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Waldemiro Gremski
é diretor de Pesquisa
e Pós-Graduação da PUCPR e de Ciência e Tecnologia do ICFÉ.


ANO 11 - ED 125 - FEVEREIRO DE 2010

 

Relação universidade e indústria:
Condição para o desenvolvimento do país

Waldemiro Gremski

Embora todos considerem fundamental a parceria entre universidade e indústria para o desenvolvimento tecnológico do país, há que se reconhecer a existência de sérias barreiras culturais de parte a parte.

Ao final de novembro do ano passado, Curitiba vivenciou um momento raro e digno de comemoração: quatro universidades, em conjunto com a Federação das Indústrias do Paraná (FIEP), colocaram à disposição da indústria paranaense e brasileira seus projetos de pesquisa com potencial de inovação. Foi a I Mostra de Pesquisa e Inovação Universidade e Indústria, realizada nas dependências da FIEP. A Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), a Universidade Federal do Paraná, a Universidade Positivo e a Universidade Tecnológica Federal do Paraná se deram as mãos para, num gesto inédito e compartilhado, expor suas pesquisas, visando construir parcerias com empresas interessadas em desenvolver produtos ou processos com alto teor de inovação. Decorrente de uma experiência prévia acontecida na PUCPR, a qual já havia realizado duas Mostras (2007/08) com muito sucesso, a proposta de parceria, além de aproximar a academia da indústria, foi também uma rara oportunidade para a construção de uma excepcional aproximação entre as universidades e seus pesquisadores, com reflexo na qualidade e volume de projetos expostos, o que tornou o evento ainda mais interessante ao setor produtivo. Não é outro o motivo que convenceu os organizadores a tornar a próxima Mostra um evento de proporções nacionais, com a presença de universidades e empresas de todo o país, tornando o Paraná um Estado pioneiro nesse tipo de iniciativa.


Waldemiro Gremski, durante a I Mostra de Pesquisa
e Inovação Universidade e Indústria).

Mas qual o motivo de tamanha comemoração para um encontro que, em outros países, vem acontecendo há décadas como um caminho natural e indispensável para o desenvolvimento sustentável e soberano das nações?


Ciência, Tecnologia e Inovação - Caminho para o desenvolvimento

Antes de mais nada é preciso frisar que, nos dias atuais, a importância da ciência, tecnologia, inovação e formação de recursos humanos para o desenvolvimento das nações alcançou um consenso jamais visto entre aqueles que planejam ações governamentais, visando o desenvolvimento sustentado de uma região, estado ou país. Bem precioso, caro, de difícil acesso e considerado assunto de segurança nacional por boa parte das nações, o conhecimento constitui-se no diferencial entre o desenvolvimento e o subdesenvolvimento de um país, entre a riqueza e a pobreza, a dependência e a independência, entre o acesso aos benefícios da cidadania e a exploração econômico-social, entre a inclusão e a exclusão. Sem o conhecimento o país torna-se um simples coadjuvante no processo econômico mundial, mero fornecedor de mão de obra barata, matéria prima e commodities, destinado à pobreza, fadado a ser uma economia periférica, tendo que sempre vender mais, para receber menos, além de correr os riscos inerentes a quaisquer choques ou crises internas ou externas.

Ciência, Tecnologia e Inovação no Brasil
E o Brasil – como está nesse contexto? Vivemos um verdadeiro paradoxo. De um lado a nossa produção científica, gerada em sua grande maioria (95%) nas nossas universidades e medida pelo número de publicações indexadas, vem crescendo a cada ano. Em 2008 o Brasil publicou 30.145 artigos, num inacreditável salto de 56% em relação a 2007 passando a ocupar o 13.º lugar no ranking mundial, respondendo por mais de 2.0% de toda a ciência produzida no mundo, superando países como a Suíça, Áustria, Rússia, entre outros. Por outro lado, a transformação desse enorme cabedal científico em bem-estar e riqueza está infinitamente distante de ser alcançada. Qual a razão dessa dificuldade?

