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Vitor Caruso Jr.
Era executivo, torna-se professor de meditação e yoga, tem formação em Psicologia, PUC-PR; membro da Ordem do Inter-Ser, ordenado pelo mestre Zen Thich Nhat Hanh, dirige a Sangha Paz a Cada Passo; criador da Associação Ciência Meditativa de Cultura de Paz e Ação Social; autor de Com Qualquer Um de Nós, obra que relata sua luta na superação de um câncer; O Lama e o Economista, diálogos com o Lama Padma Samten; Ensinamentos de um sábio, lições do Prof. Hermógens; Zen Yoga, encontros com a Monja Coen e Mestres da Cultura da Paz.
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cienciameditativa.com


ANO 10 - ED 119 - AGOSTO DE 2009

THICH NHAT HANH

Vitor Caruso


Momento contemplativo com Thich Nhat Hanh

Pessoalmente tenho especial apreço ao exemplo, à vida e à mística de São Francisco de Assis, e também de Santa Clara. Sua visão mística que percebe a relação teológica vertical, com Deus, expressa na ação e teologia horizontal, com os irmãos, com o próximo, o colocam na posição de grande reformador da Igreja Católica, “il poverello de Assisi”.

Que outra personalidade “exemplo” mais atual que São Francisco gostaria de ter contato? Penso em Gandhi. Muitos os colocam, Francisco e Mahatma, como as pessoas que mais aproximaram suas vidas aos ensinamentos de Jesus Cristo, que da simplicidade e da pobreza, fizeram elevar a fé de muitos.

Seguindo estes exemplos, aprendendo e estudando a vida destes grandes personagens que dedicaram sua vida ao desenvolver da fé e do minimizar do sofrimento dos mais oprimidos, surge quase que linearmente, outro nome: Martin Luther King Jr.

Esse pastor protestante, assassinado em 4 de abril de 1968, o mais jovem ganhador do Nobel da Paz (1964), dizia que Jesus havia lhe dado a orientação, mas que foi Gandhi quem lhe ensinou o método. Existe uma direta relação do esforço e do trabalho pelo direito dos negros de Luther King, com a existência de um Barack Obama na presidência dos EUA nos dias de hoje.

Em sua carta para o Instituto Nobel, em 25 de janeiro de 1967, Luther King diz: “Conheço Thich Nhat Hanh, e tenho o privilégio de chamá-lo de meu amigo. Deixem-me compartilhar com vocês algumas coisas que eu sei sobre ele. Vocês vão encontrar neste único ser humano uma incrível gama de habilidades e interesses. Ele é um homem santo, pois ele é humilde e devoto...Thich Nhat Hanh oferece uma maneira de sair deste pesadelo, uma solução aceitável para líderes racionais. Ele tem viajado o mundo, aconselhando estadistas, líderes religiosos, eruditos e escritores, que recorrem a seu apoio. Suas ideias para a paz, se aplicadas, poderiam construir um monumento ao ecumenismo, à fraternidade mundial, para toda a humanidade.”

Isto já seria suficiente para nos interessarmos por este monge vietnamita, mas infelizmente não o foi para mim, mesmo recebendo a mesma indicação de Thomas Merton, monge trapista, um dos mais reconhecidos e populares autores do catolicismo cristão, que elogia de maneira maravilhosa Thich Nhat Hanh em seu livro “Místicos e Mestres Zen”, mas chama ainda mais atenção na sua declaração de Junho de 1966, entitulada “Nhat Hanh é meu irmão”, onde é colocado de forma expressiva: “Faça o que você puder por ele. Se eu significo algo para você, então deixe-me colocar desta maneira: faça por ele o que você faria por mim se eu estivesse na posição dele. De certa forma, eu gostaria de estar.”

Mas muitas vezes, nem as mais claras indicações nos colocam em movimento, mas ao encontrar e estudar com Sua Santidade o Dalai Lama, ficou clara a necessidade de aproximar-me deste ícone espiritual da humanidade. O Dalai Lama afirma: “Ele pode transformar a vida das pessoas e a vida da nossa sociedade.”

Após estudar por quatro anos consecutivos com o Dalai Lama, decidi seguir seu conselho, ou melhor, o conselho de todos aqueles que já me apontavam este caminho.


Perguntas e Respostas
Vitor realizando sua pergunta para Thay

Primeiro encontro
Fui conhecer Thich Nhat Hanh, em uma palestra em Londres, a palestra de Thay (como é chamado por seus alunos - e que significa “mestre”) se iniciava no final de tarde, na Friend’s House, casa pertencente à Comunidade Quaker. Parecia um daqueles tribunais antigos, que vemos em filmes, com capacidade para aproximadamente 250 pessoas, porém a amorosidade entre o público que chegava rapidamente transformava essa percepção em algo amoroso. Aproximadamente 20 minutos antes do início, a irmã Chan Khong, que acompanha Thay desde 1965, inicia a explicação de alguns cantos, facilitando-nos a desenvolver um estado contemplativo. As músicas falavam de como poderíamos florescer, sermos suaves como o orvalho, sólidos como uma montanha, e firmes como a terra. Suaves e lindas canções que rememoravam as características de liberdade que temos, e como reconhecer isto através da respiração atenta.

