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Marcio Antonio Campos, jornalista, editor do caderno Vestibular do jornal Gazeta do Povo, publica o blog Tubo de Ensaio sobre ciência e religião, é novo sócio do Instituto Ciência e Fé.

Este artigo reúne trechos de textos publicados em seu blog Tubo de Ensaio, sobre ciência e religião
(www.gazetadopovo
.com.br/blog/
tubodeensaio).



ANO 10 - ED 110 - NOVEMBRO DE 2008

DARWIN E O CATOLICISMO: A GUERRA QUE NUNCA HOUVE

Marcio Antonio Campos

«A Igreja Católica nunca se opôs às idéias de Darwin, e A Origem
das Espécies nunca foi colocado no Índex de Livros Proibidos.»

Em setembro deste ano, a imprensa deu um grande destaque às relações entre religiões cristãs e a teoria de Evolução, proposta por Darwin e Wallace. A discussão começou quando um clérigo da Igreja da Inglaterra afirmou que sua denominação devia desculpas a Darwin por ter rejeitado suas idéias no século XIX (1). Imediatamente alguns jornalistas tiveram a idéia de repercutir o assunto com a Igreja Católica, e coincidentemente naqueles dias o Vaticano anunciava uma conferência internacional de cientistas que ocorrerá em Roma, em março do ano que vem. Perguntado sobre a opinião do clérigo anglicano, o arcebispo Gianfranco Ravasi afirmou que não era o caso de se fazer o mesmo na Igreja Católica. A maioria dos sites brasileiros publicou a notícia com o seguinte título: Vaticano aceita evolução, mas não se desculpa com Darwin (2).

O título pode levar a dois enganos. O primeiro, cometido por exemplo pelo jornalista João Ricardo Gonçalves (3), é acreditar que a teoria de Darwin foi aceita pela Igreja apenas recentemente. Na verdade, a Igreja Católica nunca se opôs às idéias de Darwin, e A Origem das Espécies nunca foi colocado no Índex de Livros Proibidos. Ressalte-se que a teoria evolucionista apareceu durante o pontificado de Pio IX (1846-1878), um dos papas que mais zelou pela integridade da fé católica, inclusive publicando em 1864 o Syllabus, condenando várias proposições consideradas erradas do ponto de vista da doutrina. Uma consulta ao Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral (conhecido popularmente como Denzinger) não traz nada sobre o evolucionismo na época de Darwin, nem nas décadas seguintes.

O primeiro pronunciamento oficial da Igreja sobre a evolução viria apenas com Pio XII, em 1950, na encíclica Humani Generis (4). O Papa afirma: “(...) o magistério da Igreja não proíbe que nas investigações e disputas entre homens doutos de ambos os campos se trate da doutrina do evolucionismo, que busca a origem do corpo humano em matéria viva preexistente (pois a fé nos obriga a reter que as almas são diretamente criadas por Deus), segundo o estágio atual das ciências humanas e da sagrada teologia, de modo que as razões de uma e outra opinião, isto é, dos que defendem ou impugnam tal doutrina, sejam ponderadas e julgadas com a devida gravidade, moderação e comedimento (...)”. Depois disso, João Paulo II, em uma mensagem à Pontifícia Academia de Ciências em 1996, fez a famosa afirmação segundo a qual “novos conhecimentos levam a pensar que a teoria da evolução é mais que uma hipótese” (5).

Apenas dois pronunciamentos conhecidos sobre o tema mostram a relevância desta discussão dentro da fé católica. A realidade é que, do ponto de vista da fé, pouco importa se as espécies surgiram por meio da seleção natural, do uso e desuso, do design inteligente, ou se foram criadas por Deus da forma como são hoje. O que existe é a necessidade de se acreditar em certos pressupostos, como o de que Deus tirou o universo do nada. Fora desses pressupostos, o católico é livre para defender a teoria que achar melhor, correndo apenas o risco de ser criticado por defender visões científicas obsoletas ou incompatíveis com as evidências encontradas pelos cientistas.

Desfazer o primeiro equívoco (“a Igreja aceitou a evolução apenas recentemente”) leva, automaticamente, a desfazer o segundo engano. A Igreja não vai “se desculpar com Darwin” simplesmente porque não há motivo para um pedido de desculpas. Se a Igreja nunca condenou a evolução, sempre permitiu que essa hipótese fosse investigada, que desculpas os católicos deveriam a Darwin?

Ideologia

A polêmica sobre as teorias de Darwin surge quando alguns cientistas fazem uso do evolucionismo para defender conclusões que extrapolam os aspectos biológicos da seleção natural. É o que Dinesh D'Souza e outros autores chamam de “darwinismo”, ou seja, o uso do evolucionismo para justificar posições ateístas ou que rebaixam o homem a um nível igual ao de qualquer outro animal (6). Um dos principais nomes desta corrente, mais ideológica que propriamente científica, é Richard Dawkins, autor de Deus, um Delírio.

