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ANO 10 - ED 119 - AGOSTO DE 2009

ENTREVISTA

SONIA LYRA
Jung, Ciência,
Religião e Família

A psicóloga Sonia Regina Lyra, analista Junguiana, doutoranda em Ciências da Religião, presidente do Ichthys Instituto de Psicologia e Religião, fala dos temas que a encantam, e do evento que está preparando para o próximo mês: o I Simpósio Paranaense de Psicologia e Religião, que tem como tema “Família, Transformações Esperadas e Inesperadas”, quando apresentará a palestra “Educar para a personalidade”.

A família é o núcleo das grandes transformações?
Sonia Lyra: Na psicologia de Jung a família surge como o grupo primário de onde emerge a individualidade de cada membro, a qual se desenvolve na medida em que o indivíduo atua na sociedade com a qual está intimamente vinculado. A meta de cada indivíduo, membro dessa família, é individuar-se. A família querendo ou não, interfere diretamente sobre a saúde psíquica de seus membros em formação, assumindo o principal papel enquanto foco do mundo emocional e do social. É a partir das bases adquiridas na família que serão construídas as primeiras referências simbólicas, assim como a auto-imagem e a configuração psíquica do indivíduo que atuará diretamente, durante toda a vida, nas suas relações interpessoais e intra-psíquicas. A educação que pretende promover a individualidade precisa encontrar a flexibilidade entre a necessidade de normas e o espaço vital para a expressão da singularidade dos indivíduos que aprendem. Para que tal aconteça, a família surge como um sistema complexo de relações e de trocas afetivo-emocionais construtoras de identidade. A família é a matriz de um sistema em constantes transformações. Transformações esperadas, aquelas que fazem parte da história e dos ciclos de vida, sejam infantis, adolescentes, adultos ou idosos no contexto familiar. Transformações inesperadas, aquelas que vem carregadas de núcleos emocionais ligados às perdas, às separações, traições de vínculos afetivos, mudanças geográficas e diferentes conflitos inerentes a essas e outras mudanças. Devido ao seu grau de importância no contexto das transformações individuais e coletivas foi que elegemos a família como tema essencial para efetivar esse I Simpósio Paranaense de Psicologia e Religião que realizaremos em Cianorte, e que - esperamos - terá continuidade em outros anos com outros sub-temas.

A conexão psicologia e religião inicia com Jung?
Carl Gustav Jung, médico e psiquiatra suíço, foi um empirista e também o primeiro a postular um modelo teórico fisiológico para os processos psíquicos já no início do século XX, bem como apresentar na dinâmica da psique, especialmente a sua função religiosa. Neste I Simpósio temos como base a teoria Junguiniana devido à conexão entre psicologia e religião. A problemática religiosa ocupa um lugar central na obra de C. G. Jung e quase todos os seus escritos, especialmente os dos últimos anos, tratam do fenômeno religioso. O que Jung entende por religião não se vincula a determinadas confissões. Trata-se, como ele próprio diz, de uma observação acurada e conscienciosa daquilo que Rudolf Otto chamou de numinosum. Esta definição vale para todas as formas de religião. O maior mérito de Jung é o de ter reconhecido, como conteúdos arquétipos da alma humana, as representações primordiais coletivas que estão na base das diversas formas de religião. O homem moderno sente, cada vez mais, falta de apoio nas confissões religiosas tradicionais, o que gera na atualidade uma grande incerteza no tocante a assuntos religiosos. A nova perspectiva desenvolvida por Jung permite uma compreensão mais profunda dos valores tradicionais e confere um novo sentido às formas cristalizadas de compreensão da religião.

Há um conflito religião-ciência?
Um dos comentários de Jung que será retomado no debate proposto, neste I Simpósio Paranaense de Psicologia e Religião, é que entre ciência e religião não existe conflito, como se poderia supor. Trata-se, segundo ele, de uma idéia bem antiquada. A ciência deve ocupar-se do que existe. Existe religião e ela é uma das manifestações mais essenciais do espírito humano. É um fato e a ciência não tem nada a dizer sobre isso. Ela apenas deve confirmar que existe esse fato. À ciência cabe medir, dar proporções, usar uma das funções da mente que é a razão para apresentar o fenômeno e nomeá-lo. Ela não procura e nem deve explicar os fenômenos e, por isso, não pode estabelecer uma verdade religiosa. Jung afirma: “A verdade religiosa é essencialmente uma experiência e, portanto, não pode ser discutida. Quando alguém, por exemplo, teve uma experiência religiosa, então ele a teve e ninguém pode tirá-la dele”. Numa entrevista dada à televisão inglesa, ao lhe perguntarem se acreditava em Deus, Jung respondeu: “I do not believe, I know”. (Eu não acredito, eu sei). Esta curta frase desencadeou uma avalanche de perguntas, de tal proporção, que ele foi obrigado a manifestar-se a respeito, numa carta dirigida ao jornal inglês de rádio e televisão The Listener. É digno de nota que o entomologista Jean-Henri Fabre exprimira sua convicção religiosa em termos quase idênticos: “Não acredito em Deus: eu o vejo”. Tanto Jung como Fabre adquiriram tal certeza no trato com a Natureza: Fabre, com a natureza dos instintos, observando o mundo dos insetos; Jung, no trato com a natureza psíquica do homem, observando e sentindo as manifestações do inconsciente.

Um amplo religare...
Jung faz questão de deixar bem claro que com o termo religião não se refere a uma determinada profissão de fé religiosa. Admite, porém, que toda confissão religiosa, por um lado, se funda originalmente na experiência do numinoso, e, por outro, na pistis, na fidelidade (lealdade), na fé e na confiança em relação a uma determinada experiência de caráter numinoso e na mudança de consciência que daí resulta. Um dos exemplos mais frisantes neste sentido, é a conversão de Paulo. Pode-se, portanto, dizer que o termo religião designa a atitude particular de uma consciência transformada pela experiência do numinoso.

SERVIÇO:
1º Simpósio Paranaense de Psicologia e Religião
Família, Transformações Esperadas e Inesperadas
Uma perspectiva em Psicologia Analítica e Religião
Cianorte - PR

Data:
25 e 26 de setembro de 2009

Local:
Crystal Residence Hotel
Rua Constituição 289
Centro - Cianorte PR

Reservas:
44 3018.8100
reservas@crystalresidence.com.br

SONIA LYRA é graduada em Psicologia, PUCPR; Analista Junguiana pelo Instituto Junguiano de São Paulo, Associação Junguiana do Brasil e International Association for Analytical Psychology, Zürich, monografia O monge como arquétipo universal - Orientador Prof. Dr. Glauco Ulson; Mestre em Filosofia, PUCPR, dissertação Jung leitor de Nietzsche: acerca da morte de Deus - Orientador Prof. Dr. Antonio Edmilson Paschoal; Doutoranda em Ciências da Religião, PUCSP, tese Nicolau de Cusa: a ponte entre a mística medieval e a possibilidade de uma mística moderna. Uma epistemologia medievo renascentista para as Ciências da Religião? - Orientador Prof. Dr. Luiz Felipe Pondé; Analista didata membro do Instituto Junguiano PR; sócia da SOTER - Sociedade Brasileira de Teologia e Ciências da Religião; membro fundador da Sociedade Brasileira de Filosofia da Religião; preside o ICHTHYS Instituto de Psicologia e Religião.
sonia@ichthysinstituto.com.br

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