
Evaristo
E. de Miranda, doutor
em ecologia, dirige
a EMBRAPA Monitoramento
Ambiental
por Satélite, Campinas/SP. Autor do livro “Guia
de curiosidades católicas”,
diretor do Instituto Ciência e Fé.
mir@cnpm.embrapa.br
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ANO 10 - ED 113 - FEVEREIRO DE 2009
PRESERVAÇÃO DA MATA ATLÂNTICA
Evaristo Eduardo De Miranda / Fotos de Fabio Colombini
Para preservar é preciso conhecer. Nesta edição,
apresentamos a conclusão do artigo em que Evaristo Eduardo de Miranda, doutor em ecologia, diretor do Instituto Ciência e Fé,
nos apresenta a história da Mata Atlântica,
da sua formação aos dias de hoje. As imagens são de Fábio Colombini, fotógrafo apaixonado pela natureza. Originalmente este material foi publicado pela revista National Geographic.
O texto integral pode ser lido em nosso site: www.cienciaefe.org.br
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No século 20, a ocupação urbana e o avanço de áreas
para agricultura e pecuária desenvolveram a economia brasileira, mas foram uma sentença de morte contra a floresta.
Na região portuária de Santos e Cubatão, no litoral paulista,
a mancha das cidades se choca com manguezais. A criação
de reservas isolou dessa ameaça trechos valiosos da Mata Atlântica.
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Do século 17 ao 19, o desmatamento limitou-se a alguns pontos da faixa costeira. Para evitar danos no Rio de Janeiro, uma área populosa, dom João VI criou, em junho de 1808, uma pioneira unidade de conservação, o Real Horto Botânico, com mais de 2,5 mil hectares, área que se manteve até o fim do século 19 - todo um bairro da capital fluminense nasceu sobre a reserva, hoje reduzida a 137 hectares. Mais: uma ordem de dom João, de abril de 1809, dava liberdade aos escravos que denunciassem contrabandistas de pau-brasil. Um decreto de 3 de agosto de 1817 proibiu o corte de árvores nas áreas das nascentes do rio Carioca. Por essas e outras, em 1830 o total de áreas desmatadas no Brasil em mais de três séculos era inferior a 30 mil quilômetros quadrados - hoje, corta-se mais que isso na Amazônia a cada três anos. Não bastasse, em 1844 o ministro Almeida Torrres propôs uma série de desapropriações e plantios de árvores para salvar os mananciais do Rio de Janeiro. Em 1861, dom Pedro II promoveu a criação, em áreas desmatadas para o café, das florestas da Tijuca e das Paineiras, na área onde encontra-se hoje o Cristo Redentor, no atual Parque Nacional da Tijuca.
O desmatamento da Mata Atlântica, na verdade, é fenômeno do século 20. Entre 1985 e 1995, a floresta perdeu mais de 1 milhão de hectares, mais que toda a área desmatada no período da coroa portuguesa. De São Paulo a Santa Catarina, a marcha para o oeste trouxe grandes desmatamentos. É difícil imaginar que, em 1950, o Paraná ainda detivesse grandes extensões de mata preservada. As centenárias araucárias, um símbolo do estado, foram entregues pelos governos republicanos aos construtores de ferrovias anglo-americanos, junto com as terras adjacentes (de 15 a 30 quilômetros de cada lado). A cidade de Londrina lembra em seu nome essa entrega aos ingleses. Caboclos foram expulsos com violência; suas terras, loteadas e vendidas a estrangeiros. Isso deu origem a um dos episódios mais sangrentos dos governos militares da república, a Guerra do Contestado, ou dos Pelados, entre 1912 e 1916.

O pensamento e a crítica ambiental brasileira de hoje resultam de uma continuidade histórica de séculos, uma tradição intelectual única. A política florestal da coroa portuguesa e do império no Brasil logrou, por diversos e invejáveis mecanismos, manter a Mata Atlântica até o fim do século 19 com poucos locais alterados.
São muitas as formas de relevo na geografia da floresta: morros em meia-laranja do Nordeste, pães de açúcar do Espírito Santo ao Rio de Janeiro, encostas rochosas, falésias, costões e escarpas entre São Paulo e Rio Grande do Sul. Tal relevo contrasta com planícies costeiras estreitas e parece prolongar-se mar adentro em arquipélagos próximos à costa, de Santa Catarina ao Espírito Santo. As ilhas oceânicas, formadas pela elevação do nível do mar, abrigam diversos endemismos, com suas jararacas e aranhas especialíssimas.
Mas as ilhas da Mata Atlântica não estão apenas no mar. Elas também ocorrem em terra firme. As encostas e os cumes das serras Geral, da Bocaina e da Mantiqueira são ambientes diferenciados do entorno e estão cheios de fauna e flora exclusivas, típicas de matas de neblina e campos de altitude. Algumas bromélias são vistas apenas numa das faces do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro. Alguns anfíbios, por sua vez, vivem exclusivamente em certas espécies de bromélia.
Durante as glaciações e mudanças climáticas, as espécies adaptaram-se, deslocaram-se e participaram de verdadeiras migrações para o norte ou para o sul, quando o clima esfriava ou esquentava. Viveram as chamadas marés terrestres ou ecológicas, subindo e descendo encostas, explorando compensações entre latitude e altitude. E também extinguindo-se localmente. A araucária, por exemplo, distribui-se por mais de 1,2 mil quilômetros. No sul, surge em terras baixas, mas progride rumo ao norte, ganhando altitude, até deixar de ocorrer na altura de Minas Gerais. Todavia, no passado, sob outro clima, a araucária existiu em toda a região Nordeste, como atestam numerosos fósseis.
