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Marcio Antonio Campos é jornalista, editor da Gazeta do Povo, e mantém o blog Tubo de Ensaio, sobre ciência e religião
marcioc@gazetadopovo.com.br


ANO 10 - ED 116 - MAIO DE 2009

ANJOS E DEMÔNIOS INVENTA GUERRA ENTRE CIÊNCIA E RELIGIÃO

Marco Antonio Campos


Foto: divulgação Sony Pictures

Ainda no início de Anjos e Demônios, o simbologista Robert Langdon (interpretado por Tom Hanks) descreve um evento conhecido como La Purga, em que a Igreja teria caçado e marcado com ferro quente quatro cientistas "cujas descobertas contrariavam as doutrinas do Vaticano". Diante da surpresa de alguns membros da Guarda Suíça, Langdon pergunta, com ar de superioridade: "vocês não leem sua própria história?" A cena é emblemática porque demonstra como os panfletos anticatólicos de Dan Brown fazem sucesso: em cima da ignorância dos católicos, que em sua maioria realmente não conhecem sua história e se tornam presa fácil de quem tenta apresentar ficção como se fosse realidade. Afinal, La Purga nunca existiu, mas quantos católicos sairão dos cinemas achando que a Igreja realmente perseguiu cientistas dessa maneira?

A idéia central de Anjos e Demônios é a oposição entre Igreja e ciência. Robert Langdon tem na ponta da língua o discurso de que a Igreja Católica perseguiu cientistas, especialmente nos séculos XVI e XVII, tentando fazer valer seus dogmas contra descobertas científicas que supostamente abalariam os alicerces da fé católica. Esse discurso está até mesmo na boca dos personagens pertencentes ao clero, especialmente o camerlengo Patrick McKenna (Ewan McGregor). Como lembra o blogueiro católico Jorge Ferraz ¹ , que também assistiu ao filme, se até as pessoas da Igreja confirmam esse discurso, como o espectador católico, que não conhece a verdade, pode duvidar?

O maior perigo de Anjos e Demônios, afirma Ferraz, é a sutileza. Seu anticatolicismo não é escancarado como o de O Código Da Vinci, em que os personagens da Igreja eram todos vilões. Mas a intenção é a mesma: empurrar ao público fatos inventados como se fossem reais. Muitos alegam que se trata apenas de ficção, e que o filme não deveria ser levado a sério. Mas o próprio Dan Brown, autor do livro, em entrevista no seu site ² , afirma o seguinte: "Sim, parte da informação factual revelada é surpreendente, mas eu acho que a maioria das pessoas compreende que uma organização tão longeva e poderosa como o Vaticano não poderia ter chegado a esse ponto sem guardar alguns esqueletos no armário. Eu acho que a razão pela qual Anjos e Demônios está criando polêmica agora é que o livro abre alguns desses armários, que a maioria das pessoas nem sabia que existiam." A declaração não deixa dúvidas quanto às intenções do autor.

Não há outro meio de contra-atacar eficazmente as calúnias de Anjos e Demônios a não ser divulgar a verdadeira história da relação entre Igreja e ciência. Em português, uma das obras mais interessantes é Como a Igreja Católica construiu a civilização ocidental, de Thomas Woods Jr. (editora Quadrante), que tem um capítulo amplo e esclarecedor sobre a Igreja e a ciência. O trabalho de outros historiadores e teólogos, como Rodney Stark e o recentemente falecido Stanley Jaki, revela que foi justamente o cristianismo o responsável pelo florescimento da ciência na Europa medieval. Com informação, será possível ouvir a pergunta arrogante de Langdon e responder "sim, nós lemos a nossa própria história, o suficiente para saber quando querem nos empurrar uma invenção como se fosse verdade".

NOTAS:
1 http://www.deuslovult.org/2009/05/16/anjos-e-demonios/#comments
2 http://www.danbrown.com/novels/angels_demons/interview.html

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