
Marcio Antonio Campos, jornalista, editor do caderno Vestibular do jornal Gazeta
do Povo, publica o blog Tubo de Ensaio sobre ciência e religião, é novo
sócio do Instituto Ciência e Fé.
marcioc@gazeta
dopovo.com.br
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ANO 10 - ED 112 - JANEIRO DE 2009
BOTANDO PALAVRAS NA BOCA DE BENTO XVI
Marcio Antonio Campos

Já vi nas livrarias, em várias ocasiões, o livro O Que Jesus Disse? O Que Jesus Não Disse?, de Bart Ehrman, uma dessas tentativas de “provar” que Jesus nunca disse nada daquelas partes “desagradáveis” dos Evangelhos, e que aquilo tudo teria sido adição de católicos maldosos.
Eu estou começando a pensar em escrever um outro, chamado O Que Bento XVI Disse? O Que Bento XVI Não Disse?, em represália.
O motivo é simples: todos se lembram que, pouco antes do Natal, rodou o mundo a notícia de que o Papa, em seu discurso de Natal à Cúria Romana, teria dito que “salvar os gays é tão importante quanto salvar florestas”. Saiu até no Jornal Nacional! No mesmo dia do discurso, o Vaticano havia colocado em seu site a íntegra do discurso, apenas em alemão e em italiano. Minha sorte é ser fluente em italiano: assim eu descobri que o discurso não tinha uma referência qualquer ao homossexualismo. O que o Papa realmente disse foi que “As florestas tropicais merecem, sim, nossa proteção, mas não a merece menos o homem, como criatura”. O Papa está falando de todos os seres humanos, e não apenas de um grupo.
Comentando o assunto com um colega, que nem é católico, ele perguntou “Mas como os repórteres conseguem distorcer assim o que o Papa disse”? Sinceramente, eu não sei. Na época em que a difusão da informação era monopólio dos veículos de comunicação, seria possível imaginar a mais pura má-fé mesmo, já que provavelmente nunca haveria desmentido, a não ser, talvez, em órgãos de imprensa católicos. Mas hoje qualquer blogueiro pode ir, como eu fui, ao site do Vaticano e conferir as palavras corretas. A farsa seria desmascarada em questão de horas.
Mesmo assim, as distorções continuam, e não é difícil supor que um jornalista disposto a prejudicar a Igreja continue tendo sucesso: o que ele escreve chega instantaneamente às redações do mundo inteiro, que passarão a informação adiante; mas quantos editores de notícias internacionais leem blogueiros católicos antes de botar no ar, ou no papel, qualquer informação sobre a Igreja? A essa altura, o estrago está feito: só quem acompanha os blogs sabe da farsa; a multidão de leitores comuns continuará achando que o Papa realmente falou aquilo.
Antes fosse a única situação em que Bento XVI foi distorcido pela imprensa: a France Presse já chegou a dizer que o Papa pedira aos católicos que rompessem contato com pessoas que tivessem deixado a Igreja (nesse caso, a trapalhada foi produzida no escritório da agência no Brasil, pois os textos em outros idiomas não faziam essa interpretação); depois de uma audiência de quarta-feira na Praça de São Pedro, segundo uma agência internacional, o Papa afirmou que o pensamento de São Paulo sobre as mulheres tinha uma “contradição” – o texto tinha excluído do discurso, deliberadamente, a palavra “aparentemente”, e não mencionava que a seguir o Papa resolvia a “aparente contradição”. O jornal espanhol El País, por algum tempo, bateu o pé tentando provar que Bento XVI e João Paulo II ensinavam coisas diferentes sobre o inferno.
A falta de jornalistas especializados em religião nas redações provoca um fenômeno curioso: quando chega, pelas agências, qualquer afirmação que destoe do discurso da Igreja sobre um assunto, os editores e repórteres não percebem a situação inusitada e não buscam confirmar a informação – coisa que fariam se, por exemplo, recebessem informação de um político fazendo declarações totalmente incompatíveis com a corrente a que pertencem. Pode-se dizer que as redações ficaram mal-acostumadas, aceitando pacificamente qualquer disparate em matéria religiosa transmitido por uma agência internacional.
Assim, não surpreende que comecem a sair livros como a coletânea Blind Spot: When Journalists Don't Get Religion (“Ponto cego – quando os jornalistas não entendem a religião”). Em um artigo na agência católica Zenit a respeito do livro, o padre John Flynn expõe a dificuldade que a imprensa secular tem para cobrir assuntos religiosos – dificuldade essa criada pela própria imprensa, quando não estimula seus jornalistas a entender melhor o que diz cada religião, ou pelo menos as mais importantes. Nos Estados Unidos, há uma associação de jornalistas especializados em religião, que fornece subsídios para quem está se iniciando no assunto. No Brasil, deve ser possível contar nos dedos os jornalistas da grande imprensa que realmente conheçam o
assunto – mas faltarão dedos para contar as vezes
em que o Papa quer salvar os gays antes de salvar as florestas.
Links
Discurso original do Papa em italiano:
http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/speeches/2008/
december/documents/hf_ben-xvi_spe_20081222_curia-romana_it.html -- o discurso agora também está disponível em inglês, espanhol e francês, mas esses são acréscimos recentes.
Artigo do padre John Flynn na Zenit:
http://www.zenit.org/article-20515?l=portuguese
Associação de repórteres americanos sobre religião:
www.rna.org
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