

Antonio
Strano Vieira é professor universitário;
foi Coordenador do Curso de Jornalismo da PUC-PR e do Núcleo
de Ética
e Legislação em Comunicação Social
da UTP-PR. Publicou "Quinze Passos Brancos", "O
Arquiteto Incompleto" e "Elegia da Festa do Divino";
prepara um estudo sobre as "Ordenações do
Reino", de Portugal.
|

ANO 9 - ED 109 - OUTUBRO DE 2008
ENTRE A QUEDA E A GRAÇA
O Testamento de Lúcio Cardoso - PARTE 2
Antonio
Strano Vieira

Lúcio Cardoso, autor de “Crônica
da Casa Assassinada”
(talvez o mais denso e importante romance de cunho psicológico
da literatura brasileira), que projetava, de modo raro, em sua arte,
seus conflitos existenciais e religiosos, encontra afinidades
com a
obra
de François Mauriac e de Pier Paolo Pasolini, entre outros,
onde se localiza a procura contemporânea por um Cristianismo
pleno, atuante, humano e divino , tema tratado na primeira parte deste
artigo,
publicada na edição anterior.
O ser ao vento
Os "Poemas Inéditos" de Lúcio Cardoso, com
sensível organização de Octávio de Faria
e um emocionado prefácio de João Etienne Filho (13),
vieram para resgatar, para muitos, através de sucessivas reedições,
a discussão da obra desse artista (que em vida já havia
se tornado uma lenda) múltiplo; e - para alguns - controverso,
controvertido, contraditório, complicado, complexo, distante,
dispersivo, difícil, estranho, excessivo, incoerente - mas essa,
a incompreensão (ou a distorção, sua irmã pequena) é a
carga de menor peso, e talvez nada signifique, para o manto de um espírito
tão vasto.
É Lúcio Cardoso mesmo quem diz , em "Ode Perplexa",
um dos seus grandes poemas, entre os "Poemas Inéditos": "Quando
ergo a cabeça, / ouço apenas o vento que me segue, /
enquanto sobre mim o céu palpita / e o amor constrói
as vítimas da morte. / Quem assim me fez de ferro e chama, /
quem me fez delirante em pleno dia, / quem me fez puro e maculado,
/ quem me fez atônito no sonho, / quem me fez o sonho, quem me
instituiu / e me guardou até agora / como um cão de guarda
aos domínios que não vejo?".
No transcorrer de uma vida de muitas atividades, Lúcio Cardoso
escreveu dois livros de poesias: "Poesias" (1941) e "Novas
Poesias" (1944). No entanto, sua importância, seu próprio
significado como romancista dentro da literatura brasileira, de certo
modo ofuscou sua obra poética. O Lúcio Cardoso poeta
parecia apenas um autor experimental nesse setor. Sua poesia seria
uma espécie de resíduo, de projeto inacabado. Não é.
Os "Poemas Inéditos" confirmam exatamente isso. E,
ao que parece, definitivamente.
Era preciso - como lembra Octávio de Faria (ele próprio
uma das referências mais presentes no pensamento católico
da literatura brasileira) - "que se fizesse justiça à personalidade
completa de Lúcio Cardoso, e não apenas ao seu aspecto
principal de grande romancista". O problema é que, no caso
de Lúcio Cardoso, sua personalidade não se recupera apenas
com a poesia. Ela se completará com o dramaturgo, com o cineasta,
com o jornalista, com o pintor. E, sobretudo, com o próprio
homem Lúcio Cardoso, autor de um dos melhores "Diários" da
língua, com o seu encontro com a vida, com uma existência
febril que se tornou um material muito amplo, capaz de alcançar
qualquer forma de expressão que seu autor escolhesse. "Não
sou mais / Porque a lenda / Aos poucos / Devora meu corpo" - diz
o poema "Testamento" , entre os "Poemas Inéditos"- "Eu
sou o depois...”
Apesar da multiplicidade de seus interesses, o que aparentemente mostra
um ser fragmentado pelo experimentalismo, Lúcio Cardoso é, na
verdade um autor acabado. Dono de um a arte que dominou por completo.
Mas apenas no sentido em que um ferimento - digamos, com alguma impropriedade
- possa ser compreendido como completo. Quando a imperfeição é percorrida
plenamente. Ou quando a limitação humana é percebida
em sua totalidade.
