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ANO 10 - ED 119 - AGOSTO DE 2009

EVENTOS PÚBLICOS DEBATERAM FÉ,
CIÊNCIA E ECONOMIA

Por Cláudia Gabardo

Dois eventos de peso na área das Ciências Sociais marcaram a agenda do Instituto Ciência e Fé e entidades parceiras neste mês de agosto. O primeiro foi o ciclo de palestras que discutiu os desafios à fé na sociedade secular sob o ponto de vista de profissionais e estudiosos da Biologia, da Educação e da Teologia e, o segundo, uma incursão sobre a interrelação entre política, poder e mercado conduzida pelo professor e expert em administração Belmiro Valverde Jobim Castor. Apesar de distintos, cada um deles apontou para uma conclusão comum: a de que, no cenário mundial de mudança acelerada de paradigmas em todos os campos do fazer humano, sobrevivem com competência setores e indivíduos que não temem refletir e rever suas práticas.


Belmiro Valverde Jobim Castor: o mercado, para existir,
precisa se justificar, fazer a diferença na vida das pessoas
e ser minimamente regulado pelo poder estatal.

Para o especialista em Biologia Celular e diretor de Pesquisa e Pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Valdemiro Gremski, que abriu o ciclo de palestras realizado no setor de eventos da Igreja São Francisco de Paula, os avanços científicos estão entre os fatos que mais levam ao questionamento da fé e das religiões – e apesar de os interesses envolvidos não serem incompatíveis. “Há uma diferença muito grande de velocidade entre esses dois campos e o que é reservado ao sagrado sempre tende a recuar ante as ousadias capitaneadas, nesse novo século, pela Biologia”, observa.

Interdependência
A grande questão, argumenta Gremski, seria admitir que nem uma e nem outra são autossuficientes. Da mesma forma que o sagrado, a fé e as religiões não conseguem e nem poderiam dar conta de explicar toda a complexa rede de acontecimentos que determinam a vida e seus desdobramentos sobre o planeta, o conhecimento científico também não dá conta de explicar em sua totalidade, por meio de seus experimentos e certezas de laboratório, como se manifesta a vida. Segundo o especialista, o contrário disso equivaleria optar pelo reducionismo genético, ignorando a influência do meio (em seus aspectos social e ambiental) sobre o comportamento, os interesses e a saúde dos indivíduos.

O oncologista Cícero de Andrade Urban, que dividiu com Gremski a abordagem do tema, concorda com suas ideias e acrescenta: o modo de entender a doença considerando outras variáveis (religiosas, sociais e culturais) tende a ser extremamente útil na prática médica, com grandes vantagens para o paciente. “Ele (paciente) deixa de ser um caso, um número na estatística, para ser alguém com referências e valores muito próprios e que podem influenciar na forma como o seu organismo responde de maneira diferente a um problema de saúde comum a tantas outras pessoas”, resume. “Observando essas questões, é possível fazer uma medicina de melhor qualidade e, assim, cumprir sua função social”.
Superar essas barreiras entre o científico e o religioso também é preocupação de quem atua na área educacional. Segundo o professor da Faculdade Evangélica do Paraná (Fepar) e do Studium Theologicum Antônio Carlos Costa Coelho, o relativismo que permeia a Biologia e a Medicina há muito bateu à porta de colégios e universidades e provoca os educadores quando o tema religião/religiosidade se insinua entre os conteúdos pedagógicos. “A fé é e sempre foi desafiada e isso é bom até para o seu próprio fortalecimento”, diz.

Para Coelho, no entanto, a grande questão não é falar de religião na escola “mas de que modo é possível abordar os diversos temas sob pontos de vista abertos à reflexão filosófica e que permitam abranger as questões da fé, das religiões e da religiosidade”, instigando o interesse dos estudantes.

Coube ao padre Ricardo Hoepers - que acaba de deixar o Brasil para viagem de quatro anos de estudos na Itália - fazer um apanhado sobre a leitura feita pela Teologia quanto aos desafios apresentados à fé e à religiosidade. No seu entender, avaliar com responsabilidade as questões que extrapolam os domínios do religioso é urgente para que a fé – a exemplo da católica – ganhe mais adeptos. “Há que se considerar os conceitos e as necessidades de cada momento histórico e sua dinâmica”, observa o religioso, que podem ser compartilhados sem empecilhos pelas religiões e seus praticantes e em proveito deles próprios.

Economia
Assim como a fé e a religiosidade se enfraquecem quando se opõem ou resistem às mudanças observadas no processo histórico e nos avanços científicos, também o poder político tende a se esfacelar quando deixa de representar os interesses sociais e as aspirações de progresso material dos povos. Foi o que observou Belmiro Castor em sua palestra.
“O mercado, para existir, precisa se justificar, fazer a diferença na vida das pessoas e ser minimamente regulado pelo poder estatal”, resumiu, sem descartar a influência recebida da conjuntura política da qual esse mesmo mercado faz parte. Afinal, se o mercado surgiu com o sentido de provedor de bens e serviços, ganhou poder e passou a influir politicamente sobre a economia.

No Brasil, explica Castor, a situação é mais complexa porque o país ainda não é propriamente capitalista. “Estamos na fase do pré-capitalismo, em que estabilidade de regras, respeito aos contratos e parceiros definidos, necessários para que o mercado prospere, ainda não são pré-requisitos observados do mesmo modo que nas sociedades verdadeiramente capitalistas”, disse.

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