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Embora todos considerem fundamental a parceria entre universidade e indústria para o desenvolvimento tecnológico do país, há que se reconhecer a existência de sérias barreiras culturais de parte a parte. Ao final de novembro do ano passado, Curitiba vivenciou um momento raro e digno de comemoração: quatro universidades, em conjunto com a Federação das Indústrias do Paraná (FIEP), colocaram à disposição da indústria paranaense e brasileira seus projetos de pesquisa com potencial de inovação. Foi a I Mostra de Pesquisa e Inovação Universidade e Indústria, realizada nas dependências da FIEP. A Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), a Universidade Federal do Paraná, a Universidade Positivo e a Universidade Tecnológica Federal do Paraná se deram as mãos para, num gesto inédito e compartilhado, expor suas pesquisas, visando construir parcerias com empresas interessadas em desenvolver produtos ou processos com alto teor de inovação. Decorrente de uma experiência prévia acontecida na PUCPR, a qual já havia realizado duas Mostras (2007/08) com muito sucesso, a proposta de parceria, além de aproximar a academia da indústria, foi também uma rara oportunidade para a construção de uma excepcional aproximação entre as universidades e seus pesquisadores, com reflexo na qualidade e volume de projetos expostos, o que tornou o evento ainda mais interessante ao setor produtivo. Não é outro o motivo que convenceu os organizadores a tornar a próxima Mostra um evento de proporções nacionais, com a presença de universidades e empresas de todo o país, tornando o Paraná um Estado pioneiro nesse tipo de iniciativa.
Mas qual o motivo de tamanha comemoração para um encontro que, em outros países, vem acontecendo há décadas como um caminho natural e indispensável para o desenvolvimento sustentável e soberano das nações?
Ciência, Tecnologia
e Inovação no Brasil Infelizmente, embora um sistema de pesquisa, sólido e bem-estruturado, seja indispensável para o desenvolvimento do país, ele, de forma isolada, não consegue cumprir esse papel, pelo fato de não ter vocação para a inovação. É imprescindível que o conhecimento produzido na academia, ou ao menos parte dele, seja utilizado na geração de novos produtos ou agregando-lhes valor tecnológico. Só assim é que se estruturam as condições necessárias ao desenvolvimento e soberania da nação. Quanto maior o nível tecnológico agregado a um produto, maior é a escala de conhecimentos produzidos, com maior nível de competitividade e preço, com maior geração de riqueza e, na maior parte dos casos, com geração de empregos nos diversos patamares da escala de produção do mesmo. Ou seja, é o uso criativo deste conhecimento que gera os novos produtos, o novo fármaco, a nova medicina, a nova agricultura, o avanço tecnológico em geral, a tecnologia. Com a agregação de valor tem-se a inovação tecnológica. Esta é a parte que falta acontecer no Brasil. Se o destino do conhecimento que produzimos se esgotar na publicação, o país continuará fornecendo preciosas informações para que outros países criem seus produtos com alto valor tecnológico, pelos quais teremos que pagar pesados ônus adiante. Mais que isso. Como sabemos que a pobreza é motivada, acima de tudo, pela inexistência de riqueza suficiente para ser distribuída, o país continuará fazendo a opção preferencial por continuarmos pobres. Não é por outra razão que o conceito de pobre na sociedade do conhecimento significa alguém excluído dos benefícios do conhecimento científico. Relação Universidade e Empresa - Benefícios e dificuldades Já no Brasil, embora a relação universidade e empresa seja considerada fundamental para o desenvolvimento tecnológico do país, há de se reconhecer a existência de sérias barreiras culturais tanto do lado da universidade como da indústria, que dificultam esse tipo de relação. Dificuldades que precisam ser superadas através do diálogo, cujo maior beneficiário será o Brasil. Exemplos de sucesso nesse tipo de parceria são fartos em países desenvolvidos como entre os que buscam alcançá-lo, como é o caso da Índia e China. Existe exemplo mais perfeito do que o Vale do Silício ou a Rota 128 de Boston, onde centenas de indústrias ligadas à economia do conhecimento, hoje presentes em todo o planeta, resultaram da convivência entre pesquisadores de universidades (Universidade de Stanford, MIT) e indústrias e grandes laboratórios? Há uma lista interminável de exemplos de sucesso nesse tipo de parceria em todas as áreas. Também no Brasil há exemplos da competência na criação de tecnologia, quando há planejamento e financiamento apropriados. Basta ver o sucesso das pesquisas desenvolvidas pela Embrapa, uma das grandes responsáveis pelo sucesso do nosso agronegócio, melhoramento genético animal, entre outros, da COOPE da UFRJ, com a tecnologia da exploração de petróleo em águas profundas, da EMBRAER, da FIOCRUZ, das pesquisas na área de biotecnologia, etc. Somente com a reversão deste quadro nacional, que poderia ser chamado de perverso pelos resultados negativos que traz para o país, poderemos também alterar a situação da localizacão dos pesquisadores das áreas de inovação (engenharias, tecnologias da informação, agroindústria, biotecnologia, etc.), hoje praticamente confinados na academia. Como não há demanda de doutores por parte do setor produtivo, a nossa pós-graduação dedica-se a formá-los para produzirem ciência e publicações e nada mais. É imprescindível romper este círculo, profundamente vicioso, por interpor-se no caminho do desenvolvimento do país. Os três atores do processo – academia (universidade/institutos de pesquisa), empresa e estado – devem juntar esforços nesta direção. Parcialmente publicado na Gazeta do Povo de 17/11/2009 |
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