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De acordo com o doutor em Ciências Humanas, José Eliézer Mikosz, no Brasil a ayahuasca ficou conhecida no período dos seringais. “Os trabalhadores iam para a região amazônica para extrair borracha e nesta região conheceram a ayahuasca. O mestre Irineu foi um destes trabalhadores que experimentou a bebida”, explica ele. Mikosz aponta o sincretismo presente nas religiões ayahuasqueiras: “Há vários elementos presentes nessas religiões, uma mistura de ritos afros, espiritismo, devido à crença na reencarnação, além do cristianismo e influências do xamanismo indígena”.
A antropóloga da Universidade Federal do Paraná, especializada em Etnologia Indígena, Edilene Coffaci de Lima, explica que o Santo Daime é uma religião genuinamente brasileira, que surgiu na década de 20 no coração da Amazônia e que com o tempo surgiram outras religiões que utilizavam a ayahuasca em suas cerimônias, como a União do Vegetal. “As religiões ayahuasqueiras são religiões muito ecléticas, que possuem elementos de diversas outras religiões e os seus adeptos tomam o chá para poder ter acesso a uma experiência religiosa”. Coffaci se posiciona a favor da regra que permite o uso do ayahuasca em cultos religiosos. Segundo ela, para chegar a esta conclusão os estudiosos que escreveram o texto publicado no Diário Oficial passaram anos analisando de perto como se desenvolvem estes rituais religiosos que utilizam o chá de ayahuasca. “Esta resolução acabou de ser publicada, mas antes dela já haviam sido publicadas outras”. Para a antropóloga da Universidade Federal do Paraná, “a experiência religiosa pode ser vivida de diversas maneiras. Prender-se no uso da bebida para condenar uma religião é intolerância e preconceito”. Afirma que dentro dessas religiões o uso da bebida tem uma finalidade e por isso não pode ser proibido ou julgado superficialmente por pessoas que nao conhecem a religião.
Santo Daime O Santo Daime surgiu na década de 20 a partir de uma crença difundida no interior da Amazônia. O movimento religioso que originou o Santo Daime teve início com o neto de escravos, Raimundo Irineu Serra, o mestre Irineu, que recebeu uma revelação: uma aparicão de Nossa Senhora da Conceição, na primeira vez que tomou o chá ayahuasca, que nomeou de Daime. A doutrina do Santo Daime faz uma nova leitura dos evangelhos e traz uma forte influência do cristianismo nos seus ensinos. As celebrações da religião são feitas através de letras de músicas, transformados em hinos e danças, que eles chamam de bailado. Durante essas celebrações, os participantes ingerem a ayahuasca.
União do Vegetal Mikosz, membro do NEIP (Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos), descreve que a União do Vegetal ou UDV surgiu cerca de 30 anos após a criação do Santo Daime. A religião foi fundada pelo seringueiro José Gabriel da Costa, mestre Gabriel, e também utiliza a ayahuasca nos seus rituais para auxiliar seus adeptos a terem uma experiência espiritual mais profunda. Segundo Mikosz, para se tornar sócio da UDV, o interessado deve ser indicado por alguém que já é membro e participar de uma entrevista. Ele conta ainda, que todas as religiões ayahuasqueiras são reencarnacionistas.
O doutor em Ciências Humanas defende a resolução do Conad. Mikosz, que já fez parte da União do Vegetal, explica que não há perigo na ingestão do chá durante as cerimônias. O estudioso ressalta o resultado do Projeto Hoasca, um estudo realizado em 1992 que demonstrou que a quantidade de DMT, composto psicoativo, presente no chá é abaixo do considerado tóxico. Além disso, Mikosz ressalta que nenhum alucinógeno cria dependência. “No caso da ayahuasca, sempre haverá um efeito mesmo depois de anos de uso”. Mikosz conta que os participantes da União do Vegetal acreditam muito na parte cristã da religião, em Deus, em Jesus e nos santos. No Santo Daime, segundo ele, também é assim. “Há pessoas que acreditam que o mestre Irineu é uma reencarnação de Jesus”. O doutor ressalta ainda a importância que a natureza tem para a religião. “Quase todas as pessoas que entram em contato com a ayahuasca começam a amar a natureza”. Na Grande Curitiba existem dois núcleos da União do Vegetal. Os dois, conta Mikosz ficam localizados em Quatro Barras. São eles: o Núcleo de São Cosmo e São Damião e o Núcleo Monte Alegre. Segundo ele, os sócios da UDV pagam uma mensalidade e usam uniformes durante as cerimônias realizadas pela religião. A experiência - Mikosz relata sua experiência com o consumo do chá. “Eu experimentei o chá pela primeira vez em 2003 e foi para mim uma surpresa a maior sensibilidade e consciência que a bebida pode oferecer”. Ele explica que o ambiente é muito importante nesse tipo de situação. Durante o ritual, afirma ele, são colocadas músicas com letras que podem falar de Deus e de Jesus, “sempre com mensagens positivas”. “Na minha experiência eu via as imagens do que era dito, das letras das músicas”. Ele relata que antes do ritual são lidos documentos, que são como se fossem normas e estatutos da UDV. “As pessoas bebem o chá de livre e espontânea vontade para concentração mental e para vivenciar mais facilmente uma experiência espiritual. Mas para esses grupos esse estado aumenta muito a sua sensibilidade, funciona como um amplificador de sensações. Nesse momento você consegue fazer muitas reflexões sobre a sua vida pessoal”, afirma ele. |
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