
Jean Carlos Selleti é pastor
presbiteriano, professor da Faculdade Evangélica, autor
do livro sobre bioética "As raízes cristãs
da autonomia", escrito em parceria com o professor Wolney
Garrafa, da Universidade de Brasília e diretor do Instituto
Ciência e Fé.
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ANO 9 - ED 105 - JUNHO DE
2008
TEOLOGIA, ESPÍRITO E ORAÇÃO
Reflexões
pastorais
Jean
Carlos Selleti
A teologia e o labor teológico parecem ter-se
esquecido de que o poder do Espírito indispensável a
toda a cristandade e indispensável também ao cristão
individual pois Ele sopra onde quer. Parece ter-se esquecido que sua
presença e ação representam a graça do
Deus Livre, sempre superior, que se dá a si mesmo de forma imerecida
e incalculável. Por conseguinte, tal teologia julga poder lidar
com Ele como se o tivesse arrendado, ou se dele se tivesse apoderado,
como se fosse uma força da natureza, força descoberta,
dominada e aprovada pelo homem.
Assim, como uma Igreja estulta pressupõe a presença e
a ação do Espírito em sua própria existência,
em seus ministérios, seus sacramentos, suas ordenações,
consagrações, assim uma teologia estulta o pressupõe
como sendo premissa conhecida e disponível de suas próprias
teses. Mas um Espírito pressuposto certamente não será o
Espírito Santo, assim como uma teologia que o pressupõe
será uma teologia sem Espírito. O Espírito Santo é poder
vivo que se compadece, em liberdade, tanto da comunidade como da teologia,
a qual continua necessitando dele sob todas as circunstâncias.
Neste sentido, quando reconhecemos nossa pequenez, podemos clamar e
orar por Ele: Veni, Creator Spiritus! “Vem, Criador da Vida! “
De modo que, por experiência e com toda clareza, não sabemos
como pedir, razão por que o Espírito nos socorre eficazmente
em nossas próprias orações fazendo com que Ele
mesmo, o Espírito de Deus, ore através dos nossos lábios
e pense através de nosso pensamento, porque nosso exato querer
e nosso perfeito fazer procedem de Deus, que no-los dá através
de seu Espírito. A verdadeira oração é aquela
que o Espírito Santo mesmo dirige a nosso Pai através
de nossos lábios.
Desta forma, é incredulidade pensarmos que Deus sempre deve
responder com um sim a nossas orações. É incredulidade
porque não queremos dar liberdade para o Pai responder a nossas
orações como Ele entende que deve responder. Não
cremos em sua autoridade, em sua soberania e em sua perfeição.
No livro do profeta Isaías, cap. 58, verso 8, temos “nossos
caminhos não são os caminhos de Deus, nem nossos pensamentos
são os pensamentos de Deus”. Deus sabe o que é melhor
para nós. Deus sabe fazer de nossos desertos seus caminhos.
Precisamos aprender que o Espírito Santo, que nos dirige, tem
a melhor opção para nós, pois Ele perscruta as
profundezas de Deus e conhecendo-as, faz-nos andar segundo seus desígnios,
de acordo com seus santos propósitos. O livro de Hebreus nos
diz taxativamente que Cristo, por seu sofrimento, aprendeu a obedecer
(Hb5: 8). Todavia, Jesus Cristo entendeu que deveria submeter-se à vontade
do Pai: “Faça-se, contudo, tua vontade”. Obedecer é crer, é aprender
que um “não” de Deus é sua forma peculiar,
amorosa e perfeita de dizer “sim”. Outra passagem bíblica
em Atos 16:6,7 nos remete a mais um relato da ação do
Espírito Santo redirecionando Paulo e Timóteo em sua
missão. O homem propõe e Deus dispõe. E Ele assim
o faz porque conhece qual é a melhor hora, o melhor lugar, o
melhor motivo, o melhor propósito para nós.
De maneira que devemos crer que todas as respostas e alternativas de
Deus a nossas orações, súplicas e rogos são
positivas. É assim que Deus cuida de nós e nos dirige
amorosamente.
Contudo ainda podemos ressaltar qual o padrão de Cristo para
a oração? Creio que sim, pois ao olharmos para os discípulos,
estes pediram a Jesus uma coisa só. Não lhe pediram que
os ensinasse como curar enfermos nem como fazer milagres. Os discípulos
pediram a Jesus que lhes ensinasse como deveriam orar. E Jesus atendeu
ao pedido deles, ensinando-lhes a oração modelo, que
conhecemos como a Oração do Senhor, a qual contém
todos os componentes da oração cristã. Pelo exemplo
dessa oração, por outros ensinamentos e por seu próprio
exemplo, Jesus nos instrui sobre as características da oração
cristã:
1) A oração cristã deve ser norteada
de acordo com a Palavra de Deus, em seu propósito e conteúdo,
em sua forma e linguagem.
2) A oração orientada pela Bíblia
deve ser feita em nome de Cristo. Quando oramos em seu nome, estamos
continuando o ministério de intercessão que o próprio
Jesus inaugurou na cruz.
3) Mas a oração cristã é mais
do que um ato humano. Ela é dádiva do Espírito
Santo de Deus, inspirada pelo Espírito, dirigida pelo Espírito,
purificada pelo Espírito, recebendo poder do Espírito
e produzindo os frutos do Espírito.
4) Com o "Pai Nosso",
Jesus nos ensina que a norma de oração
cristã é comunitária e não individualista.
As devoções particulares nunca devem ser compreendidas
como algo à parte, isoladas do culto público. A oração
em secreto e a oração da igreja reunida completam-se
mutuamente.
5) O culto sem oração seria como uma refeição
sem alimento. E como uma refeição deve proporcionar todos
os alimentos essenciais para a saúde de nosso corpo, assim também
o culto deve incluir todos os tipos de oração necessários
para nossa saúde espiritual. A vida de oração
sempre foi uma vida de humildade e dedicação dos santos
de Deus em Cristo no mundo.
Soli deo Glória.
Referências bibliográficas
Barth, Karl. Introdução à Teologia Evangélica.
Ed. Sinodal. São Leopoldo RS. 1996.
Godoy, A.S. Quando um não de Deus é o seu sim.
Londrina PR 1998.
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