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Agostinho Baldin, doutor em Letras, autor de “Anseios do Coração”



ANO 10 - ED 111 - DEZEMBRO DE 2008

“NÃO HAVIA LUGAR”

Agostinho Baldin

“Non erat eis locus - Não havia lugar para eles” (Lc 2,7). É o registro que fez São Lucas, reportando-se à circunstância angustiante que ocorreu na véspera do primeiro Natal. José e Maria, solícitos cumpridores das leis humanas, chegaram a Belém de Judá para o recenseamento: eram dois naquele dia; seriam três no dia seguinte.

Era a trindade mais dignificadora do censo romano; sua modéstia, porém, não lhes permitiu exceções. Ocultaram-se no meio da multidão. Para eles, todavia, em estalagem alguma havia lugar. Para muitos, havia cômodo, do mais simples ao mais aconchegante. Para o dono do mundo, que chegaria no dia seguinte, não havia lugar. Que ironia!...

Ao longo de vinte séculos de Cristianismo, a cena se repetiria com freqüência. É verdade também que, em muitos lugares e em todos os tempos, Jesus foi hóspede de honra no coração de muitas pessoas. A dualidade de atitudes - o acolhimento ou a rejeição - é uma constante. Após vinte séculos de Cristianismo, já no início do vigésimo primeiro, a realidade continua dual, inalterada. O coração humano é um enigma insondável.

Disse alguém que “o coração humano só se abre por dentro”. Se seu dono não quiser, a tranca não cai, e ninguém nele penetra. Nem aquele que disse “ecce sto ad ostium, et pulso - eis que estou à porta e bato” (Apoc 3, 20) tem franqueada a porta do coração. Esta é sempre impenetrável sem o consentimento do morador. Outra vez, é a terrível prerrogativa da liberdade que nos foi assegurada com a vida que recebemos.

Como Deus gostaria de ser nosso hóspede de honra! No entanto, quantos corações se transviaram pelas quebradas da vida. Para eles, o eco suave do convite do Mestre não chega a seus ouvidos moucos ou ensurdecidos pela maldade enrustida. Nem o calor fundente do divino Coração consegue derreter a dureza adamantina do coração pervertido. O coração empedernido não tem lugar para o “manso e humilde de coração” (Mt 11, 29). A frieza e a indiferença são seus inquilinos pétreos e exclusivos. Saiba-se, porém, que ninguém chega a essa deprimência por acaso.

Um dia o coração humano deu o primeiro passo em falso, não se acautelou em tempo, resvalou encosta abaixo e mergulhou no abismo, sem perspectiva de retorno. Se, como o pródigo, no fundo da pocilga, não entrar em si, recordando a casa do pai, acolhedora e festiva, com firme decisão de encetar o caminho de volta, o pai continuará a olhar, ansioso, todos os dias, para o horizonte da estrada, à espera.

Deus sempre espera nossa decisão. Se acolhermos os eflúvios amorosos de seu convite, o retorno será possível. Será a conversão. Quantas houve na esteira dos tempos.

Como Deus foi hóspede de honra para tanta gente, ao longo da história! Milhões abriram, de par em par, as portas do coração para acolher o Mestre. Ouviram suas palavras salvíficas, observaram-nas e fizeram-nas sua vida. Todavia, não pensemos, que isso tenha sido só festas e foguetório por dentro. Houve calvários a serem galgados; benesses atraentes a serem postergadas; feridas a serem cicatrizadas; gemidos a serem sufocados; lágrimas derramadas.

A vida dos hospedeiros do Mestre não foi um mar de rosas. A presença do divino hóspede, contudo, foi-lhes alento confortador. Ser bom, segundo o conceito divino, não é tarefa isenta de sacrifícios e privações. Ao contrário, ela exige e exige muito. “Qualquer um de vós que não renuncie a todos os seus bens, não pode ser meu discípulo” (Lc 14, 33). A vida dos seguidores do Mestre é cheia de privações; mas, em compensação, as delícias experimentadas por eles são inenarráveis. Só aqueles a quem foi dado senti-las é que podem aquilatar devidamente o quanto é compensador. A vida dos santos - sempre os houve ao longo do Cristianismo - é uma coroa de edificância, malgrado as galhofas do mundo desvairado, que zomba e mofa deles, com requinte. Veremos, ao final, quem tem razão...

Convidemos o Mestre para nosso hóspede. Ele é convidável por excelência. Nunca recusa convites. Reservemos-lhe o lugar de honra em nosso coração. Pratiquemos o gesto inverso dos moradores de Belém de Judá. Digamos-lhe cordialmente: Mestre, temos lugar para vós. Nós seremos tão acolhedores quanto o presépio da encosta fria de Belém. Aqui vós vos sentireis bem, e nós mais ainda, porque vossa presença é sempre bem-vinda.

UM LUGAR PARA O “ESPÍRITO DE NATAL”
Agostinho Baldin
O Natal de hoje, disse alguém, é vítima indefesa do consumismo desenfreado que profanou e descristianizou o legítimo “espírito do Natal”. É um Natal sem presépio – este foi difundido a partir do Poverello de Assis-, e perdurou por muitos séculos, cristão e autêntico, com o Menino Jesus, sua mãe Maria, São José, com a alimária silenciosa ao pé manjedoura. Hoje, não; hoje, o Natal é tempo de panettone, pinheirinho, o bizarro papai noel, renas, trenó, jingle bell – não mais o sino festivo, anunciando as vozes do coro angelical vindas do além -. Na criteriosa concepção de muita gente nos dias de hoje, o Natal é irreal, porque extemporâneo, com vezos de outras latitudes e de outros climas... Que pena!...Que saudade de outros Natais!...
(Se saudade pudesse dar outro rumo a tanta coisa deste mundo, seria tão gratificante!...).

O que está faltando ao Natal de nossos dias é mais ternura, mais meiguice, mais aconchego, como no recinto rústico da gruta de Belém no primeiro Natal da história cristã. As figuras silenciosas dos modestos peregrinos de Belém, sem alojamento digno – Maria e José -, alojados no ermo da gruta de Belém... Às altas horas da noite, surgiu o Divino Menino, a ternura feita pessoa, a meiguice feita gente, no aconchego simples mas acolhedor da gruta de Belém...

Recordar e reviver esse dia memorável é viver o verdadeiro “espírito de Natal”.


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