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Leomar Marchesini, professora e psicóloga, foi diretora da Educação Especial do Paraná na Secretaria de Estado da Educação (gestão Prof. Elias Abraão). Atuou por diversos anos como docente na FAE Faculdade Católica de Administração e Economia (atual UNIFAE), foi presidente da Comissão de Síndrome de Down
da Associação dos Amigos do HC e continua na militância em defesa dos direitos das pessoas com deficiências, atualmente coordenando o atendimento educacional a alunos especiais na educação de nível superior.


ANO 10 - ED 113 - FEVEREIRO DE 2009

E O POVO SURDO, NA POSSE DE OBAMA?

Leomar Marchesini


Critica-se muito no Brasil, nos meios de trabalho com pessoas portadoras de deficiências, a falta da acessibilidade física, de informação e comunicação nos ambientes concretos e virtuais. É comum observar-se em cerimônias e festividades oficiais, o esquecimento da presença das pessoas surdas. Para os “cadeirantes” e cidadãos com mobilidade reduzida, verifica-se o início de uma tomada de cuidados, mesmo porque fica bem mais evidente e constrangedor para os organizadores do evento, o impedimento de acesso físico, devido a escadas e a outras barreiras arquitetônicas no local.

Assistimos pelas redes de televisão a cabo, a cerimônia de posse do presidente eleito dos Estados Unidos da América, Barack Obama, transmissão sem dúvida acompanhada em todo o planeta, cercada de interesse pelo primeiro homem negro a ser eleito presidente dos Estados Unidos. A cerimônia histórica, realizada na capital americana, pode ser assistida através de transmissões ao vivo dos canais de TV a cabo, no Brasil com áudio em inglês, espanhol e português. Mas, tristemente testemunhamos nesta feita, que também no primeiro mundo o povo surdo é esquecido. Não foi promovida a acessibilidade de informação às pessoas surdas, mediante intérpretes de Línguas de Sinais, as quais não puderam acompanhar o discurso de Obama, tampouco a narração dos atos que transcorriam.

Também para os tantos e ignorados surdos americanos, invisíveis (para o mundo “ouvinte”) defronte ao Capitólio, no frio de 6 graus negativos, o protocolo americano não ofereceu nenhum recurso que lhes permitisse compreender as palavras proferidas na cerimônia de posse. Não houve intérprete de Língua de Sinais para pessoas surdas, nem presencialmente (na cerimônia), nem no telão (no local da cerimônia), nem nos canais de televisão e televisão a cabo. No Brasil também não, nos canais televisivos, embora tenhamos leis de primeiro mundo que tratam do tema, em defesa dos direitos do povo surdo.

Daí conclui-se que, pecar pela inacessibilidade das pessoas surdas, não é privilégio do Brasil e dos países “menos desenvolvidos”, uma vez que os Estados Unidos da América, exemplo de modernidade e desenvolvimento, incluindo a existência da única universidade de surdos no mundo, a Universidade Gallaudet, que fica na mesma Washington DC - na qual o próprio reitor é pessoa surda - também falha feio, quando a iniciativa de “acessibilizar”, terá que partir das camadas oficiais, de protocolo e cerimonial.

Mais uma vez, muitos surdos (só no Brasil há mais de 5 milhões), interessados num acontecimento relevante na sociedade mundial, padeceram sem entender o que era dito. Mais uma vez coube aos pais, cônjuges, namorados, amigos e conhecidos, a responsabilidade de interpretar para eles em Línguas de Sinais, isto quando o sabem fazê-lo, não obstante a sua boa vontade.

Sem conscientização e sem a disposição das pessoas “ouvintes”, não haverá lei que resolva esta questão.

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