A disposição longitudinal da Mata Atlântica, suas variações de altitude e as mudanças climáticas contribuíram para o surgimento e a manutenção de novas espécies, de forma mais vigorosa que na Amazônia. Nela já foram registradas cerca de 261 espécies de mamíferos (73 endêmicos), 340 de anfíbios (253 endêmicos), 192 de répteis (60 endêmicos), 1 020 de aves (188 endêmicas), além de cerca de 20 mil plantas, das quais metade seria exclusiva. Essa diversidade de espécies e sua repartição são também resultado de fragmentações espaciais, em altitude e latitude, que marcaram a história dessa paisagem tropical. O desmatamento no século 20 provocou nova e rápida fragmentação. Um processo análogo na Amazônia teria consequências bem negativas - a Mata Atlântica é mais apta a enfrentar essa situação que outros biomas do Brasil.
É uma floresta que se recompõe rapidamente, com sua infinidade de vegetais adaptados à umidade. Orquídeas, musgos, líquens, samambaias e bromélias envolvem galhos e troncos, em árvores que cumprem sua obrigação cotidiana de luta pela luz, disputando espaços horizontais e verticais nas terras de relevo acidentado. Contudo, a água pesa. E muito. Neblinas, chuvas e orvalhos mantêm troncos e galhos úmidos. O peso dessa esponja verde é enorme. Basta um apodrecimento ou umas gramíneas a mais, e os galhos se rompem e caem. Surge nova clareira para a luz acariciar o chão enquanto insetos, fungos e bactérias atacam os restos apodrecidos.
Toneladas de água caem por metro quadrado em toda a Mata Atlântica. Chove com maior regularidade que na Amazônia. Um dos lugares mais chuvosos do Brasil fica no Paraná, nos arredores do pico do Marumbi, região da serra da Graciosa: cerca de 5 metros de chuva por ano (5 mil milímetros), o dobro das médias da Amazônia. Ubatuba, em São Paulo, recebe mais chuva que a maioria das localidades amazônicas. Quais as consequências desse peso hídrico, desses milhões de toneladas de água precipitada sobre as serras, escoando pelas encostas e descendo pelos rios? O trajeto da maioria dos rios das bacias atlânticas é bastante curto. A erosão deveria ser alta. Contudo, as águas chegam ao sopé das serras quase sem sedimentos, cristalinas.

Para dissipar a energia cinética da água, a Mata Atlântica recorre a muitas sutilezas. Parte das gotas de chuva são capturadas por teias de aranha, nas pinças e curvas das folhas de samambaia, nas taças de líquem e cogumelo e nos copos de bromélia. Os galhos, paralelos ao solo e perpendiculares às chuvas, retêm muita água num labirinto de cascas, musgos, líquens, samambaias, bromélias, orquídeas e outras epífitas. As gotas de chuva estão proibidas de cair em queda livre até o solo da Mata Atlântica. A floresta fechada absorve até 35% das chuvas.
Folhas brilhantes, recobertas de cera, interceptam, mas não retêm, as gotas de chuva. As águas celestes descem lentamente pelas folhas, pelos ramos e tronco até as realidades terrestres em que se dissipam em espessa serapilheira de folhas e galhos mortos. Com tudo encharcado, o excesso hídrico desce as encostas em direção ao mar original. Impossibilitados de cavar as rochas expostas, os rios tendem a serpentear e aumentar o seu percurso para dissipar sua energia cinética.
Nas regiões serranas do Paraná ao Espírito Santo, eles abrem um largo caminho sobre as rochas em sua jornada. Nas baixadas, o leito dos rios é ocupado por rochas e matacões, arredondados pela carícia incessante das águas.
Entre névoas e neblinas, uma caminhada pela Mata Atlântica densa mais parece um mergulho em águas etéreas. É como um retorno ao passado, a um tempo sem tempo, situado entre o gênese e o dilúvio. A serapilheira amortece os passos. Os sons são atenuados e absorvidos. As flechas de luz incidente são raras. O sub-bosque é marcado pela claridade difusa. Não existe direção privilegiada dos raios luminosos. Eles difundem-se em todos os sentidos e, por timidez, se escondem nas trevas.
Plantas e arbustos próximos do chão, para aumentar as chances de captar esses pequenos raios luminosos, apresentam folhas aveludadas ou com superfície arredondada, como se fossem múltiplas bolhas. Elas funcionam como armadilha de luz ou lupa: captam a luz difusa e a concentram num ponto interior das células, onde ficam as estruturas que fazem a fotossíntese.
As plantas são verdes por refletirem essa fração da luz solar. Elas não gostam do verde e o devolvem. No sub-bosque da Mata Atlântica, diante da escassez de luz, toda a gama de radiação luminosa é utilizada, incluindo o verde. Há plantas roxas, vermelho-escuras ou quase negras. Elas absorvem e utilizam o espectro luminoso. Algumas devoram a luz visível e brilham em tons metálicos, próximos do ultravioleta.
Em meio aos arbustos e sob os tons crepusculares, os morcegos começam a trabalhar cedo e recolhem-se tarde, observados por cogumelos vistosos e silenciosos. Trampolins de perereca e abrigo de seres encantados, alguns cogumelos são até fosforescentes. Para o caminhante contemplativo, o sub-bosque da Mata Atlântica, com sua luminosidade azulada, marinha e difusa, lembra um aquário. Tudo, nessa paisagem desenhada pelo mar, evoca a proximidade da corrente oceânica atlântica em sua quieta caminhada rumo ao sul, conectada ao movimento dos planetas e ao sussurro das estrelas.
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PRESERVAÇÃO DA MATA ATLÂNTICA
PARTE 1
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