
Ipojucan Calixto Fraiz, médico,
mestre e doutorando em sociologia, professor dos cursos de Medicina
da Universidade Federal do Paraná e da Universidade Positivo,
coordenador do curso de Medicina da Universidade Positivo.
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ANO 9 - ED 104 - MAIO DE
2008
MEDICINA E RELIGIÃO:
EVITANDO UMA
CONFUSÃO DAS ORDENS
Ipojucan
Calixto Fraiz

É necessário reconhecer a importância
das religiões na constituição das sociedades e
dos indivíduos. Dado este reconhecimento, a medicina não
pode negar a dimensão religiosa do sujeito, mas cabe aqui perguntar:
quais são os limites da relação entre medicina
e religião? Até que ponto é recomendável,
para uma boa prática médica, que o médico, a partir
de suas próprias convicções, proponha apoio religioso
ao paciente.
Atender ao ser humano que adoece e sofre é o papel central da
medicina. O ser humano que adoece e sofre não o faz somente
em sua dimensão física ou biológica, mas sim em
sua integralidade. O que se pode entender por integralidade? A resposta
pode ser encontrada no movimento da Medicina Integral, que surgiu nos
EUA, na década de 1940, o qual cunhou a expressão biopsicossocial.
Desta forma, deve-se compreender o ser humano em sua dimensão
biológica, mental e social.
Na mesma época, a Organização
Mundial da Saúde contemplou este princípio da integralidade
em sua definição de saúde. Mais recentemente incorporou-se
a dimensão espiritual.
Reconhecer a dimensão do sagrado é necessário.
O médico deve perceber as crenças e valores religiosos
de seus pacientes e respeitá-los, sejam eles quais forem, sem,
no entanto, interferir neles.
A medicina, para ser ética, deve ser centrada nas necessidades
do paciente e não nas do médico. A demanda por apoio
religioso deve ser sempre do paciente, não devendo jamais partir
do profissional, sob risco de causar constrangimentos ao paciente.
Quem está doente é o paciente, e sua subjetividade deve
ser respeitada. Este sujeito que adoeceu está fundado, estruturado
nos próprios valores e crenças e não naqueles
em que o médico acredita.
O médico irá, sim, desenvolver um papel educativo no
sentido dos hábitos saudáveis, mas isto não inclui
o direito de, por meio de gestos ou palavras, induzir o paciente a
aceitar ajuda religiosa que o mesmo não tenha solicitado.
É sempre bom lembrar que as palavras-chaves para o bom convívio
religioso são: liberdade, tolerância e respeito.
As orientações sobre estilos de vida saudáveis
para a prevenção, ou controle das doenças, ou
mesmo para promoção da saúde, são validadas
pela ordem das ciências; portanto, mais universalmente aceitas,
o que dá ao médico o direito e o dever de transmiti-las.
Este conhecimento é coletivo e compartilhado pela sociedade,
quase por consenso. O direito concedido ao médico pelo paciente,
para que aquele interfira na vida deste está tacitamente ancorado
nas ciências.
Quando o médico se permite expor suas convicções
religiosas e oferecê-las como apoio, está invadindo um
terreno para o qual não recebeu permissão. Está fazendo
uma confusão das ordens. A ordem do sagrado é privativa
do sujeito e não pode ser invadida, principalmente numa relação
desigual como entre médicos e pacientes.
Claro que, com isso, não se está negando a ordem do sagrado,
apenas preservando-a como espaço inalienável e protegido
do paciente.
Resta, no entanto, reconhecer que o próprio paciente pode, ao
perceber-se fragilizado pela doença, solicitar apoio religioso
e aí pode ser uma visão religiosa de natureza totalmente
diversa daquela do médico. Neste caso, o médico deve
estar preparado para aceitar, respeitando o desejo do paciente.
O que se defende é que, como o centro da atenção
médica é o paciente, cabe apenas ao paciente, e somente
a ele, a manifestação de suas necessidades religiosas.
O que é sagrado para o médico pode ser profano para o
paciente, e isto deve ser respeitado.
Há, obviamente, algumas exceções: aquelas situações
em que médico e paciente já compartilhavam do mesmo grupo
religioso, antes mesmo do contrato terapêutico. Mas, mesmo aqui é preciso
ter cuidado para não se fazer uma confusão das ordens.
Alguém poderia argumentar que, se o médico não
abre a possibilidade do apoio religioso, o paciente não o pediria,
por sentir-se constrangido. Para se evitar este problema propõe-se
que, na anamnese (entrevista inicial), se inclua uma anamnese espiritual
e que se contemplem informações relacionadas às
crenças religiosas do paciente e de que forma elas são
mobilizadas em relação a sua saúde ou doença.
Desta forma, o canal de comunicação entre médicos
e pacientes ficaria permeável ao tema, mas, nesta via, a mão
preferencial é sempre aquela que parte do paciente.
Assim, não se está negando a dimensão religiosa
da relação da saúde e da doença, mas apenas
colocando-se que é a estrutura psíquica, espiritual e
social do paciente que deve ter prioridade na abordagem terapêutica,
ou seja, o paciente deve ser respeitado como sujeito estruturado e
singular e não como objeto manipulável.
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