Casa de Estudos e Retiros Padre Reuter Instituto Ciência e Fé Paslestras e Conferências Contato LInks
Página Inicial


 


Antonio Celso Mendes
é professor de Direito da PUCPR.


ANO 10 - ED 120 - SETEMBRO DE 2009

As dimensões das coisas

Antonio Celso Mendes

Há que se distinguir entre medir e dimensionar. A medida exige uma escala, dizendo mais respeito à precisão dos cálculos. Já as dimensões são critérios de avaliação e alcance de diferentes proporções, nos permitindo abranger múltiplos e complexos níveis de compreensão, tudo a partir de nossa capacidade mental. É dessa forma que podemos fazer alusão a dimensões espaciais, temporais, emotivas, simbólicas, de sentimentos, crença ou imaginação. Assim, enquanto as medidas são peculiares às ciências experimentais, as dimensões são próprias de nosso labor espiritual, abstrato.

Dimensionar algo diz respeito à criatividade, mas também a um esquema de compreensão que nosso espírito exige ser cada vez mais coerente, mais condizente com os fatos que interpreta, tendo em vista sua adequada consistência, evitando assim que as dimensões se esvaiam no irreal e no onírico. Contudo, tais limites são difíceis de serem respeitados, tendo em vista que a característica principal de nosso espírito é alçar vôos nas veredas do vislumbre e do imaginário.

Em acréscimo, todos nós estamos cientes das tremendas dificuldades que envolvem a dimensão precisa de qualquer coisa, pois tudo o que acontece no palco deste mundo está envolto numa complexidade de causas, a qual frequentemente não temos acesso.

Ora, tal imprecisão e relativismo em obter as verdadeiras causas de tudo o que acontece, nos deveria conduzir sempre a uma atitude prévia de humildade e submissão ao incompreensível, reconhecendo que quaisquer dogmatismos autoritários não têm cabimento, por trazerem em si as marcas de suas próprias fraquezas.

Contudo, isto não impede que os cientistas façam um esforço contínuo com vistas a submeter as dimensões das coisas às suas exatas medidas, o que ressalta imediatamente a importância dos cálculos matemáticos na aferição das coisas, através dos quais temos obtido notáveis progressos no domínio da realidade, seja empírica, seja apenas pressuposta, como no caso das teorias referentes à microfísica, à cosmologia ou à evolução, entre outras.

Sob a forma de tateios, os cientistas têm chegado à conclusão de que, sob certos aspectos, nossos conhecimentos como que criam a realidade, tornando-a dócil às nossas explicações, o que tem permitido a descoberta de aspectos surpreendentes das forças misteriosas que comandam a realidade (cfr. GREEN, Brian. O Tecido do Cosmo. SP, Ed Companhia das Letras, 2005).

Assim, condicionados inapelavelmente pelos princípios da incerteza (Heisenberg) e da infinidade de perspectivas que podemos submeter nossa compreensão da realidade (Einstein), o espírito humano transparece como dotado da capacidade demiúrgica de um desbravador que forja as próprias dimensões das coisas.

Dessa forma, se todas as interpretações são provisórias (pois as teorias se sucedem), e ainda também dependentes de padrões aleatórios de medida, isto nos conduz à conclusão inelutável de que a única escala real de que dispomos para tudo avaliar é a presença mesma deste Espírito que nos capacita ousar compreender realidades cujas causas nos ultrapassam e das quais somos apenas testemunhas.

ELE marca nossa distância de um mundo material que conosco não se confunde, como se nossa vida fosse apenas a oportunidade preciosa e única de descobri-LO, envolto que está nas brumas de nossas experiências externa e interna, seja no mundo exterior como naquele íntimo à nossa subjetividade.

Estas são as razões primárias que nos fazem sentirmos alienados, distantes de nossa verdadeira identidade, como bem expressou Santo Agostinho ao proclamar: “Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Te amei...Tocaste-me e ardo de desejo de alcançar Tua paz”.

< retorna ao sumário

 

 

 


Página Inicial