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Antonio Carlos
Coelho
, diretor do Instituto Ciência e Fé, professor do Studium Theologicum e da Faculdade Evangélica
do Paraná.


ANO 11 - ED 123 - DEZEMBRO DE 2009

Studium Theologicum:
75 anos de Teologia no Paraná

Antonio Carlos Coelho

O antigo prédio amarelo na Getúlio Vargas testemunha, desde o tempo das peladas no Campo da Cruz, o crescimento da cidade, o tráfego intenso da avenida que já foi, um dia, caminho de eventuais automóveis e carroças. Há 75 anos o prédio dos Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria, herdeiros do bispo catalão, Antonio Maria Claret, abriga estudantes e mestres de Teologia e suas especialidades, matérias fundamentais para a formação dos futuros missionários claretianos e de sacerdotes de outras congregações e de diferentes dioceses.

Os claretianos fazem parte daquela leva de congregações européias que chegaram ao Brasil na segunda metade do século 19. Vieram da Espanha, terra madre de seu fundador, Antonio Maria Claret, para estabelecer no Brasil. Após o tempo necessário para fixação e para o conhecimento da realidade do país deram inicio a diversas atividades pastorais como: missões populares, exercícios espirituais ao clero e iniciados, capelanias e, ainda fundaram uma revista.

A primeira casa, a casa-mãe dos claretianos, foi em São Paulo, e, até 1910, tinham casas missionárias em Campinas, Pouso Alegre, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Salvador. Em 1906 se estabeleceram em Curitiba, provisoriamente nos bairro Água Verde e Umbará, ambos tradicionais localidades de imigrantes italianos. Um ano depois, receberam em usufruto perpétuo, da Cúria Diocesana, quando Dom Duarte Leopoldo e Silva e o bispo, o terreno na Rua Ivaí, hoje Getúlio Vargas. Logo inauguraram uma capela e no dia 3 de dezembro de 1922, com as bênçãos de Dom João Francisco Braga, o atual santuário da Praça Ouvidor Pardinho. Curitiba contava com menos de 80 mil almas.

Não só o antigo prédio da Rua Ivaí foi testemunha do progresso da cidade. Os missionários claretianos atestaram parte da história do Paraná, bem como experimentaram os sabores das transformações políticas, das revoluções, a federalista e a constitucionalista e assistiram a cidade saudar Getúlio Vargas. E como foi a Igreja, os claretianos foram alvo dos ataques dos anticlericais e da maçonaria. Mas, por outro lado, receberam o apoio e a simpatia de uma sociedade cristã, filha de imigrantes e tradicionais luso-brasileiros devotos a Maria e fiéis ao Evangelho e à Igreja de Roma.

O Paraná, durante o período da Primeira República, viveu um clima de efervescência cultural em defesa dos ideais republicanos. Combatia-se, de forma intransigente, tudo que, segundo parte da intelectualidade paranaense, privava a liberdade de consciência. Entre esses intelectuais destacou-se Dario Vellozo. Literato, de índole ocultista e helenista, Vellozo não perdia a oportunidade de combater a Igreja e culpar a religião pela “paralisia intelectual” que, conforme afirmava, atingia a sociedade brasileira. Como lente do Gymnásio Paranaense e da Escola Normal, contava com um público cativo para divulgação das suas idéias. Com sua cultura e suas qualidades como orador, conquistou uma geração a sua concepção antireligiosa e anticlerical, formando discípulos fiéis.

O sentimento anticlerical marcou gerações curitibanas, mesmo assim, não foi suficiente para intimidar as ações dos religiosos. Pelo contrário, estes entravam em acalorados debates, daqueles de balançar púlpitos e inflamar jornais. Críticos, como foram o Padre Deschamps e o Bispo Jerônimo Mazzarotto, não deixaram por menos, saíram ao ataque. Acusaram Vellozo de não escrever seus textos de História com rigor científico, com lógica cronológica, e com interesses pessoais de influenciar a juventude. Nos anos trinta, o padre Mazzarotto, aconselhado pela Igreja, fez concurso para vaga de professor no Gymnásio Paranaense. Passou. Nas cadeiras de Filosofia e História da Filosofia, confrontou as idéias de Dario Vellozo diante de alunos que, mais tarde viriam ocupar as mais relevantes funções no Estado.

