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Evaristo E. de Miranda, doutor
em ecologia, dirige
a EMBRAP
A Monitoramento Ambiental
por Satélite, Campinas/SP. Autor do livro “Guia
de curiosidade
s católicas”, diretor do Instituto Ciência e Fé.



ANO 10 - ED 112 - JANEIRO DE 2009

PRESERVAÇÃO DA MATA ATLÂNTICA

Evaristo Eduardo De Miranda / Fotos de Fabio Colombini

Agrônomo e doutor em ecologia, Evaristo E. de Miranda é chefe-geral da Embrapa Monitoramento por Satélite, que tem por missão
a gestão territorial do agronegócio. A divisão da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária atua em todo o Brasil para ajudar, com o auxílio de tecnologias, na produção de territórios sustentáveis.
É autor do livro "A natureza brasileira em detalhe" e do recém-lançado "Quando o Amazonas corria para o Pacífico".

Você talvez se surpreenda com algumas das opiniões e análises desenvolvidas pelo ecólogo e historiador da natureza Evaristo Eduardo de Miranda neste artigo, transcrito da entrevista que concedeu à National Geographic. Evaristo, que também é diretor do Instituto Ciência e Fé, se apóia na ciência para explicar o passado de um éden.

Nas páginas seguintes, o leitor poderá conhecer com detalhes o fascinante enredo da formação das florestas úmidas do hemisfério sul caso da nossa Mata Atlântica. Paisagem original do Brasil no relato dos viajantes do século 16, essa Mata ou o que restou dela é familiar à maioria da população
de um país cujo ônus da ocupação foi o fim da floresta.

Evaristo não é pessoa de meias palavras: defende suas ideias
com sólidos argumentos técnicos, herdados da longa vivência
como pesquisador da Embrapa.

No editorial da revista National Geographic de janeiro de 2009, o editor Ronaldo Ribeiro destaca que nenhum artigo da publicação repercutiu tanto entre os leitores como a entrevista "A agricultura é a salvação" com o ecólogo Evaristo de Miranda, publicada no mês de setembro. Evaristo ambém
foi o autor da reportagem “A invenção do Brasil”, a célebre capa da banana (maio de 2007), sobre a história pré-cabraliana do país, que rendeu
o Prêmio Abril de Jornalismo na área de ciência no ano passado.


A formação da Mata Atlântica


A gente se pergunta por que existe uma floresta Atlântica acompanhando o litoral do Brasil, porque do lado do litoral africano são desertos... não existe nenhuma floresta do outro lado do Atlântico. E a razão da existência da mata Atlântica é uma razão astronômica. O eixo da terra é inclinado e devido a essa inclinação nós temos estações, existe um movimento de rotação e isso tudo provoca um caminhar das águas dos oceanos. As águas saem frias lá da Antártica, sobem frias ao longo da África; por isso não há chuva, não há nuvens, há desertos; vão até o equador e descem aquecidas ao longo da costa brasileira, com evaporação. E é essa formação de nuvens, esse berçário de nuvens, que é a corrente do Brasil, que vai alimentar essas chuvas muitos frequentes, muito abundantes na nossa fachada Atlântica, e viabilizar a existência dessa mata.

Uso sustentável da floresta

Uma das formas mais eficazes de conservar uma vegetação ou uma floresta, é usá-la de forma sustentável. Os seringueiros defendem as reservas extrativistas porque eles podem explorar, eles tiram o látex da seringueira e até desmatam pequenas áreas para criar gado e etc., mas eles usam aquela floresta, então eles defendem aquela floresta.
Evidentemente nós precisamos de unidades de conservação, de parques, etc.; mas nós não temos hoje uma boa política florestal no Brasil. Nós devíamos inspirar-nos, praticamente, em Dom Manoel. Dom Manoel logo fez concessões, esses contratos tinham regras, o estatuto do pau-brasil.
O regimento do pau-brasil realmente foi o que permitiu a manutenção da mata Atlântica, ao contrário do que as pessoas imaginam, não foi o pau-brasil que causou o desmatamento da mata Atlântica; a exploração do pau-brasil garantiu a manutenção da mata, porque era proibido fazer roça, e aquilo era couto real, pertencia à coroa. Ao mesmo tempo, também nós temos que ter o entendimento de usar as terras conforme o seu potencial, e quando você usa errado tem que reconstituir as terras; foi o que Dom Pedro II fez ao mandar plantar a floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro, que é hoje uma mata belíssima, onde a gente leva chefes de estado para conhece; é um parque plantado pelo Imperador. Eu não conheço nenhum presidente que tenha plantado 10 hectares, 1 hectare, muito menos uma mata como aquela. Mas, naquela época, houve a preocupação da coroa de recuperar o ambiente, com essa floresta magnífica que nós temos hoje. Eu acho que a gestão florestal implica isso: preservar áreas, com unidades de conservação; restaurar áreas que foram degradadas e permitir a exploração das florestas. Acho que o Ministério do Meio Ambiente está avançando nesse sentido com as concessões de exploração em florestas nacionais. Mas nós estamos muito no começo e isso precisa avançar bastante. Esta seria uma das maneiras de preservar as matas na Amazônia.

Políticas de preservação

Hoje, no caso da floresta Atlântica, eu acho que nós devemos dar prioridade para preservar as áreas remanescentes fora de parque. O que já está em parques está protegido: parques nacionais, estaduais (como o Parque da Serra do Mar, no caso do Estado de São Paulo)... Precisa haver plano de manejo, precisa cuidar bem dos parques, enfim, isso é um problema de gestão; não é um problema da mata. Mas existem ainda muitas áreas remanescentes e elas podem ser legalmente desmatadas. Então a gente deveria ter uma política ambiental, até para que as pessoas pudessem compensar o uso de APP (Área de Preservação Permanente) ou o uso de reserva legal, preservando essas áreas remanescentes. Ainda existem muitas áreas remanescentes de mata Atlântica úmida, na região de Apiaí, São Paulo. enfim na borda mesmo do planalto, indo pro litoral. Acho que a prioridade seria preservar essas áreas remanescentes.

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PRESERVAÇÃO DA MATA ATLÂNTICA
PARTE 2

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