Casa de Estudos e Retiros Padre Reuter Instituto Ciência e Fé Paslestras e Conferências Contato LInks






Dr. Richard P. Sloan, é professor de medicina comportamental do departamento de psiquiatria da Escola de Medicina da Columbia University. Autor do livro “Blind Faith: the unholly alliance of Religion and Medicine”.


ANO 9 - ED 103 - ABRIL DE 2008

MEDICINA E RELIGIÃO NÃO SE MISTURAM

Dr. Richard P. Sloan

Um recente programa de televisão mostrou o cirurgião que reza com seus pacientes. E quando ora com eles? Não muitas semanas antes da cirurgia, quando, por exemplo, numa consulta, é decidido pelo procedimento cirúrgico. Não alguns dias antes da visita de rotina, na fase de pré-hospitalização para testes médicos. Nem antes algumas horas da cirurgia.

O cirurgião pergunta ao paciente se pode rezar por ele quando o paciente está vestido para a operação, já na maca.

Ponha-se você no lugar do paciente. Você se sentiria livre para dizer não ao médico, paramentado para a cirurgia, que tem sua vida nas mãos dele, ele que vai invadir seu corpo com o bisturi?

O cirurgião poderia simplesmente orar pelo paciente e fazê-lo em privado. Isto seria aceitável e louvável. Mas não procede assim. O cirurgião ora com o paciente, momentos antes da cirurgia.

Bem-vindo ao novo bravo mundo da religião e saúde - no qual ciência, medicina, fé e ética coexistem numa mistura potencialmente explosiva. É tudo parte de um concertado esforço para fazer das praticas religiosas parte da clínica médica.

Mas antes de nos aprofundarmos nessa senda, deveríamos responder a três questões centrais sobre esses esforços: 1) são eles baseados em boa evidência científica?; 2) eles representam boa prática médica? 3) São bons para a religião?

Em cada caso, a resposta é não.

A maioria dos estudos e pesquisas que objetivam mostrar como o envolvimento religioso está associado com a melhora da saúde esquece outros fatores que podem ter papel importante nas curas.

Em pelo menos dois casos eles podem causar mais prejuízo do que benefícios aos pacientes. Por exemplo, deixando - em seus limitados tempos de consulta - de dar orientação preventiva, pois o médico acaba se engajando em questões espirituais, e assim privando o paciente de adequado tratamento.

A inclusão da religião na clínica médica pode prejudicar os pacientes de outras formas também. Quando os médicos proclamam os benefícios das atividades religiosas (na cura), os pacientes podem se sentir manipulados e mesmo coagidos a se engajarem em comportamentos religiosos que não são seus, simplesmente evitando contrariar seus médicos. E práticas religiosas coercitivas são totalmente inaceitáveis.

E os médicos arriscam-se a infringir outras fronteiras éticas quando dizem a seus pacientes que as práticas religiosas podem influenciar na sua saúde. Com a assertiva que essas atividades religiosas promovem curas, podem levar pacientes a se sentirem culpados e com remorso diante de suas supostas falhas religiosas (falta de fé).

Finalmente, e talvez mais importante, esforços para conectar religião e prática médica são um mau negócio para a religião em si mesma. Levando a religião para o laboratório ela fica sujeita ao reducionismo do materialismo científico, eliminando todos os elementos de transcendência.

Os mais recentes comunicados indicam que a experiência religiosa está baseada na neuroquímica da serotonina no cérebro, e isto é exemplo de como a religião fica trivializada ao ser estudada cientificamente.

Os métodos da ciência não têm nada - ou muito pouco - para contribuir para a ética, inspiração, moral, beleza, e amor como nos lembra o astrofísico Neil de Grasse Tyson. “Esses são elementos vitais da vida civilizada e centrais na preocupação de cada religião”. Esses domínios essenciais da existência humana estão além do que significa ciência. Para religião, por outro lado, são elementos centrais.

Procurar aproximação entre religião e medicina implica conceder que a religião não tem força em si mesma e precisa de método da ciência para estabelecer sua validade, definir-se. Mas quem pensa assim esquece-se da vantagem da religião sobre a ciência que Tyson descreve.

Para muitos, as moléstias criam importantes conexões religiosas e espirituais. Ninguém coloca em dúvidas tais preocupações, mas o fato de que elas (as preocupações) se manifestam sobretudo em tempos de doenças não significa que os médicos devam tomar o papel religioso como parte de sua atividade médica. Na verdade, o assunto é para a esfera de clérigos, os pacientes e seus familiares.

Tradução de Aroldo Murá G. Haygert

< retorna ao sumário

 

 

Clique aqui e leia a opinião
do Dr. Harold G. Koening, em "Separando fatos de ficção"

Página Inicial