| |

ANO 10 - ED 119 - AGOSTO DE 2009
ENTREVISTA
MARCIO CAMPOS
Internet, ciência e religião
No início de setembro, o blog Tubo de Ensaio, sobre ciência e religião e publicado na Gazeta do Povo, completa um ano. Praticamente ao mesmo tempo em que comemora o primeiro aniversário de seu blog, o jornalista Marcio Antonio Campos estará nos Estados Unidos, participando de uma conferência de jornalistas para a qual foi contemplado com uma bolsa. Editor-assistente do caderno Vida e Cidadania, Marcio tem 32 anos e se formou pela Universidade de São Paulo. Nesta entrevista, ele comenta a recepção que o blog tem entre os leitores, oferece sua visão sobre a relação entre ciência e fé e explica como a internet pode colaborar para uma recuperação da identidade católica no Brasil e no mundo.

Essa viagem aos Estados Unidos é um reconhecimento pelo seu trabalho com o blog?
Acredito que sim. Atualmente sou o único brasileiro a fazer parte da Religion Newswriters Association, uma entidade que reúne jornalistas especializados em religião que trabalham na mídia secular, ou seja, sem vínculo com religião nenhuma. Anualmente a RNA realiza uma conferência anual e oferece bolsas para alguns de seus membros, que se candidatam e explicam por que deveriam ser contemplados. Descrevi meu trabalho com o Tubo de Ensaio e fui premiado com uma bolsa. Na conferência, que ocorrerá em Minneapolis, teremos a participação de especialistas em vários assuntos ligados à religião, e neste ano inclusive haverá palestras sobre a influência da religião nos processos de recuperação de doentes, o que me interessa de modo mais especial.
Como surgiu o seu blog?
A Gazeta do Povo tem estimulado seus jornalistas a criarem blogs, que não necessariamente tenham a ver com o assunto sobre o qual escrevem no jornal. Ano passado, eu era editor de um caderno de Vestibular e apresentei o projeto de um blog sobre ciência e religião, um assunto que me fascina muito, e a proposta foi aceita. Este primeiro ano de blog tem sido uma experiência muito positiva.
Eu comecei na Gazeta do Povo em julho de 2005, como repórter da editoria Paraná, e passei a escrever, entre outros assuntos, sobre religião, por causa do conhecimento que eu tinha sobre o assunto. Tanto que eu ainda entendo muito mais de religião que de ciência – para escrever no Tubo de Ensaio, eu recorro a vários amigos e especialistas de áreas como Biologia, Física, Química, Astronomia, para conseguir o embasamento científico.
O que é normal, não se pode ser especialista em tudo.
Sim, e é por isso que estou tentando suprir essa deficiência com muita leitura sobre o assunto. Felizmente a recepção tem sido boa. Para um texto em particular, sobre teorias de multiverso, um amigo me recomendou o nome de um dos principais astrofísicos brasileiros, o Laerte Sodré, da USP. Ele achou a proposta do blog muito interessante, embora discordássemos na questão da religião (ele é ateu), e me atendeu com toda a paciência para explicar pontos complicados da Física, como a teoria das cordas, e ainda revisou a parte científica do texto para termos certeza de que não haveria nenhum erro.
Você já encontrou outros cientistas cristãos?
Encontrei alguns. Quando comecei o Tubo de Ensaio, procurei saber se existiam outros blogs sobre o assunto. Não achei nenhum feito por jornalistas, talvez no Brasil o Tubo seja o único desse tipo – apenas ocasionalmente algum jornalista blogueiro de religião, ou de ciência, comenta assuntos de ciência e fé, como o Reinaldo Lopes, que fazia o Visões da Vida, no G1, e se transferiu recentemente para a Folha de S. Paulo. Mas em Joinville encontrei o astrônomo católico Alexandre Zabot, doutorando da UFSC, que tinha um blog sobre catolicismo e ciência, que foi recentemente desativado por circunstâncias pessoais mas era constantemente citado pelo professor Felipe Aquino, na Canção Nova. O Alexandre e eu já nos encontramos, frequentemente trocamos mensagens, e acredito que ele deva voltar à internet em breve. Com ele aprendi várias coisas interessantes, algumas delas cheguei até a reproduzir no Tubo, como quando discutimos a pesquisa com embriões. Segundo o Alexandre, não deveríamos usar como argumento o fato de que até hoje as pesquisas com células-tronco embrionárias não deram em nada, porque mais cedo ou mais tarde haverá resultados e isso destrói o argumento. Devemos ser contra porque é moralmente errado, porque ocorre a destruição de vidas humanas.
Como é a leitura do blog?
Ela varia muito. Infelizmente não é grande, pois o blog é relativamente novo e o assunto não é algo que interesse a todos os leitores. Eu estimo uma média de 700, 800 acessos para cada texto, o que eu considero pouco. Costumo publicar textos de duas a três vezes por semana, e alguns deles conseguem mais leitura. Três exemplos recentes são o post sobre o filme Anjos e demônios, um comentário que fiz sobre dois casos nos Estados Unidos onde pais deixaram os filhos doentes morrerem porque recorreram apenas à oração para curá-los, e a análise de uma pesquisa sobre o impacto do ensino superior sobre a religiosidade das pessoas. Estes três textos passaram de 2 mil acessos e estão entre os mais lidos da história do blog.
Um aspecto interessante é que por muito tempo alguns leitores ateus cobravam de mim uma atitude “imparcial” em relação aos assuntos abordados, dizendo que eu pegava no pé do ateísmo militante e poupava os religiosos. Em primeiro lugar, isso nem é verdade, pois já critiquei, por exemplo, a Arquidiocese de Nápoles por proibir exames no relicário com o sangue de São Januário, que supostamente se liquefaz duas vezes por ano. Mas o fato é que o blog tem a sua linha editorial, a de que ciência e religião se complementam. É evidente que eu serei mais crítico em relação a quem defende posições de conflito. Mas, depois que reforcei esse fato em um outro texto no blog, os comentaristas aceitaram bem a explicação.
Esta questão da cura pela fé ganhou muito destaque nas décadas de 50, 60, com Agnes Sanford, que era episcopal (anglicana norte-americana), evoluiu dentro do protestantismo e chegou ao catolicismo. Mas a Igreja Católica vê as curas milagrosas com muito rigor. Em Lourdes, em 150 anos foram aprovadas menos de dez curas.
Mas mesmo quem vai a Lourdes não deixa de recorrer à medicina, não é? A diferença nesse caso foi que os pais confiaram apenas na oração para curar seus filhos. Quanto ao rigor em relação às curas milagrosas, me chamou a atenção uma entrevista do padre George Coyne, ex-diretor do Observatório Vaticano, ao Richard Dawkins, em que o padre dizia não acreditar nas curas atestadas como milagrosas pelo Vaticano, já que essas curas, que hoje são inexplicáveis, poderiam ter explicação científica no futuro. Eu já considero esse tipo de afirmação um tanto temerária, até porque as curas reconhecidas têm certas características peculiares, como ter de ocorrer praticamente de uma hora para outra.

