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Pe. Ricardo Hoepers é mestre em Educação pela PUC/PR, professor de Bioética e Moral Sexual do Studium Theologicum em Curitiba-PR e conselheiro do Instituto Ciência e Fé. rhoepers@uol.com.br



ANO 9 - ED 105 - JUNHO DE 2008

O CALOR HUMANO VALE MAIS...

Ricardo Hoepers

Quando a ciência vem com toda a sua força tecnológica para dar suporte terapêutico as nossas doenças, nós aplaudimos e ficamos impressionados com os progressos nessa área. Porém não só de máquinas vive o homem. Deveríamos ter a mesma força quando se trata do auxílio espiritual. Todos nós admitimos que as máquinas são importantes, mas aceitamos também que o apoio humano-espiritual é fundamental. Hoje, todos temos que admitir a importância do debate sobre a humanização hospitalar. Digo isso porque ninguém está isento de passar por um hospital e necessitar de internamento, cirurgias e acabar experimentando uma Unidade de Terapia Intensiva: as temíveis UTIs. Nelas é muito bom que tenhamos a última geração em equipamentos, mas melhor ainda é sentir o calor humano e o suporte espiritual de que todos precisamos na hora de nossas fragilidades.

O que nos tem ajudado a vencer esses temores é uma atuação multidisciplinar de enfermeiros, médicos, psicólogos, capelães espirituais e outros profissionais que começam a dar um rosto mais humano ao ambiente hospitalar. Trata-se de uma experiência bioética de abordagem personalista.

De fato, no dia-a-dia estressante de um ambiente hospitalar, é necessário valorizar iniciativas que colaborem para a humanização de todos os seus setores, desde o atendimento das telefonistas, até os mais complexos procedimentos numa sala de cirurgia. A visão personalista da bioética proporciona exatamente essa valorização. Ela extrapola uma visão reducionista da pessoa como objeto de intervenção e recupera, como disse o Papa João Paulo II, “o laço indivisível que existe entre a pessoa, sua vida e a própria corporeidade” (Encíclica Evangelium Vitae, n. 81). É a compreensão da vida como um grande dom que deve ser respeitado e defendido de maneira integral.

Para a visão personalista, no leito, em qualquer setor do hospital (num quarto, numa sala de cirurgia ou numa UTI), não se está tratando uma doença que equivale a um número no qual alguma pessoa está cadastrada e rotulada. Assume-se, ao contrário, uma pessoa única que tem um nome, uma história e confia sua corporeidade e todo o seu ser (num momento vulnerável) a uma instituição formada por profissionais responsáveis dos quais se espera um tratamento digno de respeito.

Parece utopia? Muitos podem perguntar-se: em que planeta se encontram essas instituições hospitalares? Eu poderia dizer que essa prática personalista no trato com os pacientes está gravada, não nos diplomas das academias, mas no coração de quem as pratica. É uma convicção moral, interna, profunda, que extrapola qualquer conhecimento acadêmico, enfim é uma verdadeira oração: “estava nu e me vestistes; doente, e me visitastes” (Mt 25,36). Essa prática existe e é possível de ser verificada nas iniciativas de profissionais da saúde que tiveram a coragem de superar atitudes frias e calculistas dos corredores hospitalares; que apostaram no amor e na solidariedade nos momentos de fragilidade física e emocional que a doença traz consigo. A visão personalista está presente nas visitas dos capelães e voluntários que atuam para dar um conforto espiritual e um alento nos momentos difíceis.

Muitas vezes essas pessoas não são nem notadas, mas têm um peso muito grande no conjunto das ações para um ambiente humanizado de um hospital.

Infelizmente a prática do amor fraterno no ambiente hospitalar ainda não está no programa de prioridades que envolvem milhões e milhões de investimentos em equipamentos de última geração tecnológica. Mas, já é possível verificar que muitas pessoas preferem estar ao lado de mãos aquecidas de calor humano do que rodeado de máquinas frias que valem milhões, mas que não conversam e não sabem o que é amor.

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