Levar a mensagem do Evangelho pelos meios possíveis era a recomendação de Claret a seus discípulos. E assim os claretianos fizeram nas terras paranaenses. Implantaram diversas atividades pastorais na diocese de Curitiba: o Círculo Operário de São José, a Conferência de São Francisco de Paulo, Apostolado da Oração, a Arquiconfraria do Imaculado Coração de Maria. Também, foi aberto um cinema e uma escola de datilografia que serviu de sede ao primeiro jornal da Diocese, “A voz do Paraná”. A Voz do Paraná existiu como a principal voz da Arquidiocese de Curitiba. Jornal bem elaborado, contava com a dedicação de qualificados jornalistas, e até os anos 80 foi o principal meio de comunicação entre a Igreja local e as famílias.

O processo de industrialização avançava no Brasil e, principalmente em São Paulo. No Paraná dominava a indústria madeireira. Era o tempo que cortar árvores significava progresso. Na política, instabilidades: a Revolução de 32 e, após ela, a nova constituição, a de 34. Neste mesmo ano, em razão das vocações surgidas no Brasil, os missionários claretianos abriram seminários para a formação filosófica e teológica dos futuros membros da família de Antonio Maria Claret. Foram fundados seminários em Guarulhos, Rio Claro, em São Paulo e em Curitiba. Assim, em 1934, foi criado o Seminário Maior de Curitiba. Era o início do atual Studium Theologicum.

Alguns anos depois, em 1938, os professores da Filosofia do seminário claretiano passaram a integrar o corpo docente da então, Faculdade Católica de Filosofia Ciências e Letras, hoje Pontifícia Universidade Católica do Paraná, que, naqueles tempos, funcionava no antigo prédio dos irmãos maristas da rua XV de Novembro.

Os cursos de Filosofia e Teologia dos claretianos tornaram-se uma referência na área de formação de sacerdotes. Muitas congregações enviavam seus seminaristas para fazer a formação superior junto aos missionários. Assim, a partir de 1962 o curso de Teologia da diocese de Curitiba uniu-se ao curso dos claretianos, dando início ao atual Studium Thelogicum. Contava, então, com um corpo docente de com 26 professores, dirigido pelos fundadores e afiliado à Pontifícia Universidade Lateranense.

Mas Teologia não é só para padres. Embora sem as mesmas exigências, como a graduação em Filosofia e com características próprias, foi criado em 1973 o primeiro curso de Teologia para Leigos na Arquidiocese de Curitiba. Eram anos de transformações na Igreja e os leigos passavam a ocupar funções nas pastorais e na catequese de crianças e adultos, portanto, caberia um bom curso para a formação de religiosos e não religiosos. O curso foi organizado pelos Padres José de Almeida Penalva e Manoel Muller. Não durou muito nas salas do Studium. Dom Albano Cavallin, atual bispo de Londrina, o transferiu para as salas da Cúria Metropolitana, no Alto de São Francisco, dando origem ao ICE – Instituto de Cultura Eclesial. Anos mais tarde, independente do curso da arquidiocese, foi reaberto um novo programa de Teologia para leigos. Funcionava à noite, com características semelhantes ao primeiro. Os professores eram os mesmos que lecionavam no período da manhã para os futuros sacerdotes.

Em 1975, o Studium foi agregado à Universidade Católica do Paraná, contribuindo para que se tornasse Pontifícia.

Aqueles que conheceram o velho prédio do Studium podem confirmar. Os corredores largos, assoalho de táboas, que rangiam ao pisar, principalmente nos dias de mudança rápidas de temperatura, como é comum nesta cidade, acolhiam cerca de 150 estudantes dos quatro anos de curso. No seu salão de conferências, vozes dos melhores da Teologia, da Ciência e das religiões não-cristãs, deixaram seus conhecimentos a alunos, professores e membros da comunidade curitibana.

