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Wilson Martins, professor, crítico literário dos jornais O Globo e Gazeta do Povo, bacharel em Direto e Doutor em Letras pela UFPR, autor de História da Inteligência Brasileira e A Palavra Escrita, entre outros


ANO 10 - ED 115 - ABRIL DE 2009

EXPERIÊNCIA TRANSCULTURAL DO PARANÁ

Wilson Martins

Crítico literário por excelência, Wilson Martins publica, semanalmente, coluna nos jornais O Globo e Gazeta do Povo. É autor de obras monumentais, como a História da Inteligência Brasileira; durante 28 anos foi professor titular de Literatura Brasileira na New York University, de 65 a 91; recebeu o Prêmio José Ermírio de Morais, da Academia Brasileira de Letras, em 1997. Wilson está escrevendo uma série denominada Paraná Vivo – publicada pela Gazeta do Povo – onde analisa o Paraná a partir dos autores Temístocles Linhares, Wilhelm Fugmann e Aroldo Murá G. Haygert (Vozes do Paraná: Retratos de Paranaenses. Curitiba: Travessa dos Editores, 2008). Aroldo, “jornalista paradigmático e mestre de jornalistas, homem de sólida formação moral, é também um mestre do retrato”, define Wilson. “Além da pessoa visível, material e histórica dos seus personagens, a figura íntima e, por assim dizer, secreta, das personalidades”, conclui.

PARANÁ VIVO (I)
Retrato no Centenário da Província

Em 1953, centenário de criação da província do Paraná, Temístocles Linhares (1905-1993) iniciava o clássico Paraná Vivo com as seguintes palavras: "Vem realizando o Paraná nestes últimos anos uma vasta experiência social e econômica sem similitude com a de outro qualquer estado brasileiro. Como compreender essa experiência? Para que caminhos ela leva? Aberta a todas as influências, terá ela forças para manter os padrões da chamada cultura luso-brasileira que se procura entre nós defender a todo transe?

Responder a tais questões é quase definir o Paraná, é penetrar sociologicamente em seu sentido, no sentido de seu estilo de vida regional" (Paraná Vivo: um Retrato sem Retoques. 3ª ed. Curitiba: Imprensa Oficial, 2000).

De fato, o Brasil vinha sendo tradicionalmente definido pelo "triângulo racial" que se tornara e continua sendo um lugar-comum da historiografia, lugar-comum que, como todos os outros, contém apenas uma parte de verdade, a outra parte sendo constituída pelo polígono característico do Brasil meridional. Trata-se de polígono, se quisermos conservar as imagens geométricas, mas, no caso, seria preciso contrapô-las ao espírito de finura, mais consentâneo com a análise dos fenômenos transculturativos, cada vez mais complexos, que vinham ocorrendo desde os inícios do século 19.

Com a seriedade intelectual que a matéria requer, o assunto foi estudado pelo pastor Wilhelm Fugmann (1882-1954), agora finalmente traduzido por Francisco Lothar Paulo Lange (Os Alemães no Paraná. Ponta Grossa, PR: UEPG, 2008). A imigração alemã, provavelmente a mais influente, se não a mais numerosa, é uma das faces mais dinâmicas do Paraná vivo, tal como o encontrou Temístocles Linhares em nosso século, bastando mencionar o fato de haver iniciado e desenvolvido a industrialização e a educação, assim instituindo, à diferença das demais, a consolidação de uma civilização urbana. O imigrante alemão ouvia, sem dúvida, o "chamado da terra", mas era a do lote urbano, emoldurado por casas e atividades familiares, ruas, armazéns, depósitos, igrejas, sociedades, gente, atividades esportivas e agremiações musicais. O certo é que o imigrante alemão não só se adaptou perfeitamente ao meio - e o meio ao alemão - mas, ainda, prosperou de forma a atingir um nível de vida superior ao que provavelmente atingiria em sua terra natal.

Em plano diferente, e como fato significativo, cabe lembrar que o teatro de língua alemã não foi abandonado no Paraná, ao contrário, mas a integração efetiva só se comprovou com a tradução das peças em português. Tanto nos teatros quanto em concertos, bailes, festas e restaurantes a integração se manifestava com a aceitação de novos elementos culturais, já que a frequência incluía número cada vez maior de nacionais, no que não devemos ignorar a força assimilativa representada, nos dois sentidos, pelos filhos (brasileiros e estrangeiros).

Outro "pequeno fato significativo": enquanto Nicolau Miller combatia no Paraguai, sua mãe falecia em Curitiba, o que o jornal 19 de Dezembro noticiava da seguinte maneira: Miguel Miller, José Mathias Miller [...] Felipe Pletz", e mais uma série de nomes resultantes de incontáveis casamentos interétnicos.

As leis imigratórias proibiam a existência de escravos nas colônias. A pequena escravatura então existente era de natureza urbana: empregadas domésticas, cozinheiras, artesãos, de forma que o Paraná, desconhecendo o sistema casa grande-senzala, desenvolveu o seu parque industrial. Em plano cotidiano, é compreensível que comerciantes e seus empregados pareciam responder às necessidades de intercomunicação. É preciso lembrar que pessoas de cultura alemã conviviam com italianos, poloneses, ucranianos e russos, além de outros menos numerosos, cada grupo respondendo aos mesmos impulsos de atração e repulsão que os governam.

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PARANÁ VIVO (II)
VOZES DO PARANÁ DE HOJE

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