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ANO 7 - ED 77 - FEVEREIRO DE 2006
ENTREVISTA
Deficiência: conhecer para poder agir
Por Ana Luzia Palka
Uma das maiores autoridades da Igreja nas questões que envolvem as pessoas com deficiência, o padre Ricardo Hoepers foi designado para coordenar as atividades da Campanha da Fraternidade em Curitiba. O seu trabalho na Pastoral dos Surdos foi o que o credenciou a assumir essa missão. "Estar perto dos surdos é algo que me toca muito. É muito mais do que assimilar conhecimento teórico sobre o assunto. Eu convivo com essas pessoas. Elas têm me ensinado a ser mais humilde e tolerante", diz. A paróquia São Francisco de Paula, onde o padre Ricardo atua, acabou se transformando num ponto de encontro dos deficientes auditivos, especialmente aos sábados à tarde, quando a missa é rezada na linguagem dos sinais.

O padre Ricardo Hoepers nasceu em Curitiba, em 1970, e realizou sua formação religiosa no Seminário São José. Estudou Filosofia na Universidade Federal do Paraná, cursou Teologia no Studium Theologicum, fez especialização em Bioética na Universidade São Camilo, de São Paulo, e mestrado em Educação na Universidade Católica do Paraná. Até o ano passado foi o secretário nacional da Pastoral dos Surdos. Atualmente é o coordenador geral do clero da Arquidiocese de Curitiba, capelão do Hospital São Vicente e membro do Comitê de Ética e Pesquisas em Seres Humanos da UFPR
CIÊNCIA E FÉ - O tema adotado pela Campanha da Fraternidade é bastante oportuno. Como as organizações e entidades que atuam nessa área receberam a proposta?
Pe. Ricardo Hoepers - Todos os grupos que trabalham com pessoas deficientes estavam querendo que isso viesse à tona. A Campanha da Fraternidade é uma grande oportunidade para conhecermos melhor essa realidade. Mas quando você olha, percebe que há um leque de realidades diferentes. Quando se fala em surdos, é um mundo, uma cultura, uma maneira de ser, uma maneira de conviver na sociedade, uma maneira de se expressar. Quando se fala em paralisia cerebral, é outro mundo. Quando se fala em síndrome de Down ou deficiências mentais, a realidade é outra. Pedagogicamente, o trabalho é diferente, mas cada um desses grupos tem uma riqueza extraordinária que deve ser conhecida. Outro grande ponto da campanha é mostrar que essas pessoas não são incapazes. Deficiência não é sinônimo de incapacidade.
CIÊNCIA E FÉ - Preconceito e discriminação são atitudes habituais em relação às pessoas com deficiência. Como a campanha pretende enfrentar esses comportamentos?
Pe. Ricardo Hoepers - As pessoas normalmente têm três tipos de relação com o deficiente: ou sente repulsa, tem medo, não quer nem saber de chegar perto; ou tem pena, dó, e acha que não pode fazer nada para mudar essa situação; ou tem o que chamamos de um paternalismo exagerado - faz tudo pelo deficiente e não lhe dá autonomia. Para enfrentar essas situações, a campanha propõe um método: ver, julgar e agir. Como trabalhar com as necessidades de um deficiente auditivo? Conhecendo a realidade dele. Vá lá, se aproxime, pergunte como ele gostaria de ser tratado. O primeiro passo é quebrar a nossa própria barreira e enfrentar o medo de se aproximar.
CIÊNCIA E FÉ - A campanha também propõe que as pessoas com deficiência assumam uma responsabilidade nessa luta.
Pe. Ricardo Hoepers - O lema da campanha - "Levanta-te e vem para o meio!" - foi muito bem escolhido. Esta é uma frase que Jesus disse para um homem que estava com a mão atrofiada, sentado na frente da sinagoga e incapacitado pela sociedade. O lema chama a pessoa com deficiência para mostrar a sua realidade e dizer como gostaria de ser tratada. Não adianta fazermos leis de gabinete se não ouvirmos o que essas pessoas têm a dizer. Trazer para o meio significa ajudá-las a serem protagonistas da sua história. Inclusão não é só estar junto, passar a mão na cabeça, mas é dar autonomia. A pessoa com deficiência não quer ser tratada com paternalismo, com comiseração. Ela quer ter a liberdade de viver numa sociedade e ser tratada com dignidade.
CIÊNCIA E FÉ - As instituições que atendem pessoas com deficiência no Brasil têm crescido, têm se especializado e são atuantes, mas que dificuldades ainda enfrentam?
Pe. Ricardo Hoepers - Essa é a grande cruz. Nós, brasileiros, somos aquele "coração mole", que se emociona, mas logo esquece. Nossa cultura infelizmente ainda é assim. Não há perseverança.. Por outro lado, nó temos políticas muito mal definidas em relação a essas organizações. Eu diria que hoje, se tem alguém que merece o aplauso, são as entidades que trabalham com pessoas com deficiência, porque elas de fato desenvolvem um processo permanente, com perseverança. Estão no dia-a-dia, convivendo com os deficientes, lutando para conseguir verbas. Nessa campanha, é nosso papel também mostrar para a sociedade que as instituições têm um trabalho sério, apesar de todas as dificuldades para se manter.
