| |

ANO 10 - ED 114 - MARÇO DE 2009
NEM TODO MUNDO ENTENDEU A MENSAGEM
Por Cláudia Gabardo

Cientistas, teólogos e humanistas
examinam as razões porque um século e meio depois,
na contramão do que diz o evolucionismo,
pelo menos uma parte da humanidade não avançou
no entendimento sobre as idéias de Darwin
Mesmo depois dos 150 anos que separam a humanidade do anúncio da sua Teoria da Evolução, Charles Darwin continua sendo objeto de polêmica entre a comunidade científica e – mais ainda - entre os que conhecem apenas superficialmente as conclusões de suas exaustivas pesquisas. Prova disso é o tratamento - nem um pouco merecido pelo legado do cientista britânico - mas dispensado por algumas escolas de ensino regular em atividade aqui mesmo no Brasil, segundo reportagem de uma edição recente da Revista Veja. Para os educadores responsáveis por essas instituições de ensino, o que vale é o chamado pensamento criacionista – aquele retirado da leitura ao pé da letra das palavras da Bíblia e que informa terem sido Adão e Eva nossos mais remotos ancestrais.
A explicação para as interpretações dos que fazem uma leitura tranquila de Darwin e compatível com o pensamento religioso e, por outro lado, de quem não se sente confortável para assimilá-la - em parte ou no todo - pode estar num antigo e lamentável ruído de comunicação: uma grande confusão sobre as diferentes e específicas óticas com que os textos religiosos, a ciência e a filosofia tratam o que teria sido a origem da vida.
O nó da questão - A base de todo o mal-entendido, sustentam conhecedores da matéria, é a insistência em se misturar o imiscível: a Teoria Criacionista trazida pelos onze capítulos do livro bíblico do Gênesis, no campo da religião; as premissas científicas da Evolução lançadas ainda no século XIX; e o pensamento filosófico. “São abordagens diferentes, leituras completamente distintas sobre o mesmo tema e que não se opõem. São interpretações complementares e que apenas não são válidas – ou, antes, não fazem sentido – quando colocadas no mesmo patamar da discussão”, afirma o cientista, doutor em Biologia Celular e diretor de Pesquisa e Pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica do Paraná e do Instituto Ciência e Fé, Waldemiro Gremski, que frisa a face evolucionista contida na própria Bíblia.
| Waldemiro Gremski |
 |
“a função da Ciência não é tirar Deus do processo, mas oferecer
uma descrição de mundo que
vá ao encontro dele”
|
Segundo Gremski – para quem “a função da Ciência não é tirar Deus do processo, mas oferecer uma descrição de mundo que ao encontro dele” - a saga bíblica da criação divina de Adão e Eva e sua expulsão do Paraíso por desobediência ao Criador já traz a mensagem evolucionista.
Assim, a maçã (fonte de conhecimento), sedutoramente oferecida pela serpente (curiosidade criativa que leva às mudanças) e saboreada pelo casal (numa opção pelo novo, em detrimento da obediência ao que lhes fora determinado), seria o marco divisório. “Por meio de símbolos, é possível perceber as mudanças porque passaram Adão e Eva e que apresentam indícios daquilo que cientificamente, com outros argumentos baseados na experimentação e na observação, conhecemos pela Teoria de Darwin. Gostemos ou não, ela é produto de um exaustivo processo de elaboração científica que, para ser superada, necessitaria que encontrássemos razões novas e muito convincentes”, argumenta.
Impropriedades intoleráveis - Para o veterinário e professor titular da Universidade Federal do Paraná Antônio Felipe Paulino de Figueiredo Wouk, apenas duas coisas não podem ser toleradas em meio a essa polêmica antiga: a redução da ainda totalmente incompreendida origem da vida à explicação biológica, defendida pelos ateus, e as informações incorretas e ainda correntes sobre o tema – como as trabalhadas, por exemplo, no dia-a-dia de algumas instituições de ensino ou alardeadas por religiosos praticantes nada preocupados em se aprofundar na matéria.
| Antônio Wouk |
 |
“apenas duas coisas não podem ser toleradas em meio
a essa polêmica antiga:
a redução da ainda totalmente incompreendida origem da vida à explicação biológica,
e as informações incorretas
e ainda correntes sobre o tema”
|
Wouk se situa entre os que têm a vertente científica como um dos elementos para entender a vida, sua origem e seu futuro. No entanto, assim como Gremski, não pode entender o mundo como ele é hoje apenas como mera obra do acaso. Segundo ele, a razão para isso é simples: a dimensão biológica ainda não conseguiu ultrapassar a barreira do Big Bang, que teria sido a origem do universo.