Depois desses cantos, chega Thay, suave, lento e atento. Detalhes técnicos como microfone, e posição do sino são rapidamente resolvidos. Ele acolhe a todos com palavras doces e sorriso, e pede aos todos os monges presentes no palco, a cantarem em acolhida ao público, enquanto pede que o público comece a meditar concentrando-se no próprio respirar.

Quando realmente começa sua conferência, o estado do público já é de bastante tranquilidade, e ao mesmo tempo, de redobrada atenção. O tema da conferência foi “Tocando a Paz na Vida Diária”, e inicia de forma poderosa, ao falar sobre a importância de reconhecer a raiva existente em nós, para que com a plena atenção de nossa prática, possamos transformá-la. Explica o quanto é central para o Budismo a prática da plena atenção, e da concentração.


Phap Nhan (um dos monges que virá ao Brasil em setembro),
Vitor Caruso, Samuel (de Fortaleza, que ficou para se tornar
monástico) e Liliane Gomes

Ensinamento que toca a todos
Vários momentos da fala foram bem emocionantes. Orientações de como uma caminhada meditativa nos prova que cada passo que damos é livre, livre de perturbações, raiva, medo, inveja e outras emoções. Fala do quanto o potencial de uma mente atenta pode gerar possibilidade de curas em todos nós, e que esta mente atenta pode ser aplicada no beber, no dirigir e no respirar, pois não é necessário ir aos monastérios pra praticá-la. A parte mais emocionante deste dia foi quando ele se referiu ao conceito de interser na família. “Quando vemos uma filha, vemos também sua mãe, olhe para a mãe e poderá ver a filha. A mão da filha, é continuidade das mãos de seus pais. Somos uma continuidade. Como podemos não compreender nossos pais? Em cada célula, somos a continuidade de suas células.” Ao final, abriu para perguntas e respostas, e uma das mais interessantes questões foi sobre como aplicar estas ideias em um país Cristão. Thay respondeu com outra questão: “Em que momento deixei de falar de Deus ou Jesus?” O público aplaudiu em choro, todo o ensinamento era sobre amor e acolhimento, de nossas emoções, de nossos familiares e amigos, não havia nenhum tipo de contradição, realmente.

Confesso que terminei este primeiro encontro bastante emocionado, tinha entendido porque Thomas Merton, Martin Luther King e o Dalai Lama tinham enfatizado tanto a importância de conhecê-lo e aprender com suas palavras.

A partir daí, estar em retiros com Thay passou a ser de valor inestimável, precioso. Thich Naht Hanh estabelece uma rotina onde mescla o silêncio, a prática da meditação sentada e caminhando, com momentos de palestra, e o tão especial “Dharma Sharing”, que significa a possibilidade de verificarmos em pequenos grupos a aplicabilidade, beleza, e profundidade do ensinamento.

Este ano, em Junho, estivemos para um retiro especial na França (fotos), em que Thay costuma aprofundar seus ensinamentos em inglês para praticantes mais antigos. Necessitaria de mais espaço para descrever a grandiosidade do aprendizado, e confesso que fomos surpreendidos no final, eu e minha esposa, pelo acolhimento dos praticantes que souberam de nosso trabalho aqui no Paraná, e encaminharam a nossa solicitação de ordenação, como professores-alunos-representantes de Thich Nhat Hanh, em uma linda cerimônia por ele conduzida.

Se você quiser ter um contato mais próximo, e sentir, além dos maravilhosos livros por ele escritos, em Setembro, Thich Nhat Hanh envia dois monges para uma série de ensinamentos em Curitiba. Será de 14 a 20 de Setembro, fique atento no site www.pazacadapasso.org

Entrevista Exclusiva
Sister Chan Khon

Se Francisco de Assis tinha Santa Clara como parceira, Thich Nhat Hanh tem Sister Chan Khon ao seu lado na caminhada espiritual.

Pensamos numa entrevista exclusiva com Thay, o que logo nos avisaram que seria bem difícil. Como o retiro na Inglaterra era curto e intenso, ele não gostaria de se envolver com entrevistas no meio das atividades, assim, seu braço direito, irmã Chan Khong nos atendeu atenciosa e generosamente. Conversamos sobre vários assuntos, e histórias antigas de Thay, uma vez que ela o acompanha desde 1965. Leia um resumo dos trechos mais interessantes:

THOMAS MERTON era um mestre zen, um pessoa muito livre, ele encontrou TNH duas vezes, em uma destas vezes ele viu TNH abrindo e fechando a porta da sala, de uma forma muito profunda, com base nisto que escreve que ele era um verdadeiro monge. Houve uma norte-americana que foi até a França para conhecer TNH, só para ver ele abrir a porta. (risos) Ela nos contou isto só no final do retiro.”

