
Antonio Carlos Coelho, é professor
de Ecumenismo e Judaísmo do Studium Theologicum
e diretor do Instituto Ciência e Fé.
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ANO 9 - ED 105 - JUNHO DE
2008
ORAÇÃO E CURA
DO PONTO
DE VISTA DO JUDAÍSMO
Antonio
Carlos Coelho
A oração contribui para a melhora de uma
pessoa doente? Há quem afirme que a oração pode
curar, e há, também, aqueles que afirmam que oração
não promove cura. Tema já debatido muitas vezes, mas
há uma tendência em se acreditar que a oração
tem um poder de contribuir com a cura de uma pessoa.
Como pensa o judaísmo? A religião judaica dá um
valor único à prece. Recomenda-se que o judeu cumpra,
ao menos, suas orações diárias, pois estas substituem
o serviço que era realizado no Templo de Jerusalém. Também
são feitas orações aos doentes, no entanto, não
se afirma que a oração tenha o poder curar. Crê-se
que Deus acolhe as preces de uma pessoa que se preocupa com o bem-estar
de outra, muito menos deixará de atender às orações
daqueles que sofrem. Todavia, Ele deu ao ser humano a inteligência
para desenvolver seu conhecimento e aprender as técnicas de
prevenção e tratamento de doenças. Entregou, portanto,
a nós, o dever de lutar contra os males que nos atingem. Assim,
devemos empenhar-nos ao máximo e confiar que Deus fará sua
parte. Enfim, Deus reparte com cada pessoa a responsabilidade de cuidar
de sua criação.
No judaísmo nada é mais sagrado do que a vida. É um
dever de cada judeu lutar em seu favor. Tanto que, nem o mais sagrado
de todos os mandamentos está acima do dever que se tem para
com a vida. Os médicos, enfermeiros, motoristas de ambulâncias,
funcionários de hospitais, aqueles que trabalham em defesa da
vida, estão dispensados de cumprir mandamentos que os impeçam
de atender aos enfermos e aos que estão em risco de morte.
Lutar pela vida, como fazem os profissionais da saúde, através
da prevenção de doenças e do atendimento nas clínicas
e hospitais, é um dever sagrado. No entanto, há limites
impostos pelas condições físicas das pessoas atendidas,
pelo estado em que se encontra a enfermidade, pela técnica disponível,
condições materiais, etc. Tais condições,
muitas vezes, não permitem o sucesso, e a vida escapa das mãos
humanas. Uma pessoa que tem a oração como prática
diária certamente terá mais facilidade em compreender
os limites humanos diante da vida e, entregará, sinceramente,
nas mãos de Deus essa vida para que Ele a acolha.
Há uma história de um homem de fé simples. Quando
estava com oitenta anos passou por diversas cirurgias e, a cada uma,
ficava mais debilitado. No hospital, todas as manhãs, punha
os tefilim (duas pequenas caixas de couro com tiras usadas pelos judeus
nas preces da manhã), fazia as orações e recitava
os tehilim (salmos). Isto o deixava mais forte. Sentia-se seguro nos
braços de Deus. Quando percebeu que não tinha mais muito
tempo de vida pediu aos filhos que rezassem por ele. Para o velho homem
a prece era vida, e a vida, uma forma de prece.
Talvez a vida que pedimos e desejamos não seja aquela que Deus
considera necessária e melhor. A Torá ensina que mais
vale uma vida vivida intensamente na presença de Deus do que
uma vivida sem sentido ou voltada para as coisas miúdas e efêmeras.
A longevidade de muitos personagens da Bíblia nada mais era
que a qualidade e intensidade de vida na presença de Deus.
Rezar pelos doentes é um dever, como é um dever buscar
na prece a compreensão da realidade humana. A oração
muda o mundo, promove “milagres”, porque muda cada pessoa.
Ela leva o que ora a compreender as maravilhas da existência.
Torna-o mais humilde e tolerante, mais amável e justo, ensina-o
a dar graças pelo que tem em vez de ser desejoso daquilo que
ainda não possui ou não pode alcançar. Enfim,
a prece molda o caráter das pessoas e lhes ensina a compreender
que a vida tem um ritmo próprio e que, mesmo com toda a nossa
boa vontade e capacidade há coisas que estão além
de nosso alcance.
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