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EVARISTO EDUARDO DE MIRANDA, pesquisador da Embrapa, diretor do Instituto Ciência e Fé e autor do livro “Maravilhas a Caminho” pelas Edições Loyola

 

 


ANO 7 - ED 75 - DEZEMBRO DE 2005

O guardinha

Evaristo E. de Miranda

Que decepção! O menino revelara-se um ladrão. E olha que não foi falta de orientação. Fora admitido na empresa como guardinha. É... guardinha. Devia guardar. Roubava. Prestava serviços de auxiliar de escritório, de contínuo.

Comprava coisas na padaria, pagava contas no banco, entregava e arquivava papéis. Entre impressos e memorandos, em meio às escrivaninhas, andares e sorrisos, levava um sabonete para casa, arquivava relógios e canetas no bolso e na sua pasta... Bem, na pasta, discreta e ampla como o infinito, ele guardava vasinhos e bibelôs de secretárias, latinhas de refrigerante da geladeira do chefe, maço de cigarros da recepcionista e outras coisas de mil e uma utilidades.

Morava perto. Numa favela. No começo todos quiseram ajudá-lo. Nem condução, ele gastava para vir trabalhar. Vinha de a pé. Tinha parado de estudar. Ganhava quase um salário mínimo. Difícil dizer o que é algo menor que o mínimo.

Com a descoberta de seus furtos, a cúpula da empresa decidiu demiti-lo. Até um rolo de papel higiênico (ou dois), ele teria surrupiado. Alguém ponderou: ele ainda é uma criança, um adolescente de dezesseis anos. Ele era de menor. É de pequenino que se torce o pepino, contra-argumentou a gerente de recursos humanos. A favela da rua Moscou onde morava foi motivo de discussões sociológicas e confrontos de paradigmas. Para alguns, ele seria uma ponta de lança, um potencial espião, aliado da pior das bandidagens. Segundo outros, demiti-lo significaria empurrá-lo para o crime. O chefe da auditoria queria verificar e documentar o quê, efetivamente, havia desaparecido. Enquanto a assessoria jurídica tentava esclarecer se o moleque roubava ou furtava, outros discutiam quem seria a verdadeira vítima: os funcionários ou o próprio adolescente. E o projeto de responsabilidade social da empresa, indagou alguém.

Um gerente, dos mais atarefados, se propôs a ficar com o rapaz, empregando-o (e controlando-o) por mais uns meses. Era uma segunda chance.

Responsabilidade dobrada. Melhor não dizer nada para ele. Nem para ninguém. Todos concordam. Mais ou menos. Agora o problema é todo seu. Eu sei. Tome cuidado. Tomarei. Você vai se arrepender. Pode ser. Olha, não é por nada, mas desde o primeiro dia não fui com a cara desse moleque. Ah é. Tranque bem suas gavetas. Vou pensar nisso. Não deixe nada de valor à vista. A ocasião faz o ladrão. Obrigado pelo conselho. Você deveria ter uma boa conversa com ele, antes de tudo. É, e dar uma dura. O gerente promete: jamais tocará nesse assunto com o guardinha. E cumpre.

No começo tudo bem. Nada de anormal. Troféus, bombons, rádios, sabonetes, enfeites, CDs e até objetos de valor adormeciam e acordavam no mesmo lugar, adornando mesas de secretárias, aquelas parecidas com alguns presépios.

Contagens e verificações sutis nada detectavam. Até que um dia... Bom, um dia, bateu uma fome no gerente, no meio do expediente. Ele despachou o guardinha na padaria, com uma nota de cinco reais e uma listinha: dois pães de queijo e uma latinha de chá mate. Missão cumprida: os pães chegam quentinhos, o chá gelado e o troco... bem, no troco faltavam 20 centavos. O gerente observa e dá 40 centavos de caixinha. O dobro.

Dias depois, nova missão. Faltam 15 centavos. A gorjeta é de 30. As missões se sucedem. Faltam 50 centavos, recebe um real de caixinha. Faltam 25 centavos, recebe 50. Numa compra maior, o guardinha, hesitante, entrega os produtos, deixa o troco e sai rapidamente. Faltava um real. É chamado pelo gerente. Este abre a carteira e lhe dá dois reais. E assim seguem as coisas. Em paradoxal e silenciosa duplicidade. Enviado a comprar miudezas e material de escritório, o guardinha retorna reflexivo e age de forma estranha. Aproxima-se do gerente.

Calmo, firma seu olhar nos olhos de seu superior e diz em voz clara e lenta: seu troco. O gerente confere com um olho, enquanto o outro fica fixo no seu subalterno. Faltavam cinco reais. Seu olho móvel abandona o troco, percorre o uniforme desbotado e desgastado do guardinha. Fixa seus olhos duplos no par de olhos do adolescente. Também diz em voz clara e lenta: sua gorjeta. Eram dez reais.

Passaram-se dias, semanas, meses, séculos e invernos. Nunca mais faltou um centavo no troco. Tudo permanecia intacto. Gavetas começaram ser destrancadas. Primeiro as da cabeça, aquelas das bocas e mentes. Colegas confiam e conversam com o guardinha. Passou a ser conhecido. Pelo nome. Seu salário aumentou. O Natal foi marcado por troca de presentes. Até amigo secreto ele teve. No Ano Novo, o guardinha anuncia aos colegas sua decisão de retomar os estudos. Mas o horário não dá. Aconselham pedir autorização ao gerente. Ele capricha no memorando. Explica, justifica e pede para sair 15 minutos mais cedo, todo dia. Logo recebe a resposta: autorizo, 30 minutos. Perto do vestibular, escreve novo e caprichado memorando: pede para faltar nas sextas-feiras de novembro. Precisa estudar mais para os exames. Dia seguinte: autorizo, segundas e sextas. E não é que o guardinha passa no vestibular de mecatrônica.

Escola boa, boa. Curso caro, caro. Não dá para pagar. Pensa em desistir. Pela primeira vez, cogita falar diretamente com o gerente. Quem sabe ele ajuda. Talvez tenha alguma idéia. Pede uma entrevista. Foi seu primeiro, único e último diálogo com o gerente. Nervoso, ele explica seu problema. Recebe orientação lacônica, quase ríspida: escreva uma carta ao serviço social da faculdade salesiana, com cópia para o diretor. Apresente documentos e justifique seu pedido de bolsa de estudos. Talvez consiga 30 ou até 50% de redução nas mensalidades. O guardinha agradece e sai.

Esmera-se no português. Nos argumentos. Nada o deixa satisfeito. Fica nervoso com seu texto. Não convence, nem se convence. Passa na secretaria da faculdade. Fica sabendo que o diretor é padre. Tudo se complica. No limite do prazo para a matrícula, decide contar toda sua história. E conta. Sua carta parece um conto, um romance. Conclui afirmando: com 50% de bolsa conseguiria pagar seus estudos em engenharia mecatrônica e daria para viver, lá na favela, aquela da rua Moscou. Os dias duram semanas. As semanas, meses. O serviço social da faculdade repete sempre o mesmo: o caso está nas mãos do diretor. O assunto é muito delicado. Aproxima-se o início das aulas. E enfim sai a resposta, com assinatura, carimbo e tudo: 100% de bolsa.

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