado) e do segundo setor (a iniciativa privada, o
mercado). Ainda assim, isso não significa que não
se possam formar parcerias e que se recebam investimentos públicos
e privados.
Em resumo, o Terceiro Setor não é nem
só público, nem só privado: é formado
por agentes não-estatais, mas tem fins públicos.
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