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Antonio Strano Vieira é professor universitário; foi Coordenador do Curso de Jornalismo da PUC-PR e do Núcleo de Ética e Legislação em Comunicação Social da UTP-PR. Publicou "Quinze Passos Brancos", "O Arquiteto Incompleto" e "Elegia da Festa do Divino"; prepara um estudo sobre as "Ordenações do Reino", de Portugal.


ANO 10 - ED 110 - NOVEMBRO DE 2008

ENTRE A QUEDA E A GRAÇA,
O Testamento de Lúcio Cardoso - PARTE 3
(conclusão)

Antonio Strano Vieira

Apesar da multiplicidade de seus interesses, o que
aparentemente mostra um ser fragmentado
pelo experimentalismo, tema tratado na parte dois deste artigo, publicada na edição anterior, Lúcio Cardoso é, na verdade,
um autor acabado. Dono de uma arte que dominou por completo.
Mais do que dentro das cidades, ou dentro das casas,
é dentro dele mesmo que se encontra o enredo de sua arte,
o espaço de todos os seus conflitos: o teológico,
o ideológico, o existencial.

O retorno de uma metáfora

Em "Crônica da Casa Assassinada", o romance de maior referência de Lúcio Cardoso, no capítulo 26, ocorre o seguinte diálogo: "Então ela disse baixinho, fixando um ponto ao longe: - Deus é injusto, nega tudo a um, para acumular outros de graça. - Ao ouvir aquela palavra, confesso que estremeci. Ela falava da graça humana, desse poder que se confundia com a beleza, e que era mortal e passageiro. Quanto a mim, o que importava era a Graça Divina".

Em outro ponto da "Crônica", ante a afirmação de um dos personagens: "Não, não é a santidade que o interessa". - Padre Justino, uma espécie de superego de sua visão religiosa, reponde: "Não esta espécie de santidade..."

O que acontece é que Lúcio Cardoso trata do ser que, para além das convenções e aparências de superfície, de qualquer tipo, tem a consciência do inexorável - a iminência do mistério inevitável - e ocupa o seu tempo para refletir e atuar através dela. Essa é a estética de Lúcio Cardoso. O ser que está à beira do abismo, que sabe o seu destino, e que usa o seu espaço e o seu tempo para provocar e revelar as cores, as impressões e as reflexões dessa consciência.

É algo como aquilo que Albert Camus chamava de "a tragédia da inteligência", com um aspecto que talvez ultrapasse - assim como o fez Schmidt, tão incompreendido pelo pesado viés da visão européia - a filosofia do absurdo: a força da poesia que bate violentamente na busca da transformação e do transcendente. Em nenhum momento ele esquece essa fatalidade e esse questionamento da existência: a consciência da dor, da angústia, da dúvida. Uma febre alta, que é purgada em pensamento e arte e, só assim, pode ser alçada em beleza - e esperança.

O capítulo 32, do romance “Crônica da Casa Assassinada”, registra: “... Singular poder o da rebelião! A mim mesmo, um pouco perdido, indaguei o que era realmente a Graça. Um prêmio? Neste caso, quais seriam os contemplados?
A quem dirige Deus sua
voz primeira?”

Essa febre passa por amendoeiras, pelas águas, pelos meninos, pelas janelas, pelas pequenas cidades, pelo vento. E permanece. Reflete. Há uma reflexão sobre o sentimento e um sentimento que nasce dessa reflexão. É por isso que a sua poesia - esteja ela nos romances ou nos poemas, na pintura ou no teatro, no cinema ou no próprio diário - não é apenas um jogo de filosofia, nem apenas um relato de impressões.

Ela é a soma, o resultado, o produto final destas superposições: o sentimento, a reflexão sobre o sentimento, e o sentimento sobre a reflexão. A sua esperança é a do crescimento, do florescimento, dentro da dor. Mesmo que seja para outra dor. São as descobertas, as revelações, que ocorrem nesse caminho. Através do conflito, da crise, o artista caminha ao encontro dos "Jardins Distantes" (para lembrar a belíssima expressão de Juan Ramon Jimenez; esse irmão mais velho, lírico e grave, dos modernos poetas latinos).