Infelizmente, embora um sistema de pesquisa, sólido e bem-estruturado, seja indispensável para o desenvolvimento do país, ele, de forma isolada, não consegue cumprir esse papel, pelo fato de não ter vocação para a inovação. É imprescindível que o conhecimento produzido na academia, ou ao menos parte dele, seja utilizado na geração de novos produtos ou agregando-lhes valor tecnológico. Só assim é que se estruturam as condições necessárias ao desenvolvimento e soberania da nação. Quanto maior o nível tecnológico agregado a um produto, maior é a escala de conhecimentos produzidos, com maior nível de competitividade e preço, com maior geração de riqueza e, na maior parte dos casos, com geração de empregos nos diversos patamares da escala de produção do mesmo. Ou seja, é o uso criativo deste conhecimento que gera os novos produtos, o novo fármaco, a nova medicina, a nova agricultura, o avanço tecnológico em geral, a tecnologia. Com a agregação de valor tem-se a inovação tecnológica. Esta é a parte que falta acontecer no Brasil. Se o destino do conhecimento que produzimos se esgotar na publicação, o país continuará fornecendo preciosas informações para que outros países criem seus produtos com alto valor tecnológico, pelos quais teremos que pagar pesados ônus adiante. Mais que isso. Como sabemos que a pobreza é motivada, acima de tudo, pela inexistência de riqueza suficiente para ser distribuída, o país continuará fazendo a opção preferencial por continuarmos pobres. Não é por outra razão que o conceito de pobre na sociedade do conhecimento significa alguém excluído dos benefícios do conhecimento científico.

Relação Universidade e Empresa - Benefícios e dificuldades
Por outro lado, a universidade não tem vocação para cumprir a função de transformar a ciência que ela produz em inovação. É fora dela, é no âmbito empresarial que o conhecimento gerado na universidade deve ser transformado em produto com alto teor tecnológico agregado. Não há dúvida que o futuro pertencerá a quem for capaz de juntar a fronteira do conhecimento com a indústria, local por excelência da inovação. É o que já ocorreu nos países desenvolvidos.

Já no Brasil, embora a relação universidade e empresa seja considerada fundamental para o desenvolvimento tecnológico do país, há de se reconhecer a existência de sérias barreiras culturais tanto do lado da universidade como da indústria, que dificultam esse tipo de relação. Dificuldades que precisam ser superadas através do diálogo, cujo maior beneficiário será o Brasil. Exemplos de sucesso nesse tipo de parceria são fartos em países desenvolvidos como entre os que buscam alcançá-lo, como é o caso da Índia e China. Existe exemplo mais perfeito do que o Vale do Silício ou a Rota 128 de Boston, onde centenas de indústrias ligadas à economia do conhecimento, hoje presentes em todo o planeta, resultaram da convivência entre pesquisadores de universidades (Universidade de Stanford, MIT) e indústrias e grandes laboratórios? Há uma lista interminável de exemplos de sucesso nesse tipo de parceria em todas as áreas.

Também no Brasil há exemplos da competência na criação de tecnologia, quando há planejamento e financiamento apropriados. Basta ver o sucesso das pesquisas desenvolvidas pela Embrapa, uma das grandes responsáveis pelo sucesso do nosso agronegócio, melhoramento genético animal, entre outros, da COOPE da UFRJ, com a tecnologia da exploração de petróleo em águas profundas, da EMBRAER, da FIOCRUZ, das pesquisas na área de biotecnologia, etc.

Somente com a reversão deste quadro nacional, que poderia ser chamado de perverso pelos resultados negativos que traz para o país, poderemos também alterar a situação da localizacão dos pesquisadores das áreas de inovação (engenharias, tecnologias da informação, agroindústria, biotecnologia, etc.), hoje praticamente confinados na academia. Como não há demanda de doutores por parte do setor produtivo, a nossa pós-graduação dedica-se a formá-los para produzirem ciência e publicações e nada mais. É imprescindível romper este círculo, profundamente vicioso, por interpor-se no caminho do desenvolvimento do país. Os três atores do processo – academia (universidade/institutos de pesquisa), empresa e estado – devem juntar esforços nesta direção.
Esse foi o grande objetivo da I Mostra de Pesquisa e Inovação Universidade e Indústria, como também o será das próximas. Possibilitar que a academia, representada por pesquisadores de quatro universidades e a indústria, estabeleçam uma aproximação que traga benefícios no campo da tecnologia e inovação, gerando, em última instância, o verdadeiro desenvolvimento sustentável, trazendo, como resultado maior, a soberania do país. A certeza de que estava sendo inaugurado um novo tempo na relação universidade e indústria, com todas as vantagens que isso representa para o país, foi o que moveu as universidades participantes, juntamente com a FIEP, a apostar nesse ambicioso projeto. Projeto que, temos certeza, está apenas começando.

Parcialmente publicado na Gazeta do Povo de 17/11/2009

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