Alunos de diferentes congregações religiosas e seculares, muitos vindos de diferentes dioceses e, até mesmo da Ucrânia, da Bolívia, do Paraguai, circulavam pelos velhos corredores, subiam e desciam as escadas de corrimão trêmulo. As salas de aula não eram muitas, mas eram grandes, de pé direito alto, como das escolas antigas dos filmes franceses.

A Biblioteca, no andar térreo, era e é maravilhosa. A menina dos olhos dos claretianos. Mais de 1.500 exemplares são, anualmente, somados a um acervo centenário. Nada que se trata de Teologia, Liturgia, Bíblia, Filosofia, História, Arte, documentação, e outros conhecimentos da área religiosa escapam dos registros da dona Líria. Ela conhece tudo que existe ali dentro. Pode apagar a luz que ela encontra o exemplar.

Há 4 anos o velho Studium passa por reformas. Reformas físicas que o tornou um prédio moderno internamente, com salas amplas e apropriadas para as novas tecnologias da didática. A Biblioteca ficou maior e as vitrines que alegram os olhos, nos fazem ter a certeza de que lemos muito pouco diante de tantas novidades bibliográficas, agora são muitas.

Também vieram as reformas administrativas. O Studium passa por um processo de aprovação do seu curso de Teologia, que será seguido do processo de reconhecimento. Burocracias necessárias a todos os cursos de graduação. Ao mesmo tempo há interesse da Ação Educacional Claretiana em ampliar a oferta de cursos. Já estão implantados cursos a distância (EAD) com de cursos de graduação, pós-graduação, extensão e tecnológicos.

A antiga relação com a PUC-PR levou a um convênio de cooperação com a possibilidade de intercâmbio de professores visando à universalização do ensino e o benefício dos alunos.

Todas essas reformas colocam o velho Studium no mesmo nível e parâmetros de ensino das grandes universidades. Quanto à qualidade do corpo docente – a esta não se faz reforma – o que há ali dentro não se encontra com facilidade. O conhecimento, a cultura, a experiência de muitos são riquezas que títulos não traduzem.

Daquelas salas, ainda do tempo do assoalho de táboas e das salas imensas, saíram bispos como: D. Odilo P. Scherer (DD Cardeal Arcebispo São Paulo), D. Irineu R. Scherer (Arcebispo de Joinville), D. Anuar Battisti (Arcebispo de Maringá), D. Bruno Gamberini (Arcebispo de Campinas), D. José T. Marques (Arcebispo de Fortaleza), D. Eustáquio P. Cuquejo (Arcebispo de Assunção), D. Ladislau Biernaski (S. José dos Pinhais), D. Izidro Kosinski (Emérito de Três Lagoas), D. Francisco Bach (Toledo), D. Walter Ebejer (Emérito de União da Vitória), D. José V. C. Teixeira (Bom Jesus da Lapa), D. Sérgio A. Braschi (Ponta Grossa), D. Francisco J. D. Paredes (Campo Mourão), D. Celso A. Marchiori (Apucarana), D. Domingos G. Wisniewski (Emérito de Apucarana), Dom Vicente Costa (Umuruama), D. José Antônio Peruzzo (Palmas/Francisco Beltrão) e D. Daniel Kozlinski (Eparquia Ucraniana).

São 75 os anos do Studium Theologicum, e 103 os de presença dos Missionários Filhos do Sagrado Coração de Maria em Curitiba. Os claretianos, mais do que testemunhas da história da cidade e da Igreja, foram seus dignos participantes. A contribuição dada e que se dá à Igreja e à comunidade católica do Paraná e do Brasil se mede na qualidade dos sacerdotes preparados, na contribuição para a cultura cristã da sociedade paranaense, nas tantas ações pastorais desenvolvidas pela paróquia do Sagrado Coração de Maria e na divulgação de literatura cristã através da Editora Ave Maria.

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