
Evaristo
E. de Miranda, doutor
em
ecologia, dirige
a
EMBRAPA Monitoramento
Ambiental
por Satélite,
Campinas/SP. Autor do livro “Guia
de curiosidades católicas”,
diretor do Instituto Ciência
e Fé.
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ANO 9 - ED 108 - SETEMBRO DE 2008
REU OU VÍTIMA?
O BRASIL E AS EMISSÕES DE CO2*
Evaristo
Eduardo de Miranda
Qual a contribuição do
Brasil para o efeito estufa pela emissão de gás carbônico
(CO2) de combustível fóssil na atmosfera terrestre?

O Brasil é acusado de ser um grande emissor de CO2. Até como
quarto emissor mundial somos colocados, sem que se explique o que está sendo
comparado, a partir de que dados e com que critérios. Considerando
quatro indicadores homogêneos de comparação: o
valor absoluto das emissões de CO2 e os valores relativos por
habitante, por km2 e riqueza produzida, o Brasil está entre
os que menos contribuem com esse fenômeno, segundo os dados da
Energy Information Administration dos EUA de 2005 e do Balanço
Energético Nacional.
Emissões Totais
Absolutas
Em termos absolutos de emissões totais de CO2 de origem fóssil,
o mundo emitia 28 bilhões de toneladas em 2005. Os EUA respondiam
por 21% das emissões mundiais com 5,957 bilhões de toneladas,
seguidos pela China com 5,323 bilhões (19%). Depois vinha a
Rússia com 1,696 bilhões (6%) e o Japão com 1,230
bilhões (4,4%) Juntos, só esses quatro países
representam 50% das emissões planetárias. A Índia
emitia 1,166 bilhões (4%). O Brasil estava em 18º lugar
com 360 milhões de toneladas (1,3%), bem atrás da Alemanha,
Canadá, Inglaterra, Coréia do Sul, Itália, África
do Sul, França, Austrália, México e outros países.
Para ter-se uma idéia da insignificância das emissões
brasileiras no contexto mundial, levamos 17 anos para igualar a emissão
anual dos EUA e 37 anos para igualar as dos países do G8. Entre
1993 a 2005, os Estados Unidos emitiram 73 bilhões de toneladas
de CO2 fóssil e o Brasil 4 bilhões de toneladas. Para
igualar a emissão acumulada da Rio-92 para cá, descontando
o acúmulo do Brasil, levaríamos 137 anos para compensar
a União Européia, 191 anos para alcançar os EUA
e 392 anos no caso do G8. Não é possível perder-se
a dimensão do que pode representar para o planeta o esforço
do Brasil e o dos países do G8. Devemos contribuir, mas neles
reside a solução.
Emissões por habitante
Os Estados Unidos da América são líderes da emissão
de CO2 por habitante/ano: mais de 20,14 toneladas e só perdem
para alguns países produtores de petróleo como Qatar
(62,15t) ou Emirados Árabes (33,7t). A Austrália com
20,24t quase empata os norte-americanos, seguida pelo Canadá (19,24t),
Rússia (11,88t) e Alemanha (10,24t). A média da Europa é de
8 t/CO2/habitante/ano. Com 16,43t, a Holanda é uma das campeãs
européias das emissões.
Exceto Alemanha, Eslováquia e Dinamarca, os países industrializados
têm aumentado suas emissões de CO2 nos últimos
quinze anos. A Espanha e a Irlanda em 40%. Áustria, Portugal
e Noruega em mais de 30%. O Japão em 18%. E são signatários
do Protocolo de Kyoto! A Europa está construindo enormes gasodutos
vindos da Rússia. O consumo de gás aumentará cerca
de 50% no curto prazo. As emissões européias são
o dobro da média mundial que é de 4,4 t/ CO2/habitante/ano.
A América Latina apresenta uma média de emissões
de CO2 de 3,1 toneladas por habitante com destaque para Venezuela (5,99t),
Chile (4,14t), México (3,75t) e Argentina (3,71t). E o Brasil?
Cada brasileiro emite 1,9 tonelada de CO2 por ano. Não basta
plantar apenas duas ou três árvores por pessoa para retirar
esse carbono da atmosfera. Mas emitimos doze vezes menos do que os
norte-americanos, quatro vezes menos do que os europeus e metade da
média mundial. E ainda menos do que os latino-americanos (3,1t),
do que a Ásia e Oceania (2,87t) e Oriente Médio (7,9t).
Ocupamos a posição de 87o no mundo, muito atrás,
de muita gente.
