Dom frei Luiz Flávio
Cappio, 59, é bispo diocesano da
cidade de Barra (BA) e autor do livro "Rio São Francisco,
uma caminhada entre vida e morte" (editora Vozes, 1995).
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ANO 6 - ED 74 - NOVEMBRO DE 2005
Vida
para todos:
por isso fiz a greve de fome
Luiz Fávio Cappio
Voltarei ao jejum, com mais
determinação
ainda, se o acordo
firmado com o governo
não for cumprido
Foi em favor da vida que fiquei 11 dias em jejum
e oração
na tão querida capelinha de São Sebastião, em
Cabrobó (PE). Motivou-me o compromisso, baseado no Evangelho,
que tenho com os pobres, os do rio São Francisco em primeiro
lugar, porque me são mais próximos, há mais de
30 anos, por opção de franciscano, sacerdote e bispo
desde 1997. Compromisso com a vida do próprio rio São
Francisco, tão degradado.
"Rio vivo, povo vivo. Rio morto, povo morto", gritamos milhares
de vezes na peregrinação da nascente à foz do
São Francisco, entre outubro de 1993 e outubro de 1994. Vida
ameaçada pelo atual projeto de transposição. Mas
meu compromisso é também com a vida de toda a população
do semi-árido, principalmente a dos mais pobres, enganados com
tal projeto.
Era essa minha intenção, bastante clara na declaração "que
todos tenham vida", que fiz depois de longo debate, no acordo
que me levou a suspender o jejum e que celebrei com o ministro Jaques
Wagner, em nome e com o assentimento do presidente Lula: "permitir
uma ampla discussão, participativa, verdadeira e transparente
para que se chegue a um plano de desenvolvimento sustentável,
baseado na convivência com todo o semi-árido, para o bem
de sua população, priorizando os mais pobres. (...) que,
através desse amplo debate, cheguemos a soluções
que promovam a união e a concórdia para o povo brasileiro,
especialmente para os irmãos e irmãs do semi-árido".
Portanto não basta dizer "não" à transposição.
Não basta só a revitalização do rio. É preciso
um plano de desenvolvimento verdadeiramente sustentável, que
beneficie toda a população do semi-árido, tanto
os que estão próximos do rio como os que estão
longe dele. Um bom plano exige que se pense o semi-árido em
toda sua extensão, do norte de Minas ao Ceará, do agreste
pernambucano ao Maranhão, com toda sua diversidade geográfica,
social e ambiental. São aproximadamente um milhão de
km2 e 30 milhões de pessoas.
Os mais pobres estão nas cidades, mas formam quase toda população
rural, espalhada por todo o território. São os que quase
não têm terra, bebem águas podres de barreiros
e de açudes, não têm a mínima infra-estrutura
para enfrentar o clima do semi-árido e estariam fora do projeto
de transposição. Pobres que estão não muito
distantes do próprio rio São Francisco. Estes devem ser
prioritários para o investimento público no semi-árido.
Portanto é não só uma questão técnica
mas ética.
A transposição se colocou como um "fantasma" que
não permite uma visão ampla do semi-árido, pois
absorve mentes, energias e recursos, como se abrangesse o todo e fosse
a salvação para todos. Ela abrangeria apenas 5% do semi-árido
brasileiro e beneficiaria 0,23% da população do Nordeste,
segundo críticos.
Será, na verdade, mais problema para a população
do campo e da cidade, uma vez que elevará o custo da água
disponível e estabelecerá o mercado da água. Não
vai redimir o Nordeste, como apregoam seus promotores. Tenta-se justificar,
equivocadamente, um Nordeste setentrional separado do todo.
Pensando
o semi-árido como um todo, poderemos conferir exatamente
qual poderia ser ou não a utilidade e a necessidade de uma obra
de tamanho gasto público, para um país endividado como
o nosso, e de tanto risco social e ambiental.
É preciso pensar também o rio. Cortado por barragens,
desmatado por carvoarias, poluído por esgotos e agrotóxicos,
assoreado em toda a sua extensão, o São Francisco pede
alento, um pouco de paz e um pouco de sossego para recuperar a vitalidade.
Pede investimento. E suspensão dos projetos degradantes. Não
há verdadeira revitalização se continuar a degradação
dos solos, da vegetação e das águas da bacia,
como nos cerrados do oeste baiano.
É preciso respeitar também sua população,
que suporta o ônus de todos os projetos impostos à grande
bacia. Aqui também mora gente que merece consideração
e respeito.
Busquemos um plano que una novamente a nação nordestina.
A transposição nos divide. A revitalização
do São Francisco e do semi-árido nos une.
Quando iniciei o jejum, declarei que, "quando a razão se
extingue, a loucura é o caminho". Fico feliz que meu gesto,
suas razões e sua "loucura" tenham sido compreendidos
e apoiados por tanta gente. Agradeço sinceramente. Tenho rezado
por todos. Não me canso de louvar a Deus por tanta graça
recebida.
"Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância" (João,
10, 10).
Fiz dessas palavras centrais do Evangelho meu lema de bispo. Só quis
ser fiel a ela, com a radicalidade que a questão exigia. E voltarei
ao jejum e a oração, com mais determinação
ainda, se o acordo firmado, em confiança, com o governo não
for cumprido. E sei que não estarei sozinho.
E voltarei ao jejum e a oração, com mais determinação
ainda, se o acordo firmado, em confiança, com o governo não
for cumprido. E sei que não estarei sozinho.
Texto
extraído da Folha de São
Paulo, 10 de outubro de 2005
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