Segundo estes autores “darwinistas”, a teoria da evolução retirou o homem de um pedestal de superioridade sobre os outros animais, ao mostrar uma origem comum entre o ser humano e outras espécies. No entanto, esses autores procuram no lugar errado a origem da dignidade especial que o homem possui. Eles supõem que a criação “à imagem e semelhança de Deus” exija um processo único, particular, com intervenção divina direta, para criar um ser bípede que seria sua “criação especial”. E comprovar que o homem veio de um outro primata pré-histórico, em vez de ter sido “especialmente moldado” por Deus, seria um baque na visão religiosa.

Mas consideremos: se Deus não tem corpo, pois é espírito puro, a “imagem e semelhança” não podem ser algo físico. Então só resta concluir que a imagem e semelhança residem nas realidades espirituais que apenas o ser humano tem: a alma espiritual, o livre-arbítrio, a inteligência e a vontade (ainda que imperfeitas).

E considerar que o evolucionismo nega a existência de Deus é uma extrapolação que carece de qualquer base científica, e é impressionante ver como cientistas, cujo trabalho é pautado justamente pela busca de dados e evidências, são capazes de fazer afirmações, e divulgá-las como verdades absolutas, sem nenhuma evidência. Afirmar que a evolução se dá por leis biológicas, físicas e químicas, e não por ação divina direta, em nada indica a inexistência de Deus; pelo contrário, a perfeição das leis da natureza indica que partiram de uma inteligência, em vez de serem fruto do mero acaso. Como diz o cardeal Christoph Schönborn, “o conhecimento que adquirimos por meio da ciência moderna torna mais razoável que nunca a crença em uma Inteligência por trás do cosmos” (7).

O Papa Bento XVI, em seu livro Fé, Verdade e Tolerância (escrito quando ainda era cardeal), pede um diálogo franco sobre o verdadeiro alcance da teoria evolucionista (8). Ela realmente dá margem a interpretações ateístas? Ou elas são o produto de autores contemporâneos, que usam Darwin para promover suas próprias idéias? Em resumo, cristão nenhum precisa ter medo de Darwin; mas é necessário, sim, se preocupar com o “darwinismo”, o uso da teoria evolucionista pelo ateísmo militante: seu verniz científico lhe dá uma aparência sedutora, contra a qual é preciso se prevenir.

Notas

(1) Para clérigo, anglicanos devem desculpas a Darwin. Disponível em
<http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/mundo/
conteudo.phtml?tl=1&id=808432&tit=Para
-clerigo-anglicanos-devem-desculpas-a Darwin>.

(2) <http://g1.globo.com/noticias/mundo/
0,,mul7619235602,00vaticano+aceita+evolucao
+mas+nao+se+desculpa+com+darwin.html>.

(3) GONÇALVES, J.R. Um grande passo para a Igreja.
O Dia, 21 set 2008. Jornal Universidade, outubro 2008.

(4) <http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/
encyclicals/documents/hf_pxii_enc _12081950_humanigeneris_po.html>.

(5) <http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/mes
sages/pont_messages/1996/documents/
hf_jpii_mes_19961022_evoluzione_sp.html>.

(6) D'SOUZA, D. A verdade sobre o Cristianismo.
Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2008.

(7) Resposta à questão “A ciência torna obsoleta a crença em Deus?”.
Disponível em:
<http://www.templeton.org/belief>.

(8) RATZINGER, J. Truth and Tolerance. Ignatius Press, 2004, p. 179.



UM PENSADOR CATÓLICO
 
Marcio, paulista, criado em São José dos Campos, depois de nove anos em Sampa, “agarrou” uma chance de vir para Curitiba. Formado pela Universidade de São Paulo e pelo Curso Estado de Jornalismo, já escreveu sobre cinema em sites de roteiro cultural, colaborou com Marcelo Duarte em alguns volumes do Guia dos Curiosos, passou pela Reuters, fez reportagem na editoria Paraná, da Gazeta do Povo.
Suas especialidades são os veteranos de guerra e religião. Em 2005, trabalhou na cobertura do conclave que elegeu Bento XVI (só não foi a Roma) e, no fim daquele mesmo ano, fez uma série de oito páginas sobre os 40 anos do encerramento do Concílio Vaticano II, entrevistando vários bispos brasileiros que participaram do evento. É um católico esclarecido e praticante, fã de Bento XVI desde a época em que ele ainda era cardeal e, quando a agenda permite, pode ser visto participando da missa tridentina, aos domingos de manhã na Igreja da Ordem.
Também é plastimodelista (com destaque para aviões alemães da Primeira Guerra Mundial), botonista, scrapper e fã de esportes de inverno, inclusive tendo sido voluntário nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2006, na Itália. Entre as prioridades, tenta ler todos os livros que compra - inclusive aqueles sobre ciência e religião.
 

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