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LUIZ FELIPE PONDÉ, filósofo, professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião e do Departamento de Teologia da PUC-SP e da Faculdade de Comunicação da FAAP, é autor de "Crítica e Profecia, Filosofia da Religião em Dostoiévski", entre outros livros.
ponde@pucsp.br

Trancrito da Folha de São Paulo de 16/01/06


ANO 6 - ED 76 - JANEIRO DE 2006

A tensão contra a metafísica do desejo

Luiz Felipe Pondé

É uma pena que parte da reflexão sobre o papado se perca em clichês, restos de uma modernidade às vezes incerta e inútil

Em meio à disputa pelos restos das utopias e concepções de mundo que a modernidade produziu nos últimos 200 anos, a metafísica do desejo e do sujeito é uma das mais populares.

No plano social, essa metafísica se constrói ao redor de uma malha de indivíduos supostamente autônomos, orientados pela ética utilitarista do bem-estar, definida como redução do sofrimento a qualquer custo.
Na cultura, essa malha representa um discurso organizado ao redor do culto ao sucesso e à eficácia administrativa da vida ativa (mesmo que a indústria cultural do espírito ofereça produtos contemplativos), revelando sua condição de subproduto sublime da mercantilização abstrata.
No plano político, a democracia e seu consensualismo lobista se transforma, passo a passo, numa sociedade devorada pela lógica jurídica positiva como último reduto da razão moral.

E no campo da práxis especulativa cristã, a crítica moderna à religião (Feuerbach, Nietzsche, Marx e Freud) se tornou hegemônica: termos como alienação, ressentimento, inconsciente, neurose e ideologia contaminaram o vocabulário dos teólogos, reinterpretados como chaves hermenêuticas para compreensão da libertação profética hebraica.
A partir de 1978, com João Paulo 2º, a Igreja Católica estabeleceu um processo de tensão para com essa modernização ligeira. A transformação de Joseph Ratzinger em Bento 16, em 2005, aprofunda esse processo. Qualquer previsão é apressada diante de uma instituição que lê sua história como um processo que se dá sob a tutela de Deus em meio à eternidade. Podemos, sim, tentar compreender alguns dos nós dessa tensão.

No plano da ordem coletiva, a tendência à invasão do consensualismo das bases encontra na igreja de Bento 16 um sério obstáculo (como já encontrava em João Paulo 2º): o atual papa se manifestou várias vezes contra a idolatria da democracia, apontando seus limites.
Essa reflexão retoma algumas críticas que o próprio Platão reconheceria como consistentes. O risco da sofística e da retórica é endêmico num mundo que não tem nenhum outro modo de entender a razão política que não o somatório de opiniões. A necessidade de hierarquia soa blasfêmia numa sociedade afogada no perspectivismo do gozo estético. Esse discurso da obediência tende a ser vivido por grande parte das pessoas como a "mão pesada" do mundo pré-moderno.

No campo ético, além da mesma recusa da lógica do consenso, a retomada da santidade (essa louca da casa para grande parte da teologia, que a vê como sintoma masoquista ou manipulação ideológica) como referência instaura um profundo estranhamento até mesmo para uma teologia que se fez sociologia do humanismo: o bem-estar não é critério evidente para uma religião que, apesar de ter tentado por 200 anos esquecer a teologia da paixão, tem no sofrimento uma das suas principais ferramentas de produção da consciência prática.

A lógica da santidade decompõe o desejo pela felicidade centrada na economia egóica porque vê o amor próprio como um dos mais sérios obstáculos à saúde da alma. Nessa chave, questões como "direitos do desejo" não estabelecem a justa ordenação da vida.

Uma antropologia agostiniana, centrada na necessidade da correta ordenação da vontade ascende ao centro da reflexão. Transcender em direção à superação da gravidade do eu torna-se foco da preocupação ética. É fácil imaginar a tensão de uma tal postura diante de uma sociedade organizada a partir da metafísica dos "direitos do eu".

Desdobramentos dessa tensão tendem a ser mais dramáticos, por exemplo, quando aplicados a questões como a da sexualidade (essa obsessão contemporânea) descolada da idéia de fertilidade: recusa da contracepção, do mercado da reprodução, da legalização do homicídio de embriões e do homossexualismo "prático" etc.

Uma agenda claramente contra o que a modernidade tem considerado evidências éticas e que exige mais lentidão nas fórmulas de conduta.
Mas, talvez, um dos núcleos de maior tensão seja a recusa da idéia de religião como mera produção cultural, o que implica a crítica do dogmatismo relativista e nos pressiona em direção ao sofrimento que é a busca do discernimento. Quando entendido como cultura, o cristianismo se acomoda à mesma lógica que rege a indústria do samba ou a moda dos restaurantes étnicos. A idéia de que esteja em questão a "verdade" (e que faz parte desta a correta compreensão da necessidade da vida cultural) numa discussão religiosa, e não simplesmente hábitos históricos e contextuais, fruto de práticas aleatórias (assim como o mel na história das abelhas), é já parte desse mal-estar.

É uma pena que grande parte da reflexão sobre o significado deste papado se perca em clichês, restos de uma modernidade às vezes incerta e inútil.

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