MARTIN LUTHER KING escutou uma fala de TNH sobre como a guerra era um dano para os direitos humanos, e que não havia separação entre os direitos humanos dos vietnamitas, ou dos negros americanos, eram todos humanos. Isto tocou profundamente MLK, que passou a defender uma posição contrária à Guerra do Vietnã. Muitos diziam para ele desistir deste assunto, que não lhe dizia respeito como afro-americano. Mas convencido por Thay, ele abraçou a causa da paz, e este foi um dos motivos que fez com que MLK indicasse Thay para o prêmio Nobel da Paz. Semanas antes de MLK ser baleado, Thay teve tempo de agradecê-lo dizendo que ele era um bodisatva (ser iluminado) para o povo do Vietnã.”

“É preciso tocar a paz em você, o Budismo era muito conservador, precisava renovar-se. Como podemos viver o Budismo sem ética? O Budismo deve ser ENGAJADO, engajado com a vida, com as crianças, com a família.”

“Muitos alunos de Thay são professores de YOGA, eles compreendem que só o trabalho de corpo não purifica suas mentes. Yoga é similar ao Kunf Fu. Kung Fu não é na verdade uma arte marcial, Kung Fu é uma prática regular, feita com disciplina, isto também se aplica ao yoga. E esta sua prática pode se estender ao andar e falar de forma consciente.”

“Lembro da visita ao BRASIL, deve ter sido em 1989, foi Odete Lara que nos ajudou, pois havia conhecido Thay na Califórnia, ela havia traduzido um livro de Thay para o português. Thay aprendeu sobre a grande diferença social que existe no Brasil, em sua apresentação no Rio havia poucas pessoas, a maioria com boa condição social, então pediu que fosse diferente em Belo Horizonte, pois queria conhecer um pouco mais sobre o Brasil de verdade. Lá ele se apresentou para um público maior, mais diverso. Também lembro que em 1975 recebemos um doação para ajudar crianças em situação difícil no Vietnã, mas com o decorrer do processo político por lá, o dinheiro recebido ficou bloqueado na Holanda, então Thay fez uma doação de boa parte deste valor para os trabalhos de Dom Helder Camara no Brasil”.


Discurso de Thay nas Nações Unidas em Maio de 2008 (trecho)

As raízes da guerra e do conflito estão dentro de nós. Temos que reconhecer as aflições dentro de nós, abraçá-las e transformá-las: raiva, ódio, discriminação, orgulho, desespero. A prática consiste em olhar profundamente suas raízes, compreendê-las e aprender a transformá-las. Precisamos dar ouvidos ao nosso próprio sofrimento e ao sofrimento de nossa família, comunidade e nação. Devemos ser capazes de ajudar uns aos outros a reconhecermos que essas aflições existem em cada um de nós e que ao longo de nossas vidas temos permitido o desenvolvimento dessas aflições. Assim, cada um de nós deve assumir o compromisso de não regar as sementes de violência, ódio, discriminação e desespero que estão em nós. Em nossos relacionamentos com nossos cônjuges, ou entre pai e filho, mãe e filha, irmão e irmã, precisamos ajudar uns aos outros na prática, aprendendo sempre a ouvir o outro com compaixão, sempre utilizando a fala amorosa para ajudá-lo a reconhecer as aflições que carrega dentro de si. Também devemos usar a fala amorosa para regar as sementes de compreensão, compaixão, alegria e irmandade inerentes ao outro. Devemos nos ajudar para que possamos trazer a cura às nossas relações pessoais antes que possamos ajudar a curar a humanidade e a Terra. A cura é possível através de cada respiração, cada passo, cada pensamento, cada palavra e através dos atos mais simples, como sorrir para alguém.

A Terra está padecendo, nossa sociedade está padecendo e há tanto desespero e violência. Práticas budistas, como o Pensamento Correto (ou seja, pensar com base na não-discriminação, compaixão e compreensão), Fala Correta, Ação Correta e Modo de Vida Correto são cruciais para a cura de que todos necessitamos. Os jovens devem aprender a praticar o Nobre Caminho Óctuplo em suas famílias e nas escolas. As Negociações de paz terão êxito apenas se ambas as partes em conflito tiverem compreensão mútua e souberem como fazer uso da escuta profunda e da fala amorosa. E este tipo de treinamento deve começar nos níveis mais básicos da educação. É isto que entendemos por educação da paz e é a forma de sairmos da guerra e da violência.

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