CIÊNCIA E FÉ - Existem modelos em outros países que podem ser seguidos?
Pe. Ricardo Hoepers - Nos países mais desenvolvidos há uma participação mais efetiva. As pessoas com deficiência têm mais possibilidades de se manifestar, de estar presente no desenvolvimento das leis, porque há um projeto educacional melhor. Nós falhamos já na base. A nossa inclusão está capenga. A pessoa com deficiência está sendo colocada na sala de aula, mas muitas vezes os professores não estão preparados, a pedagogia não é adequada. Nós fazemos a lei para que haja inclusão, mas não damos condições na base para que esse movimento aconteça. Isso os países mais desenvolvidos já superaram, porque trabalharam na base, na educação, e é pela educação que conquistamos uma sociedade melhor.
CIÊNCIA E FÉ - Quais as perspectivas de trabalho para as pessoas com deficiência no Brasil?
Pe. Ricardo Hoepers- Apesar de já existirem leis no Brasil que garantem vagas para deficientes, a perspectiva de trabalho para essas pessoas ainda é muito pequena. As empresas não têm estrutura adequada e os demais funcionários não são preparados para conviver com a deficiência. Aí vem a frustração. Dizem que não dá certo trabalhar com deficiente. Mas não é que não dá certo, e sim o processo foi conduzido de uma forma errada. Mercado de trabalho e acesso à educação são dois pontos fundamentais para a garantir a inclusão social das pessoas com deficiência. A psicologia do trabalho nos mostra que toda pessoa pode desenvolver alguma coisa. Não existe possibilidade de alguém não poder fazer nada.
CIÊNCIA E FÉ - E a pessoa com deficiência, ela também está consciente da sua capacidade?
Pe. Ricardo Hoepers - Não, e este é um outro problema a ser enfrentado. Por isso, o lema da campanha "Levanta-te e vem para o meio!" é importante. A gente traz o deficiente para a sua responsabilidade. Em outras palavras, o lema quer dizer: "você pare de choramingar, pare de ficar pedindo e de se sentir o coitadinho, e venha mostrar a sua possibilidade de ação". É uma campanha que vai mexer com essas pessoas também. Muitas vezes eles se menosprezam, têm uma auto-estima mais baixa, devido à sua situação, ou à família que nunca deu apoio. E é isso que não pode acontecer. Se a sociedade tem preconceito e a pessoa com deficiência aumenta esse preconceito sobre ela mesma, então fica tudo pior.
CIÊNCIA E FÉ - Na área médica e da saúde, também é necessária uma mudança de comportamento?
Pe. Ricardo Hoepers - Também. O texto-base da campanha toca num ponto muito sério ao abordar a questão da gestação de uma criança com deficiência. Há muita tendência para o aborto. Entramos no campo da bioética e nos deparamos com a eugenia, a idéia da "raça pura". Então, só pode viver nesse mundo quem é "perfeito"? Essa é uma cultura muito perigosa. O que pedimos é que os médicos exerçam a sua fraternidade, dêem o seu apoio, mostrem aos pais as possibilidades de convivência tranqüila com essas crianças, e jamais incentivem o aborto.
CIÊNCIA E FÉ - Como coordenador da Pastoral dos Surdos, o senhor conhece de perto esse universo. Como tem sido a luta dos deficientes auditivos pelos seus direitos?
Pe. Ricardo Hoepers - Os surdos já têm uma conquista social bastante interessante, apesar de haver ainda muito preconceito com a linguagem de sinais. Os olhos dos surdos nos trazem um mundo diferente que nós não conhecemos. Por isso, hoje se fala em "cultura surda". Dentro da Igreja estamos trabalhando para que toda diocese tenha a sua pastoral dos surdos, de forma que eles possam realizar cursos de batismo e casamento, tenham acesso aos sacramentos e à confissão, inclusive. Eles estão conquistando espaço dentro da Igreja Católica, mas é bom ressaltar que os batistas têm um trabalho maravilho, os testemunhas de Jeová também. Existem grupos de surdos judeus, surdos luteranos e muçulmanos, todos estão de alguma maneira conquistando espaço dentro da sua religião.
CIÊNCIA E FÉ - Por que aos surdos foi negado, durante tanto tempo, o acesso ao conhecimento?
Pe. Ricardo Hoepers - Por não se acreditar que a linguagem dos surdos é uma linguagem como qualquer outra. Considerava-se uma linguagem primitiva, mas não é. Existe uma gramática da linguagem dos sinais, com sintaxe, morfologia, toda estrutura de qualquer outra língua. Temos a Linguagem Brasileira de Sinais (Libras), assim como existem a linguagem americana de sinais, a linguagem francesa ... Há também outros métodos de aprendizagem, como o da leitura labial. Com esses métodos, eles têm 100% da aquisição do conhecimento. Os surdos só precisam ser melhor compreendidos.
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