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Cícero de Andrade Urban, é Médico Oncologista e Mastologista, professor titular de Metodologia Científica e Bioética na Universidade Positivo e colaborador do Instituto de Ciência e Fé, autor de “Bioética Clínica”, entre outros.


ANO 9 - ED 104 - MAIO DE 2008

A ORAÇÃO QUE NÃO FIZ

Cícero de Andrade Urban

Poderia escrever sobre o papel da oração e da religiosidade no tratamento dos pacientes como médico ou como professor de medicina. Vivi tantos dramas com doentes e familiares em minha vida de oncologista e mastologista, que seria capaz de retratá-los aqui sem grandes dificuldades. Mas prefiro colocar-me como paciente.

Discordo, com todo o respeito, de meu colega de especialidade e renomado escritor e apresentador global Dráuzio Varella, que, em seu livro sobre o médico doente afirma que ele mesmo não mudou com a doença (no caso uma febre amarela, que quase o levou). A doença mudou sim minha vida. Mudou em diversos aspectos, sendo alguns totalmente inesperados. A religião, por outro lado, não foi um deles.

Não perdi a fé ao descobrir que estava com câncer. E, mais ainda, que este câncer poderia levar-me ao maior dos mistérios - aquele que ninguém quer pagar para desvendar e do qual ninguém retorna. Uma questão que me veio à mente naquele momento foi o que Deus poderia querer de mim ao me fazer enfrentar uma doença tão grave aos 35 anos de idade. Dúvidas que vieram sem revoltas ou ressentimentos contra o Criador, apenas como um paciente muito pretensioso.

Não foram poucos os amigos e conhecidos que invocaram ajuda divina para mim. Algumas pacientes minhas levaram meu nome para suas igrejas (as mais diversas). Eu respondia a elas que a oração era sempre bem-vinda, independentemente de onde viesse. Tenho familiares que são espíritas e que disseram que eu poderia estar passando por um karma de vidas passadas, mas que venceria no final.

Não me consta que meus médicos tenham orado. Também não pedi isto a eles. Aliás, se eles assim o fizessem, preferiria não saber como foram suas orações naquele momento. Para mim a vivência da religiosidade é algo muito pessoal. Acharia muito estranho, mesmo sendo um homem de fé, que quem estivesse com minha vida em suas mãos me convidasse para rezar antes daquele que foi o momento mais difícil de minha vida.

S eria como se eles dividissem comigo suas dificuldades e suas angústias frente a um “caso” (o meu!) difícil. Fico imaginando um anestesista dizendo a seu paciente que iria rezar para que ele não tivesse dor. Ou o cirurgião pedindo para seu paciente rezar junto para que ele tenha condições e capacidade para realizar um procedimento cirúrgico complexo da melhor forma possível.

Ao médico cabe tomar decisões, algumas vezes muito difíceis. Decisões que, corretas ou não, podem afetar diretamente a vida de seus pacientes e de seus familiares. A inspiração divina é muito bem-vinda para aqueles que nela acreditam. Mas não procuramos os médicos por sua religiosidade e sim por sua capacidade de resolver nossos problemas de saúde. Nunca rezei junto com minhas pacientes antes de meus procedimentos. Rezo sim, na estranha solidão que envolve a nós cirurgiões quando nos estamos preparando para entrar na sala operatória para que Deus, com toda a sabedoria, me permita ser um humilde servo e instrumento de alívio para os que sofrem. Mas isto é segredo. Não contem para minhas pacientes.

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