Emissões por km2
A estimativa das emissões de CO2 por quilômetro quadrado
também é muito favorável ao Brasil. Aqui, as emissões
são da ordem de 42,38 toneladas de CO2/km2/ano enquanto no Canadá são
de 63,73t, na China de 569,95t, nos EUA de 630,32t, na Alemanha de
2370,54t, no Japão 3298,12t, na Bélgica 4455,77t, na
Coréia do Sul 5080,71t e na Holanda de 7597,62 t/CO2/km2/ano!
Ocupamos a posição de 96o no mundo. Aqui também,
muito atrás, de muita gente.
Emissões para gerar
riquezas
O quociente entre o total de toneladas CO2 emitidas por um país
e seu Produto Interno Bruto (PIB) dá uma medida da eficiência
energética e ambiental das economias nacionais na geração
de riquezas. A grosso modo, quanto mais eficiente o país, menor
o número. Dada a variação da cotação
do dólar entre países, o PIB foi calculado em função
do poder de compra das moedas nacionais, o chamado Purchasing Power
Parities (PPP).
Os campeões de emissões de CO2 para gerar riquezas são
China (0,63) e Holanda (0,62), esta com destaque nos três quesitos
(emissões por habitante, por área e por unidade de PIB),
seguidas pelo Canadá 0,61. A média mundial é 0,49
e a da Europa 0,39. Alto uso de energia nuclear e a boa eficiência
geram índices mais baixos como Japão (0,36) e França
(0,26).
O Brasil, com um quociente de 0,24, é mais eficiente do que
uma centena de países no mundo: ocupamos a posição
de 108o.
Réu ou vítima?
Qual seria a posição do Brasil entre os emissores de
CO2, caso às emissões de origem fóssil fossem
agregadas as resultantes dos desmatamentos e queimadas? Quem afirma
que o Brasil ocuparia o quarto lugar é no mínimo desonesto.
Ninguém sabe exatamente essa posição, por duas
razões.
Em primeiro lugar, o país não dispõe de avaliação
criteriosa do total de CO2 emitido anualmente como resultado de desmatamentos.
O único Inventário Brasileiro de Emissões (1990/94)
apresenta uma dezena de incorreções. Sequer descontou
a madeira industrializada das áreas desmatadas, convertendo
tudo em fumaça.
Em segundo lugar, o mesmo cálculo deve realizado pela maioria
dos países do mundo para ser possível comparar. Somente
neste verão de 2008, por exemplo, mais de 3.000 km2 de florestas
queimaram nos EUA. Incêndios florestais de grandes proporções
ocorrem todo ano no Canadá1, Alasca, Rússia2, Austrália3,
países do Mediterrâneo e em diversos outros. Em geral,
trata-se de uma vegetação muito comburente (pinheiros
e resinosos) e tudo vira cinzas. Além disso, o desmatamento
prossegue em diversos países tropicais4 e temperados5. Agregar
emissões dessa natureza ao cálculo do Brasil e compará-lo
com as únicas emissões fósseis dos países é outra
desonestidade. Sem falar do que eles acumularam queimando suas florestas
no passado.
O que explica o excelente desempenho do Brasil é sua matriz
energética: 46,4% de energia renovável contra uma média
mundial de 13,9%. A agricultura brasileira garante 28,5% dessa energia
renovável. Existe, porém, uma injustificável vitimização
do País nesse tema, cultivada inclusive na mídia e em
salas de aula, aqui e no exterior. Um tratamento bem diferente do dispensado à Holanda,
por exemplo, que apesar de tão ameaçada pelo aumento
do nível dos oceanos usa e abusa de combustíveis fósseis.
De qualquer forma, o excepcional desempenho do Brasil não é uma
licença para aumentar de forma irresponsável as emissões
de CO2, mas nesse tema estamos mais para vítimas do que para
réus.
* Parte baseado em artigo publicado na Revista Carta
na Escola, Ed. 28, 2008, S. Paulo.
1 - Uma média de 9.100 incêndios florestais ocorrem por
ano no Canadá e queimam uma área média 2.5 milhões
de hectares, o que corresponde a 0,6% das florestas do país.
Em 1989, 7.560.000 de hectares queimaram. O Canadá gasta mais
de US$300 milhões de dólares no combate aos incêndios
florestais. (Http://www.thecanadianencyclopedia.com/
index.cfm?PgNm=TCE&Params=A1ARTA0002905)
2 - Para a Rússia, a estimativa conservadora é de 12
milhões de hectares por ano. (http://cat.inist.fr/?aModele=afficheN&cpsidt=2307039)
3 - Para Austrália, a estimativa é de 7.400.000 ha de
florestas queimadas por ano.
4 - Entre 1990 e 2000, a Indonésia, por exemplo, perdeu uma
média de 1.871.500 hectares de florestas por ano.
5 - Entre 1990 e 2000, a Austrália, por exemplo, perdeu uma
média 325.900 hectares de floresta por ano.
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