Há determinados poemas de Lúcio Cardoso em que - como ainda indica Octávio de Faria - o poeta trata do mundo objetivo; são, no entanto, como ele mesmo diz, "poemas em que o eu do poeta predomina ostensivamente, absorve tudo, até mesmo o mundo que o envolve e que ele recria em função de si mesmo, freqüentemente deformando-o ou modificando-o". Outros poemas, com conteúdos semelhantes, Octávio de Faria entende como "peças em que o eu do poeta predomina, mas todas elas já voltadas para o mundo objetivo que o angustia e, por vezes, como que o devora."

Entretanto, é possível perceber que essa angústia é também - mais do que o mundo que angustia o poeta - uma projeção da angústia do poeta sobre o mundo, sobre os fatos e os objetos, como se vê na "Casa do Solteiro", uma das composições mais significativas entre os "Poemas Inéditos": "A casa do solteiro se abre como a música, / é triste e macia, fechada como a do príncipe,/ fechada , entre janelas longas de ferro, enquanto lá fora o vento ruge e há relâmpagos.". O próprio Octávio de Faria reconhece, de certo modo, em determinados poemas, que "aqui se passa da pura subjetividade para uma meia objetividade, constatando-se um certo equilíbrio entre o eu e o mundo, como que num vaivém contínuo."

O que ocorre, portanto, na poética de cunho mais dramático (no confronto entre o ser e o que o envolve), de Lúcio Cardoso, é que essa angústia já não é apenas a angústia que alcança o autor e nem é apenas a projeção dela para a sua contemplação. É um impulso, um atirar-se, uma projeção do próprio eu do poeta - para mover a realidade. A ponto de as coisas objetivas se tornarem metáforas atuantes do próprio poeta, do próprio ego do autor em ação: o poeta se mistura com as coisas.

Seria uma espécie de impressionismo exacerbado - radical; que se aproxima do expressionismo. Onde o objeto deixa praticamente de existir, como realidade material, e passa a existir também como extensão da realidade do poeta.

Isso explica de certa forma a aparente - e apenas aparente - falta de realismo puro em sua estética, a carência do questionamento expresso e mesmo positivo da realidade humana; em Lúcio Cardoso, a ideologia, a sensualidade mais material, o próprio senso de prazer ou da dor física, a inquietação política e até social, o erotismo, o sentimento amoroso, estão latentes, imanentes, implícitos - e não absolutamente explícitos (talvez porque a própria realidade não seja toda ela explícita) - na linguagem síntese, que o autor escolheu para sua expressão mais íntima: a poesia.

Ele diz, ainda, em "A casa do solteiro": "A casa do solteiro é cor de chama,/de silêncio aflito e aurora sem contemplação. /São pedras de crime e de agonia,/são negras pedras de delírio e de remorso./São duras estacas de alumínio e febre,/são traves de cristais e de luxúria./Há um descampado em torno: nostálgicos,/cemitérios se evaporam no crepúsculo/e ruínas de azul e ópio cintilam,/entre guitarras e navalhas abandonadas." O fato é que, para além de qualquer argumento ou tentativa de exegese, quem está nesse retrato, o que se vê nesse fragmento descritivo, não é "a casa" - é o próprio Lúcio Cardoso.

Aliás, a propósito de "A Casa do Solteiro" é interessante notar o retorno dessa expressão - casa - na obra de Lúcio Cardoso. Jamais é uma casa no sentido burguês do termo: uma construção para o conforto, a segurança, a conservação dos valores. Casa, para Lúcio, é sempre a habitação da angústia. Mas em se tratando de Casa, não é uma angústia absolutamente etérea, abstrata, caótica, sem teto e nem chão. É a angústia que convive, que dorme e acorda, que tem insônia, que tem delírios, mas que tem construção, tem presença firmemente consolidada, tem porões, tem alicerces.

