
Evaristo
E. de Miranda, doutor
em ecologia, dirige
a EMBRAPA Monitoramento
Ambiental
por Satélite, Campinas/SP. Autor do livro “Guia
de curiosidades católicas”,
diretor do Instituto Ciência e Fé.
mir@cnpm.embrapa.br
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ANO 10 - ED 114 - MARÇO DE 2009
NO ENTARDECER DA VIDA
Evaristo Eduardo De Miranda
Hoje, muitos caminhos são oferecidos ao homem para a descoberta de Deus, sem passar pela pessoa de Jesus. No cristianismo, não é assim. Em Jesus, nós descobrimos Deus. Contudo, nossa representação espontânea de Deus é uma idéia grosseira, algo pagã, um pouco como aquela afirmada em parte do Credo: Deus é o todo poderoso. O que significa ser todo poderoso quando sabemos tudo o que acontece neste mundo, neste planeta?
Nas representações grosseiras de Deus, Ele é extrínseco, exterior, em concorrência com o homem. Para o cristão é necessário, se ele quer, graças a Jesus, entrar na Sua perspectiva, adotar uma concepção na qual o ato livre do humano já é um ato divino. Na vida espíritual, Deus não está em concorrência como homem, nem este com Deus, mas vive-se uma comunhão.
Essa comunhão faz com que Deus cresça no humano, na medida em que o homem torna-se ele mesmo. Esse é o significado da experiência espiritual e interior dos primeiros cristãos. Eles passaram de uma religião do templo a uma religião do homem. E ela continua válida nos dias de hoje. Não faça coisa alguma, nem diga palavra alguma que Cristo não faria ou não diria se encontrasse as mesmas circunstâncias, dizia S. João da Cruz. O culto é fatalmente a um Deus exterior. As duas tendências sempre habitaram a igreja mas a tendência exterior é muito mais visível e, portanto, muito mais comum, como afirma Marcel Légaut.
Quando o profeta Jeremias anunciou que a lei estava no interior do nosso coração, ele falava do nosso Deus. Ele evocava não somente uma lei interior, comum a todos, mas também pessoal. Cada um de nós tem uma comunhão com Deus que nos é pessoal, única e irrepetível. Cada um tem uma comunhão pessoal com Deus que os outros não podem ter. A cada um cabe descobrir a sua.
Nós somos os artesãos e o lugar de nossa vida espiritual. E essa realidade não passará quando todo o resto terminar. Quem vive na tendência exterior, distrai-se, fala de realidades exteriores. A pessoa com uma vida interior e espiritual suficiente, que efetivamente vive sua vida, descobre a cada dia sinais e começos de realidades que não passarão quando tudo passar.
Incontestavelmente, quando uma pessoa amadurece e envelhece dentro de uma vida de interioridade, o olhar que ela lança sobre o seu passado não é um simples olhar de historiador. Talvez, ela ainda não seja capaz de uma síntese, mistério escatológico. Mas emerge uma visão global, totalizante. Ela depende do estado espiritual em que a pessoa se encontra hoje, mas ultrapassa - e de muito - a simples sucessão no tempo dos acontecimentos, das realizações e de seus estados interiores.
Acabo de ler o livro "Entardecendo", escrito por Dom Benedito de Ulhoa Vieira, arcebispo emérito de Uberaba, hoje com 88 anos, amigo que visitei recentemente. É difícil traduzir em palavras a experiência de uma vida interior e espiritual. Místicos, como São João da Cruz, recorreram à arte, à poesia... "No entardecer de nossa vida, seremos julgados pelo amor."
(S. João da Cruz)
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