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Evaristo E. de Miranda, doutor
em ecologia, dirige
a EMBRAP
A Monitoramento Ambiental
por Satélite, Campinas/SP. Autor do livro “Guia
de curiosidade
s católicas”, diretor do Instituto Ciência e Fé.



ANO 10 - ED 111 - DEZEMBRO DE 2008

O QUE É O HOMEM?

Evaristo Eduardo De Miranda

O mistério da Encarnação do Verbo,
do Deus que se fez homem e habitou entre nós,
coloca radicalmente essa pergunta: o que é o homem?
No quê em quê, Deus se encarnou?


A vida espiritual nos revela: o homem que eu sou, não pode ser esgotado e não se resume ao que eu faço ou ao que eu digo. Nisso reside um mistério. Talvez, o mistério de nossa encarnação, de nossa humanidade. Nós somos mais do que aparentamos ou cremos ser; mais, no sentido qualitativo. Quem percebe que sua realidade não se esgota no que ele diz, deseja, sonha ou faz, aproxima-se de seu mistério. O homem não é cognoscível de fato, isso é evidente, mas ele também não é cognoscível de direito. Nosso ser é mistério, de direito e de fato.

As ciências humanas têm a tendência de querer fazer do homem um fenômeno relevante para suas disciplinas, para seus estudos. Face a esse positivismo, de um humano passível de estudos e esclarecimentos, repetível e previsível, a vida espiritual leva a descoberta do homem como mistério. Face às afirmações ilusórias das ciências, às crenças da Nova Era e de seitas, para a espiritualidade cristã, o homem é uma realidade que pode ser apreendida mas que não pode ser definida. Somos mistério.

Talvez, ao aprofundar-se o conhecimento sobre a realidade misteriosa do humano, poder-se-á chegar às outras questões que as ciências humanas tentam responder. Então, quem sabe, compreenderemos melhor o mistério da Encarnação, essa revelação que é Jesus e sua relação com Deus. Então a abordagem, a aproximação do mistério de Deus e do mistério de Jesus se fará através da abordagem de nosso próprio mistério, de nosso natalício e de nossa vida familiar. Nós também, de certa forma, nascemos numa manjedoura.

“O homem é a via da Igreja. E a família é a expressão primordial dessa via. O mistério da Encarnação do Verbo está em estreita relação com a família humana. Não apenas com uma - a de Nazaré -, mas de certa forma com cada família...”, afirmou o Papa João Paulo II no Congresso Pastoral Teológico do Rio de Janeiro, em 1997.

Os grandes místicos da Igreja ensinam: ao descobrirmos o mistério do homem, nós seremos capazes de aproximar-nos suficientemente do mistério de Jesus e, através dele, do mistério de Deus. Pela via espiritual, deixaremos de lado nossa concepção espontânea e panteísta de Deus, tão em voga nos dias de hoje.

Essa concepção panteísta nos vem de uma herança milenar em que Deus é, sobretudo, a explicação do mundo e um pouco seu fabricante e organizador. Ele é aquele que provoca os acontecimentos, como uma segunda causa. Deixaremos de lado o panteísmo intuitivo e aquele tão elaborado dos teólogos recém-convertidos à salvação da natureza, do planeta e de Gaia, face às ameaças ambientais. Nós descobriremos o verdadeiro Deus através da realidade misteriosa de Jesus e de sua relação com aquele que ele chamava de Pai.

A fórmula da Igreja: Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, orienta-nos no sentido de uma aproximação do mistério do homem e de Deus. Assim, como conclui Marcel Legault, Deus aparece como a ponta extrema e final, o ápice do caminho que nós poderemos fazer durante toda a nossa vida, ao descobrir progressivamente essa realidade misteriosa que nos é acessível: a realidade tão evocada nos símbolos e ritos religiosos do Advento e do Natal.

Se Deus é radicalmente impensável, Ele nos é acessível na medida em que nós podemos aproximar-nos de nossa própria realidade. Essa é a questão fundamental. Essa questão não pode ser resolvida, e sua resposta não pode ser possuída, pois depende de cada um de nós. Ela condiciona a vida espiritual : minha vida, sua vida. Ela também necessita, para ser carregada sem ser resolvida, de que nós tenhamos a grandeza humana suficiente para entrar na inteligência da grandeza humana de Jesus de Nazaré.

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