É a dor assumida como única opção de existência. É o incêndio, a lucidez que se aproxima da demência, com espaço para existir - para sobreviver. Com varandas, com salas, com sótãos, com porões, mais ou menos como em François Mauriac, e não como, por exemplo, nos romances de Thomas Mann, ou no cinema de Luchino Visconti, onde a casa aparece como elemento de poder e exuberância, mesmo em decadência; em Mauriac, como em Lúcio Cardoso, é outro o poder da casa e outra a sua exuberância - é o espaço do conflito íntimo e do ser que se pergunta; com mais febre e mais ansiedade em Lúcio Cardoso.

É uma espécie de anseio primitivo - uma grande fome do fundo do ser - que o envolve como uma longa vestimenta (como paredes, que andam por dentro e por fora), com as cores da sua alma; para com ela - assim vestido ou despido - partir em busca da revelação, do cristianismo a ser descoberto por inteiro; que inclui o ser, com a natureza e a cultura que o cercam.

A busca por essa revelação - um mover infinito, para Lúcio Cardoso - começa dentro do próprio homem; o qual, junto da realidade mais lúcida e radical, deve abrigar todos os conflitos e crises que conheça, sem recusar a perspectiva do transcendente. Uma espécie de desafio sobre o abismo, que ele assumiu manter vivo, por sua conta, no âmbito de sua extrema contingência, como quem segura uma pedra em brasa; sob o risco de sucumbir ou iluminar de vez este "jardim votado aos verões da carne" - pelo simples imperativo de ser Lúcio Cardoso.


A casa e as portas

A casa em Lúcio Cardoso, metáfora do ser sobre o mundo, é uma febre, em chamas, que arde como um incêndio, dentro de uma edificação que não se destrói. É uma espécie de arquitetura da angústia; a angústia com endereço para morar, com número, com rua, com um lugar no mundo. É algo que lembra as várias construções humanas. A habitação. Ou a tumba. Mas não é um lugar morto. É a ante-sala da morte. Ou melhor, do mistério.

E por isso, a casa, em toda a obra de Lúcio Cardoso, é cheia de sombras que pesam e luzes que ardem. Não é o hospital, a igreja, o bordel. Não se confunde com outras construções humanas. É a casa mesmo. Aquela em que o homem arruma as suas coisas para viver. E para conviver com suas dúvidas e dores.

Lúcio Cardoso relata em "A Casa do Solteiro": "A casa do solteiro é alta e de paredes de angústia, / muros escorrem como verdes contornos/e colunas de mármore frio guardam seus limites. /Há quatro anjos sentados no teto solene e casto/e com luzes vermelhas, entre ciprestes,/sondam os anjos - guardiões - os fundamentos/que se apóiam com gemidos nos porões e adegas,/no rio escuro e na água morta/de correntes que foram vencidas - despedaçadas."

É difícil ver as últimas imagens de Lúcio Cardoso, doente, preso à limitação do corpo, magro, quando passou a pintar com mais intensidade, paralítico do lado direito do corpo ("Essa indomável mão esquerda", diria Carlos Drummond de Andrade), sem pensar nessa casa construída pelas febres e luzes da sua existência.

No entanto, em Lúcio Cardoso esse coabitar com a dor não é pessimismo, e sim esperança. João Etienne Filho, contemporâneo de Lúcio Cardoso, presente em vários momentos de sua existência, lembra - no prefácio da primeira edição do livro "Poemas Inéditos", - o que chamou de "as duas mortes de Lúcio Cardoso" ("a primeira para a escrita, para a fala... a segunda, o abrigo sob a asa de Deus")"; e nos deixa concluir que um homem que morreu duas vezes não pode deixar de vislumbrar a ressurreição, de se perceber, de algum modo, ressurrecto, redivivo, remoçado. E encerra João Etienne Filho: "Foi, sim, dormir o poeta. Não no silêncio do abandono, mas no alarido dos que o amaram e o amarão..."

