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Aroldo Murá G. Haygert é jornalista, professor do Grupo Educacional Uninter, comentarista da Rádio Banda B. É estudioso de novos movimentos religiosos cristãos e preside o Instituto Ciência e Fé.


ANO 9 - ED 104 - MAIO DE 2008

A ORAÇÃO E A DOR

Aroldo Murá G. Haygert

No fim da década de 1950, li um dos primeiros livros de uma religiosa episcopal/anglicana dos Estados Unidos, Agnes Sanford - A Luz Divina nos Cura -, sobre o poder de cura da oração. Eu estava chegando aos 20 anos e tinha pelo assunto uma curiosidade incomum para a idade.

Era uma visão diferente, inovadora, em relação à cura divina de males físicos, que no Brasil os pentecostais começavam a universalizar, e bastante distante da proposta oração-promessa-cura milagrosa do mundo católico tradicional. Mas nada a ver com as curas do kardecismo e das religiões afro-brasileiras.

A idéia de nos ligarmos a uma tomada imaginária - conectando-nos a uma corrente de energia curadora -, e implorando a ação do Cristo sobre as doenças era algo novo. A autora fazia sucesso com a fórmula. Depois, a literatura cristã protestante, particularmente, tornou-se farta sobre o assunto.

Hoje estou convicto de que Agnes trabalhou fortemente as promessas de curas/bênçãos do Novo Testamento, apropriando-se, ao mesmo tempo, de pedagogia de autocura das religiões orientais.

Chego ao assunto após ler dois artigos de notáveis médicos e professores norte-americanos, Haroldo G. Koening e Richard P. Sloan, sobre o direito de os médicos rezarem com os pacientes, prática não rara nos EUA, especialmente em hospitais.

Koening, professor da Duke University, em Separating fact from fiction (Science & Theology News) garante que centenas de estudos publicados em veículos especializados - revisados segundo exigentes normas acadêmicas - comprovam que oração pode recuperar pacientes. Poderia ele ter lembrado o trabalho do Centro Médico que opera no santuário de Lourdes, na França, composto de médicos crentes e ateus. O Centro avaliza ou não os casos apontados como milagrosos. Em 150 anos de Lourdes, só há 68 casos aceitos pela Igreja como milagrosos, ou seja, frutos da fé e da oração.

Ali Alexis Carrel, prêmio Nobel de Medicina em 1912, de pagão se tornou cristão diante da constatação do poder da fé agindo para a cura de doenças do físico e do espírito. Milagre na visão oficial da Igreja - tomando Lourdes como exemplo - só se a recuperação for total, como a que promoveu a erradicação de um carcinoma no aparelho digestivo de uma jovem peregrina, nos anos 30. Cura inexplicável.

O professor Sloan, da Escola de Medicina de Columbia University, em Medice and Prayer don't mix, sem desdenhar a importância da oração, acha que preces não devem se misturar à medicina. Para ele, a religião não precisa se aproximar da prática médica: “Isto implica conceder que religião não tem força em si mesma e precisa da ciência para validá-la”. Assim, ao aceitarmos a religião nos laboratórios, ela ficaria sujeita ao reducionismo do materialismo científico, sem sinal de transcendência, opina Sloan.

Sem nos determos no rigor com que a Igreja Católica examina sinais de curas, aceitando-as ou não, com o aval da ciência, não eliminamos a importância da oração e da cura.

Curas que, muitas vezes, podem até ser tomadas como decorrentes de fatores psicossomáticos, mas que são - isto é o que importa - desencadeadas pela prece.

Há um amplo espectro de ação curativa da oração, em qualquer contexto, cristão ou não. Uma pesquisa muito citada é a que cientistas, nos anos 90, promoveram nos EUA com monjas beneditinas. Ritmo cardíaco, humor, equilíbrio psicológico, pressão arterial - tudo foi medido sob o efeito das preces. Elas passaram com nota dez.“Bem-estar decorrente da liberação de serotonina”, argumentam os céticos. Não importa. O veículo, no caso, é a oração.

Nos EUA, em Boston, um império midiático, o The Christian Science Monitor, um dos jornais mais respeitados por sua opinião segura, tem origens naquela que fundou a Igreja da Ciência Cristã, Mary Bakker, no século 19. A doutrina leva a cura pela oração ao extremo de até dispensar tratamento médico. Seu culto prevê a existência de enfermeiros especialistas em cura divina, algo nada convencional.

Mas foi outra mulher, também nos EUA e no mesmo século 19, Ellen G. White, que ao fundar o adventismo do sétimo dia, sem desprezar a oração intercessória, preferiu enfatizar outro caminho: tornou-se pioneira em infundir na religião cristã princípios de prevenção da saúde a partir da alimentação sadia, da dieta balanceada, predominantemente vegetariana, e da temperança total. Uma eficiente e inovadora forma de oração-prevenção.

Artigo transcrito da Gazeta do Povo de 26/04/2008

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