É por essa razão que sua arte não permaneceu, não
parou, apesar de ter iniciado, dentro da paisagem, e mais do que dentro das
cidades, dentro das casas, é dentro de Lúcio Cardoso que se encontra
o enredo de sua arte - que, de modo expresso ou não, é o espaço
de todos os seus conflitos: o teológico, o ideológico, o existencial.
Ele revela, também em "Ode Perplexa: "Aqui estou.
Aflito sondo a mim mesmo / e pergunto quem semeou na minha carne /
esta vontade de ver o que não vi." E, mais, no "Diário": "A
necessidade total do drama: em arte, como em política, ou em
religião, a manifestação do verdadeiro deve ser
um impulso interior e profundo, conduzindo a um clima de choque e
de violência.”
Sobre a condição moral e metafísica do homem latino,
e especialmente do homem latino-americano, diria Glauber Rocha, ainda,
a propósito de Buñuel e Pasolini (cujas circunstâncias
como artistas tangenciam aspectos significativos de Lúcio Cardoso): "O
surrealismo de Luís Buñuel não pertence ao passado:
antes é a pré-consciência do homem latino, é revolucionário
na mediada em que liberta pela imaginação, o que é proibido
pela razão. Esta libertação, contudo, não é uma
fuga, mas antes uma arma que vergasta, como o Cristo de Pasolini..." E
completa Glauber Rocha sobre o herói de Buñuel: "sua
moral, como subproletariado, é mais metafísica do que
política.”
Já em Lúcio Cardoso existe a nítida expectativa
na divindade plena do Cristo (14);
e no conhecimento integral das limitações do humano;
não admite mutilações
nessa divindade e nem nesse conhecimento; não aceita o Cristo "sindicalizado,
racionalizado", modernizado, porque para ele todos estão
na unidade do Cristo autêntico; Lúcio quer o Cristo pleno
em ação - setorizá-Lo seria a pior espécie
de alienação, seria limitá-Lo, e com isso limitar-se-ia
o próprio humano, que em suas carências diversas, para
realizar-se plenamente, depende da plenitude de Cristo; nada pode faltar
em Cristo, porque na limitação do homem tudo pode faltar.
Em "Água dos Meninos", com desarmada transparência,
ele fala: "Água de miséria e sombra, / vi o teu
nome primeiro riscado à linha do horizonte: e sobre a feira
adormecida passavam vozes, / cheias da salsugem que te faz tão
densa e tão carnal, / mar da madrugada, onda púbere,
/ menino de ânsia e palidez." Mas ele dirá também,
talvez com incomum exasperação, no "Diário": "O
que eu quero da Igreja: uma ação opressiva. Nos templos
nus, um juiz de cólera e de sangue.”
No entanto, não nos enganemos com Lúcio Cardoso, sua
revolução é antes a interna; e é somente
a partir daí, do interior do homem, que ela se legitima para
a realidade; sem espetáculo ou demagogia, plena, sem siglas,
de qualquer tipo. Ele expressa no "Diário": "O
homem não pode ser uma criatura apaziguada e é sob um
impulso profundo, dinâmico, e trágico que ele saberá reconhecer
a face de seu ideal ou de sua fé. Não acredito num universo
em repouso, mas na transformação latente e por assim
dizer interior e chamejante de tudo o que existe.”
É uma verdadeira condensação desse drama ( no sentido
mesmo teatral do termo, quando um personagem se defronta com outro, com aquela
atmosfera do ser em conflito, doente, do herói moralmente ferido; que é no
fundo o drama de todos os homens, que refletem sobre seu tempo e seu destino),
encontrado nos romances de Lúcio Cardoso, que surge, de forma intensa,
integrando a totalidade de sua expressão, em sua poética, onde
os poemas postumamente publicados são paradigmáticos.
Ele manifesta em "Poema escrito durante o Carnaval": "Eu
sou a pedra onde se diz adeus, / confluência de encontros , palavras
/ e soluções ainda não gravados. / Eu sou o silêncio
em que se consuma / o gesto final e a partida. / Uma das minhas mãos
está voltada / para onde a noite nasce / e os passos iniciam
/ o rude trajeto da memória. / Eu sou a solidão da madrugada.”