“Nenhum dos extremos é adequado porque nenhuma dessas importantes áreas de referência para o homem explica, na totalidade, o surgimento do universo e da vida tal qual a conhecemos”, resume o médico oncologista, professor de Bioética no curso de Medicina da Universidade Positivo e vice-presidente do Instituto Ciência e Fé, Cícero de Andrade Urban. Segundo ele, quem nega a Teoria da Evolução - como se fosse necessário fazer uma escolha entre ela e o pensamento religioso - não parou para pensar nas evidências cotidianas da provocação feita por Darwin há um século e meio, quando do lançamento do ainda surpreendente livro A Origem das Espécies.
| Cícero Urban |
 |
“Nenhum dos extremos
é adequado porque nenhuma dessas importantes áreas
de referência para o homem explica, na totalidade,
o surgimento do universo e
da vida tal qual a conhecemos”
|
A rotina de um médico ao tratar a infecção bacteriana de um paciente, por exemplo, expõe uma faceta da Evolução. O tratamento nada mais é, explica Urban, do que o uso adequado do antibiótico capaz eliminar a totalidade dos microorganismos. O fato – indesejado mas possível - de o medicamento não ser eficiente, demonstra a existência de bactérias que passaram por um processo de mutação genética, ou seja, um tipo específico de evolução. Os agentes infecciosos tornaram-se resistentes ao remédio e, para sucesso da terapêutica, exigem o emprego de outras drogas mais potentes.
De quem é a culpa - Apesar de não poder se determinar a circunstância em que se instalou a oposição entre Criacionismo e Evolucionismo, o fato é que as religiões não assumem a responsabilidade sobre ela. Isso vale, por exemplo, para a Igreja Católica ou para as protestantes de denominação Presbiteriana.
Visto como defensor do Criacionismo e detrator do Darwinismo por uma parcela da opinião pública, O Vaticano trata de mudar essa imagem. Para isso, sob a coordenação do presidente do Conselho Pontifício para a Cultura, Gianfranco Ravasi, tratou de convocar um colóquio de cientistas e teólogos para fazer uma abordagem crítica de A Origem das Espécies e discutir a chamada Teoria do Designio Inteligente – um esforço para mapear as manifestação divina na Teoria da Evolução.
De acordo com o pastor presbiteriano, professor de Bioética da Faculdade Evangélica do Paraná e diretor do Instituto Ciência e Fé, Jean Seletti, ao invés de um posicionamento oficial sobre o Criacionismo, o que existe em comum entre as igrejas sob essa denominação é unicamente a rejeição da tese materialista de que todo o universo tenha se originado por acaso. “Quem deu causa à polêmica foram alguns representantes de algumas instituições religiosas, num certo momento e isoladamente, ao emitirem opiniões particulares favoráveis ao Criacionismo e contrários ao Evolucionismo - mas que, de modo algum, refletem o pensamento orgânico daquelas instituições”, resume.
| Jean Seletti |
 |
“Quem deu causa
à polêmica foram membros
de algumas instituições religiosas que,
num certo momento
e isoladamente, emitiram opiniões particulares favoráveis ao Criacionismo e contrários
ao Evolucionismo - mas que,
de modo algum, refletem
o pensamento orgânico daquelas instituições”
|
Por que, então, o resultado das exaustivas pesquisas feitas por Darwin e aprofundadas pelos cientistas que o seguiram permanecem inacessíveis à média da população? Para Antônio Wouk, o debate superficial ou inexistente nos bancos escolares ajuda a entender esse quadro.
Resumindo o pensamento de Wouk, vale dizer que uma quantidade grande de educadores não conseguiu apreender o essencial da matéria e, por isso, não reúne condições para transmiti-la em sala de aula e entusiasmar os alunos. “Um debate produtivo requer um mínimo de formação de base filosófica. E isso não é possível com professores que deveriam estar nos bancos escolares de um lado e alunos autocentrados e que lêem pouco do outro”, lamenta.
Teoria e prática - E o prejuízo advindo dessa lacuna na formação acadêmica ou fragmentação do pensamento, alerta Waldemiro Gremski, vai muito além da mera falta de erudição das gerações formadas por escolas e até universidades. O grande malefício, pondera, é a deformação no processo de avaliação crítica. “Corre-se o sério risco de entender o mundo como uma sucessão de fatos mágicos e de ter o agir – que é a base do exercício da cidadania – fatalmente comprometido”, diz.
Outra explicação para a manutenção da polêmica – e que pode até crescer no Brasil com o desenvolvimento de instituições de ensino que fazem uma leitura fundamentalista do que diz a Bíblia – seria a disposição existente entre segmentos religiosos específicos de opinar sobre o enfoque do debate que pertence à ciência. É o que tame a professora sênior do Departamento de Genética da Universidade Federal do Paraná e diretor do Instituto Ciência e Fé, Eleidi Freire-Maia. “Isso é limitar o conhecimento e, em se tratando de tolher o senso crítico dos jovens, é um crime”, afirma.
| Eleidi Freire-Maia |
 |
“Corre-se o sério risco de entender o mundo como uma sucessão de fatos mágicos
e de ter o agir – que é a base do exercício da cidadania – fatalmente comprometido”
|
< retorna ao
sumário
|

|