A vitória sobre o silêncio, através do legado de sua obra, cada vez mais enriquecido, inclusive com a edição póstuma dos poemas inéditos, é apenas mais uma das portas abertas pela violenta febre do seu destino, que nos atinge como uma espécie de ressonância, sempre a ecoar, do que foi a sua existência. Na verdade, todas as paredes que foram se impondo à sua vida - o que poderia parecer uma prisão - acabaram por se tornar uma nova porta, um novo caminho de expressão. (16)

Ele mesmo nos indica, em "Sentimento do Mar": "Ó praia seja pródiga nos teus conflitos/ imagine um ser de espuma e outro de vidro anoitecido. / Nunca será igual ao teu espasmo,/ mas ao te ver, ao te sentir deliqüescente, água amortalhada entre as coisas, sinto que um outro se projeta, o abismo da cor, o fundo, sendo o primeiro mundo ali dilatado mar, coisa que eu sou, carregando sangue, neblina e fúria morta."
Sua vida física, reiteradamente envolvida pelo cotidiano - aos cafés, às cidades, à burocracia, à doença - esteve sempre voltada para o transcendental. Lúcio sempre aprendeu a se libertar. E aprendeu - resolvendo a dificuldade de Gide (17) - o que fazer com a liberdade. E é através desse aprendizado que está o objetivo maior da estética de Lúcio Cardoso: o de passar essa reflexão sobre a condição humana para os outros homens. Na verdade, essa é a função mais alta da arte: a de descobrir , a de revelar o homem para o homem.
Em "Mar Alheio", podemos perceber, ainda, a expectativa pelo descobrimento, pela revelação que talvez nos alcance ou nos conduza: "Quando o dia nasce/o tempo aviva em nossos olhos a esperança/e amamos as formas pelo que elas são/como promessas à nossa fome. /Em nossas mãos o amor é como a vida,/e sabemos que em cada movimento/traçamos a história e o desejo,/alma secreta e longe que fitamos sempre,/quando o infinito se abre/azul sem termo ou céu sem nome."

O fado final, o inesperado desenlace das "promessas à nossa fome", é que artistas como Lúcio Cardoso, ao mostrarem o resultado doloroso - e alto - dessa descoberta ou desse caminho, "quando o infinito se abre", ultrapassam, sem ostentação e com simplicidade, as possíveis conquistas da estética e do pensamento, para caírem na absoluta e inevitável tragédia do humano. E, com isso, revelam a força pura, a coragem original, do simples homem, do homem qualquer; lembrando, talvez, que o artista não passe de uma exasperação incomum do homem comum; e que - assim - a arte atinja o homem mesmo sem arte; o homem que obstina, que teima, que insiste no seu destino e que - por força de refletir e esgotar toda a extensão de suas limitações - o transforma.

CONTINUA

NOTAS

16 - João Paulo II, "Memória e Identidade" (Editora Objetiva, 2004) : "Em Cristo, o homem é chamado a uma vida nova, à vida de filho no Filho, expressão perfeita da glória de Deus: "gloria Dei vivens homo - glória de Deus é o homem vivo" (Sto. Irineu).

17 - "O difícil não é ser livre, o difícil é saber o que fazer com a liberdade", em "O Imoralista", de André Gide.

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O TESTAMENTO
DE LÚCIO CARDOSO PARTE 1

-"Neste jardim votado aos verões da carne"

O TESTAMENTO
DE LÚCIO CARDOSO PARTE 2

-O ser ao vento
-Uma angústia acabada

O TESTAMENTO
DE LÚCIO CARDOSO PARTE 4 (extra)

-A reflexão cinzenta

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