Editora Nova Fronteira |
|
A produção de Lúcio Cardoso
não se
esgota no romance. Sua complexa e múltipla personalidade
estende sua trajetória estética e individual junto
a um catolicismo irrecusável e crítico numa atividade
que alcança o jornalismo, o cinema, o teatro e, principalmente,
a sua poesia, cuja perenidade se confirma com a publicação
póstuma dos seus “Poemas Inéditos”, onde,
em “O Testamento”, ele diz:
“Não sou mais Porque a lenda / Aos poucos /
Devora meu corpo... / Eu sou o depois.” |
Uma angústia acabada
A trajetória de Lúcio Cardoso - o homem que escreveu "Luz
no Subsolo", cuja primeira edição é de 1936,
romance que estabelece raro intimismo psicológico na literatura
brasileira ("Perto do Coração Selvagem", de
Clarice Lispector, (15) é de
1943) - começou, no entanto,
voltada para além de si mesmo, pelo menos aparentemente, na
escolha do tema visto por fora, como uma espécie de proteção
inicial, de capa - mesmo que algo fugaz. Surgiu, portanto, ao que parece,
do exterior para o interior. Do objetivo para o subjetivo. Do ambiente
para o ente.
Seu caminho, nesse aspecto, chega a surpreender, ao parecer que é ele
mesmo quem escolhe - quando se sabe a profundidade em que vai cair
- o seu destino a partir de Salgueiro (1935), e depois de Maleita (1934),
romances anteriores, com propostas mais objetivas - pelo menos na temática
de escolha, e numa primeira aproximação. Mas ele dirá: "O
anjo se desprende desse teto escuro e o fumo se eleva sobre a rosa; é hora,
dá-me a tua mão e vem comigo pelo espaço.”
É bom lembrar, entretanto, que mesmo nos dois romances iniciais, a doença,
a deformação, o germe da febre e da destruição,
estão presentes. Primeiro, em Maleita, o micróbio físico
- social, onde sobre a doença se constrói uma cidade - um tema
quase épico. E depois, em Salgueiro: a doença, a imperfeição
social, quando sobre a favela se constróem várias vidas, numa
improvisada heterogeneidade de casas e de perseverança, ou - para dizer
expressamente o nome do sentimento que perpassa o cotidiano de todos os oprimidos,
creiam eles ou não em Deus - fé.
Partindo daqueles dois primeiros romances, diríamos que Lúcio
Cardoso percorreu o romance das casas , para chegar ao romance da casa
- cujo clímax é a sua obra-prima "A Crônica
da Casa Assassinada" (1959) - e dentro dela o encontro com o ser
humano - perplexo perante o absurdo e o desconhecido da existência
- isto é, consigo mesmo. Encontro do qual jamais se libertou,
fixando-se numa espécie de narcisismo exacerbado, dramático,
de uma paixão trágica consigo mesmo.
O capítulo 32, da "Crônica da Casa Assassinada",
registra: "Acaso...- e um fundo suspiro soergueu-lhe o peito-...acaso
existe também a Graça? (Não, não havia
ironia em sua voz. Tremi de novo, não sei porquê. Singular
poder o da rebelião! A mim mesmo, um pouco perdido, indaguei
o que era realmente a Graça. Um prêmio? Neste caso, quais
seriam os contemplados? A quem dirige Deus sua voz primeira?"
O que ocorre é que o caminho desse ro
mancista e poeta é o
mais difícil. Aliás, em Lúcio Cardoso nada é fácil.
Contraditório, inconformado, avesso a qualquer slogan ou carimbo,
recusa doutrinas prontas e ostentações - artísticas,
sociais, místicas, políticas; luta consigo mesmo e não
isenta nenhum de seus afetos, não se filia formalmente a nada;
percorreu o caminho da realidade para o seu mais profundo íntimo,
para somente a partir daí oferecer - em fogo - o caminho da
volta, a quem ousar correr o mesmo risco. Esse é o legado de
Lúcio Cardoso. Em "Mar Alheio", ele nos lembrará: "Somos
frágeis demais para não morrermos dessa grande aspiração
de luto e ousadia que é a nossa existência."