Gruta de Nossa Senhora
de Lourdes,
em
Massabielle - França
Na sua opinião, por que o padre Coyne tem essa posição tão radical?
Na verdade, ele está combatendo a ideia de “Deus das lacunas”, aquele Deus ao qual recorremos para explicar tudo para o qual a ciência não tem explicação. Os cientistas não sabem dizer como surgiu a vida? O adepto do “Deus das lacunas” diz “então, foi Deus quem interveio e criou a vida”. Com as curas milagrosas o raciocínio seria o mesmo. Eu apoio totalmente o padre Coyne nesse combate, porque o “Deus das lacunas” é uma caricatura do Deus cristão, e essa caricatura é inclusive usada por muitos ateístas militantes para ridicularizar a religião. Então, quanto menos gente tiver essa visão de Deus, melhor para a religião e para a ciência. Eu apenas acho que, no caso das curas milagrosas, o padre realmente exagera e cai no extremo oposto.
Você acompanha outros blogs?
Um dos meus blogueiros preferidos é o padre John Zuhlsdorf, conhecido na internet como “padre Z”, que escreve mais sobre liturgia, mas reforça sempre a necessidade de se retomar a identidade católica, que segundo ele se perdeu nos Estados Unidos.
Não apenas lá, mas no resto do mundo também.
De fato. Essa identidade reside em vários fatores, como as manifestações externas da fé, mas também na atitude dos católicos e das instituições católicas. Um exemplo seria o caso das universidades. O padre Z foi um dos principais críticos à homenagem que a Notre Dame fez ao presidente Obama – a atitude da universidade inclusive desrespeitava determinações da conferência episcopal de lá, que proibiu instituições católicas de homenagear pessoas conhecidas por posições contrárias à doutrina católica. O que o padre Z diz é que as universidades católicas o são apenas no nome, porque já não se comportam como tal. Antigamente era possível mandar os filhos a escolas católicas e confiar no ensino religioso que viria de lá. Hoje isso não acontece. Mas o padre Z vê sinais de recuperação, e a mobilização por causa da homenagem a Obama é um bom sinal. O interessante é que essa reação ocorreu principalmente na internet.
LEIA A CONTINUAÇÃO DA ENTREVISTA
< retorna ao
sumário |

PARTE II - CONCLUSÃO DA ENTREVISTA
|