
Russell Stannard, professor emérito de física
na Open University de Londres.
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ANO 9 - ED 104 - MAIO DE
2008
EXPERIMENTANDO O DIVINO
Religião não pode ser quantificada por análise
Russel
Stannard

Na ilustração,
o Large Hadron Collider - Grande Colisor de Hádrons, maior acelerador
de partículas, sob a fronteira
França e Suíça - pronto para operar já neste
mês. Sua forma é circular, com um perímetro de
27 km de extensão. Nele, a colisão será entre
prótons e não entre pósitrons e elétrons.
A energia total de colisão entre dois prótons será de
14 TeV. Com esta energia, espera-se observar traços do Bóson
de Higgs (conhecido como Partícula de Deus); que se efetivamente
existirem, confirmarão o modelo padrão.
Mais informação em http://www.estadao.com.br/vidae/not_vid148722,0.htm
A
idéia de se fazerem testes sobre o resultado da oração
- se funciona ou não - soa bizarro. Esse procedimento de medir
o resultado da oração envolve dividir o paciente em dois
grupos definidos: um grupo recebe orações e o outro não.
Nenhum dos pacientes conhece a que grupo ele pertence. Então,
depois de um período de tempo, os resultados médicos
dos dois grupos são avaliados para ver se há diferença
entre eles.
O primeiro experimento desse tipo ocorreu em 1988, promovido pelo doutor
Randolf C. Byard, um cardiologista do San Francisco General Medical
Center, na Califórnia. O resultado apontou uma positiva correlação
entre oração e melhoras clínicas. Outros grupos
foram levados a repetir o experimento com melhores estatísticas
e sob controles mais rígidos. O mais amplo estudo dos resultados
de orações intercessórias apareceu em abril de
2006, no American Hurt Jornal. A pesquisa, chamada “Estudo dos
efeitos terapêuticos de oração intercessória” não
encontrou correlação em um terço das orações
intercessórias e melhoras médicas clínicas.
Avaliando
a metodologia científica Experimentos como esses
colocam em xeque o que se espera aprender da aplicação
de métodos científicos em questões religiosas
e teológicas.
Para começar, qualquer correlação positiva entre
oração e melhores resultados clínicos não
prova a existência de Deus, pois esta que não pode ser
comprovada empiricamente. Uma explanação alternativa
poderia invocar o link direto de telepatia entre as mentes do intercessor
e do paciente - mas esta é uma realidade que não inclui
Deus como intermediário.
Como devemos então interpretar de forma mais plausível
esse resultado nulo? Para uns, se os resultados da oração
intercessória não funcionam, isso indica que Deus não
existe. Porém, precisamos ter cuidado. Da mesma forma como o
resultado positivo da oração não necessariamente
está ligado à crença em Deus, um resultado negativo
não pode destruir essa crença.
Ao mesmo tempo, quando se fala que um dos grupos não recebeu
oração, isso não significa que os pacientes parem
de rezar; não impede, ainda, que seus amados e amigos orem por
eles. O que o experimento científico está tentando fazer é medir
se há qualquer benefício adicional ao grupo que reza.
Há uma outra preocupação: quando cientistas investigam
o mundo físico - usando o método científico -
a natureza não tem alternativa senão revelar seus segredos.
Porém, ao aplicar tal metodologia a Deus - ou a qualquer outra
divindade, com qualquer outro nome - não há garantia
de sucesso. Deus pode simplesmente decidir não cooperar.
Rezando
através dos números Por tudo isso, interpretar
os resultados de tais experimentos sobre a oração intercessória é problemático.
E mais: é também muito difícil pensar sobre uma
situação em que se acabe tendo uma investigação
controlada de Deus. O que concluímos? É inapropriado
aplicar o pensamento científico para questionar o que fazer
com Deus.
Antes de partir para tal conclusão, devemos pensar
que nós
estamos trabalhando com apenas um tipo particular de ciência
- aquela que vai utilizar ou recorrer a experimentos sob controle cuidadoso
de laboratório. Mas ciência não é sempre
assim.
Tome-se, por exemplo, a astronomia e a cosmologia. São
ramos da ciência, mas usam investigações nas quais
os cientistas não controlam nada. Tudo o que eles podem fazer é passivamente
observar e tentar interpretar os dados que chegam até eles.
Por exemplo: eles não podem escolher repetir o Big Bang.
Então
por que essas disciplinas são consideradas científicas?
Por causa do jeito sistemático e escrupuloso com que chegam às
teorias e se mostram abertos para a modificação à luz
das descobertas empíricas.
Com respeito ao Big Bang, não há prova concreta de que
ele aconteceu.
O universo certamente está se expandindo assim
como foi pensado no Big Bang, mas ao mesmo tempo, quando a única
evidência é a expansão, alguns cosmologistas notáveis
ainda preferem acreditar na alternativa teórica da estado-constante,
que também é plausível com as observações.
A subseqüente descoberta das microondas de radiação
e sua interpretação como parte de uma bola de fogo que
conferiu força ao Big Bang é uma hipótese. Todavia,
essa segunda peça de evidência não poderia ser
tomada como uma prova - não quando considerada isoladamente.
O mesmo se aplica ao estudo da não-controlada evolução
dos seres humanos, por exemplo. O caso da evolução depende
de muitos fatores de evidência que envolvem estudo de fósseis,
estudos anatômicos, evolução do DNA, fatos evolucionários
contemporâneos. Mais uma vez é a soma dos casos, não
apenas uma observação particular.
Flertando com o divino
Diante deste segundo tipo de investigação,
estamos diante do mesmo tipo de situação. Deus não é um
objeto que possamos controlar. Nós não podemos esperar
que Deus se submeta a repetir-se em experimentos e condições
sob nossas escolhas. Não há uma prova simples, definitiva
da existência de Deus e da forma como ele age. Assim, nós
precisamos examinar tão objetivamente quanto pudermos um amplo
espectro de experiências - uma multidão de diversas indicações
- que estejam sendo ofertadas. Há que se contar com a inteligibilidade
das leis da natureza, a assim chamada sintonia fina do universo para
o desenvolvimento da vida, entre outros elementos a serem considerados:
a experiência religiosa, a resposta às orações,
os informes sobre os milagres, a vida e os ensinamentos de Jesus, os
relatos da Ressurreição e o profundo senso moral. A pergunta é:
a totalidade dessas informações faz sentido para a hipótese
de Deus ou não? Se faz, com que tipo de Deus nós estamos
tratando?
Se as pessoas religiosas estão preparadas tanto quanto
as científicas
para modificar seus pontos de vista à luz da maior experiência,
nós temos apenas que colocar os escritos da Bíblia em
ordem cronológica para ver a preleção de idéias:
do Javé sendo um Deus ciumento, entre outros, um Deus territorial
no comando do Monte Sinai, um Deus tribal interessado só nos
judeus e um Deus da guerra, até o derradeiro conhecimento de
que há um só verdadeiro Deus - o Deus de Amor e criador
do mundo. Isso é uma transformação e o enriquecimento
do entendimento a concorrer com qualquer outro conhecimento científico.
Assim,
talvez teologia e ciência não sejam tão
diferentes como se supõe, ao menos se a ciência que temos
em mente é diferente daquela baseada em estabelecer condições
controladas.
Tradução de Aroldo
Murá G. Haygert e Rafael Finatti
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