Seus poemas revelam a feição mais íntima de um
homem que, além do romance e da poesia, tinha também
(para recuperarmos toda a verdade) a atração pelo palco,
pelo cinema, a formação do dramaturgo, do criador de
imagens - e de personagens. Mas, importante, personagens que - diferente
de, por exemplo, Fernando Pessoa, o qual delimitou uma certa distância
entre seus heterônimos - são facetas múltiplas
e próximas de um mesmo ser. Realmente intrínseco do seu
espírito. Um espírito vasto. Mas um só. Lúcio
Cardoso não consegue, ou não pode, ou não precisa
criar personagens fora - ou distantes - de si.
E, portanto, se como poeta ele não lembra a dualidade, ou a
triplicidade, de Pessoa, como romancista ela não lembra um Eça
(ou um Balzac, cuja obra, no entanto, ele conhecia como poucos), capaz
de criar personagens diversos entre si e de si mesmo. Lúcio
Cardoso lembra mais um Dostoievski, um Camus, na coragem para encontrar
os seus próprios subterrâneos. "Mãos Vazias" (1938)
e "O Enfeitiçado" (1954), também anteriores à Crônica
da Casa Assassinada, já são, entre outros, momentos em
que ele se aprofunda no subjetivo - cujos personagens, impregnados
de sua poesia, são sempre fragmentos, pedaços, partes,
aspectos de uma mesma febre e de uma mesma angústia : a sua.
Ele expressa em "O repente": "Preciso do repente, como
quem abre / a fresta de um relâmpago. / Ah céu anoitecido
onde vivo, / que importa o desalinho / se a febre é o meu sistema?
/ Descerrem-se portas, retinam / momentos de fuga e de cristal: / galos
de luz, trevas feridas, / missas proibidas, primaveras! / Tudo serve à fome
que me impele.”
E em Lúcio Cardoso essa angústia - essa febre, essa fome
- é tão vasta que extravasou o formato do romance. E
pôde alcançar com a mesma intensidade, além do
romance, o teatro, a pintura, o cinema - a poesia toda. Em diversas
formas, em diversos modos de expressão, o mesmo personagem.
Sempre Lúcio Cardoso. Múltiplo e fragmentado. Mas que
com o passar do tempo, e agora depois da morte, cada vez mais se une
e se completa. Como ele mesmo diz, ainda, no poema "Testamento": "Eu
sou o depois / Mas assim como sou / Quando um dia pedirem / Para dizer
que fui / A imagem é fácil: / Um ser no vento / E de
tanto passar / - Ficou."
CONTINUA
NA PRÓXIMA EDIÇÃO
NOTAS
13 - João Etienne Filho (1918/); um dos "moços
geniais" das Minas Gerais , ao lado de Fernando Sabino, Paulo
Mendes Campos, Hélio Pellegrino, Otto Lara Resende; ator, poeta,
ensaísta, jornalista; proferiu o discurso ( cujo texto consta
como prefácio da primeira edição dos "Poemas
Inéditos") que pranteou Lúcio Cardoso, por ocasião
da edição especial a ele dedicada, no Suplemento Literário
do Diário Oficial de Minas Gerais, em 1978.
14 - "Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje..." (Hb
13, 8), João Paulo II, em Carta Apostólica, Tertio Millennio
Adveniente .
15 - Clarice Lispector (1925/1977); autora
dos romances "Perto
do Coração Selvagem" e "A Maçã no
Escuro", entre vários outros, de cunho intimista e psicológico,
em estilo de grande originalidade; manteve relação de
admiração recíproca, pessoal e estética,
com Lúcio Cardoso; (é possível, mas não
existe nenhuma comprovação, que tenha sido a ela que
Lúcio Cardoso - em face da pergunta: "Por que você escreve?" -
tenha dado a lendária resposta: " Porque não tenho
olhos verdes.") .
< retorna ao
sumário |
O TESTAMENTO
DE LÚCIO CARDOSO PARTE 1
-"Neste jardim votado aos verões da carne"
O TESTAMENTO
DE LÚCIO CARDOSO PARTE 3
-O retorno de uma metáfora
-A casa e as portas
O
TESTAMENTO
DE LÚCIO CARDOSO PARTE 4 (extra)
-A reflexão cinzenta |