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ENTREVISTA Ver Jesus Evaristo Eduardo de Miranda
Como ver Jesus? Um dos melhores caminhos é ouvir a palavra daqueles que o viram durante sua vida ou estiveram com quem o conheceu pessoalmente. Eles são as testemunhas oculares, de parte de sua vida. Como todos já morreram, o melhor caminho a seguir é a leitura dos textos evangélicos, produzidos por suas comunidades. Mas como ler os evangelhos para «ver» Jesus? Como percorrer esse caminho? Para a maioria das pessoas, a leitura dos evangelhos traz informações sobre o que Jesus disse e fez. Isso já é importante. Ajuda a entrevê-lo. Mas não é apenas a habilidade literária, ou conhecimento do grego ou a organização estrutural dos textos evangélicos que ajudam a entrar em contato com esse conhecimento do que Jesus disse e fez. A leitura dos textos evangélicos pode, segundo o que é dado a cada um, nos colocar em contato com o que Jesus viveu e com o que ele foi. Para ver Jesus é necessário aproximar-se de quem ele foi e de como ele viveu, algo muito além do seu dizer e fazer. Para o pensador cristão Marcel Légaut, detalhes, as vezes ínfimos, revelam – sem que os autores dos evangelhos tivessem talvez consciência – a aura de amor e de esperança que irradiava de suas lembranças pessoais e de suas reações, diante daquilo que viveram ou que lhes fora relatado sobre Jesus de Nazaré. Esses detalhes são preciosos para ver-se Jesus, mesmo se muito marcados pela mentalidade das testemunhas ou dos redatores dos evangelhos. Eles permitem diversas aproximações da pessoa de Jesus, melhor do que as afirmações doutrinarias das Escrituras sobre as quais pesaram cargas afetivas, concepções intelectuais, preocupações e perspectivas das sociedades e comunidades daquele tempo. Esses detalhes só podem ser notados e convenientemente interpretados, quando a leitura das Escrituras é realizada com um conhecimento profundo de si mesmo e das realidades humanas. Essa leitura exige do leitor uma experiência espiritual avançada. A vida espiritual de cada um contribui para entrever Jesus através de suas considerações, sempre impregnadas de sua sabedoria e de sua comunhão com o Pai. Quem pouco avançou no seu auto-conhecimento, em sua vida espiritual, pouco pode entrever da vida de Jesus. Os ensinamentos de Jesus eram provocados por aquilo que ele pressentia que os homens necessitavam para melhor entendê-lo. Sobretudo nas confidências que fazia aos discípulos, em certas horas de intimidade, como para melhor expressar, ele mesmo, aquilo que crescia em seu interior e que ele vivia através de beatitudes e maldições. Ele o fazia através de parábolas, inventadas dia a dia, como se elas lhe fossem arrancadas por seus ouvintes, pelo caminhar espiritual de seus discípulos, como sinaliza Marcel Légaut.
É apenas quando lê-se o evangelho nessa perspectiva que torna-se real e visível o que Jesus viveu. Assim comungamos com essa experiência em profundidade. A singular epopéia espiritual de Jesus está longe da possibilidade de ser alcançada com nossos próprios meios, mas ela se torna, assim, atual e presente. Sobretudo quando pode ser entendida na linha da vida espiritual de cada um. Não se trata de verificar ou afirmar a veracidade espiritual desses flashes evangélicos da vida de Jesus. O desafio está em compreender sua linha central e seu espírito fundamental, tais como são passíveis de serem alcançados pelo estágio atual de cada um na sua condição de discípulo. Como ensinava Marcel Légaut: a cada um de perseverar para si nessa busca, de viver para si essas descobertas, e delas inspirar-se, ao longo dos anos, seguindo as etapas de maturação de sua vida espiritual única. Isso é tudo, para ver-se o Invisível. |
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