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ANO 7 - ED 78 - MARÇO DE 2006


Quanto vale uma gota?

Por Romeu Bruns

Perspectiva de escassez da água põe em discussão o controle público ou privado de um bem considerado essencial para a vida

A prática jornalística manda não colocar números em excesso no texto para não dificultar o entendimento do leitor. Mas, vez ou outra, é um recurso que pode servir para dar a dimensão de um problema que afeta a todos que estão acostumados a se relacionar com a água simplesmente abrindo a torneira e pagando a tarifa uma vez ao mês.

Estamos em um planeta com 70% da superfície cobertos de água. Pensar em escassez parece incoerência. Mas 97,5% dessa água é salgada, está nos oceanos. Dos 2,5 pontos percentuais que restam, a maior parte (68,9%) encontra-se nas calotas polares e geleiras, 29,9% constituem as águas subterrâneas e 0,9% é relativo à umidade dos solos e pântanos. Rios e lagos representam apenas 0,3% do total de água doce do planeta. Mesmo assim, é mais do que suficiente para abastecer toda a humanidade.

"A água é tão essencial que não deve ser simplesmente governada pelo mercado", resume Tony Clarke, presidente do Instituto Polaris do Canadá e vencedor do prêmio Nobel alternativo pela sua luta pela água.

Mas, de acordo com pesquisas da Organização das Nações Unidas (ONU), em meio século, 45% da população mundial sofrerão com a falta de água. Isso já é uma realidade em muitas regiões do planeta. Atualmente, 80% das mortes e das enfermidades no chamado mundo em desenvolvimento são causadas pela falta de água potável.
Expansão industrial e agrícola, crescimento da população, degradação dos mananciais, alteração do ciclo hidrológico - provocado principalmente pela urbanização e desmatamento - são alguns dos motivos para essa escassez. Nesse contexto, o Brasil está em uma situação privilegiada. As estimativas variam, mas acredita-se que o país detenha pelo menos 14% de toda a água potável do planeta.

Talvez por essa abundância, o brasileiro não está contribuindo para a preservação dos recursos hídricos. O destino da água nos domicílios, por exemplo, cerca de 200 litros diários: 27% vão para cozinhar e beber, 25% para tomar banho e escovar os dentes, 12% para lavagem de roupa; 3% para outras tarefas (como lavagem de carro, por exemplo) e finalmente 33% são utilizados em descarga de banheiro. Somente o reaproveitamento da chamada "água cinzenta" (resultantes de lavagens e banho) para descarga de latrinas resultaria numa economia de um terço de todo o consumo doméstico. Mas esse é o desperdício dentro de casa. Há, ainda, a perda com vazamentos na rede de distribuição. Em lugares como Fortaleza (CE), por exemplo, 70% da água tratada são perdidos antes de chegar às torneiras.

E o consumo de 200 litros diários, a propósito, é muito distante do que a ONU prevê para daqui a 50 anos, na maioria dos países. Acredita-se que muitas regiões não atingirão os 50 litros diários, considerados essenciais para atender às necessidades humanas. Para finalizar a lista de números, basta lembrar que o ser humano é composto em grande parte de água. O índice é de 98% em um feto, quantidade superior ao percentual de água na composição dos oceanos. Chega a 80% em um bebê, passa por 70% em um adulto para chegar em torno dos 60% em um velho. "Viver é desidratar", afirmou o pesquisador em Geomancia e membro da Academia Livre Internacional das Águas, Franklin Gonçalves. Ele foi um dos palestrantes do seminário Internacional Gestão Pública da Água, que a Sanepar promoveu para marcar o Dia Internacional da Água, em 22 de março. Gonçalves, assim como os demais palestrantes, defenderam o acesso à água como um direito universal do ser humano. Nesse contexto, todos marcaram posição contrária à privatização dos serviços de água e saneamento. Não que empresas privadas não possam ter uma participação nesse mercado. Mas o controle, sublinharam, deve permanecer público.

O diretor administrativo da Sanepar, Péricles de Holleben Mello, afirmou que o Paraná tem servido como exemplo em relação à gestão pública. "A empresa vinha caminhando para a privatização mas reverteu esse quadro. Antes, cerca de 30 mil famílias pagavam a tarifa social, de 5 reais por mês. Hoje o benefício chega a mais de 340 mil famílias", disse.

Na opinião do palestrante Tony Clarke, é necessário assegurar que a água chegue a todas as pessoas como um direito humano fundamental. E a única maneira de fazer isso não é através do mercado, mas de companhias financeiramente saudáveis e públicas, que entregam água tendo esse direito como referência. Clarke é presidente do Instituto Polaris do Canadá e vencedor do prêmio Nobel alternativo por sua luta pela água. "A água é tão essencial que não deve ser simplesmente governada pelo mercado", resume. Para que haja respeito por esse recurso natural tão necessário à sobrevivência humana, as pessoas devem resgatar sua relação com a água como algo sagrado. Foi o que defendeu Franklin Gonçalves. "A dimensão do sagrado incorpora naturalmente o respeito, a proteção, o cuidado, que são excluídos quando você trata apenas de usar alguma coisa. Um índio não usa a água, ele dialoga com ela. Eu não vejo como podemos sair dessa ameaça que criamos para a sobrevivência do planeta sem essa recuperação do sagrado na relação com água e com a terra", disse o pesquisador.

"...É surpreendente que muitas pessoas por aqui não saibam, por exemplo, que estamos sobre a maior reserva de água potável do planeta, o Áqüífero Guarani", disse Marcos Terena, presidente da Organização Indígena Comitê Intertribal.

Para reforçar essa idéia, a tarde de palestras contou com um representante do povo que ensinou os colonizadores do Brasil a tomarem banho. "No Brasil, temos tanta água que a desvalorizamos.E é surpreendente que muitas pessoas por aqui não saibam, por exemplo, que estamos sobre a maior reserva de água potável do planeta, o Aqüífero Guarani", disse Marcos Terena, presidente da Organização Indígena Comitê Intertribal.

Trata-se do maior manancial de água subterrânea do planeta, que abrange desde o norte de São Paulo, passando pelo Mato Grosso do Sul e estados do Sul, Paraguai, Argentina e Uruguai. Apesar de ainda não se conhecer exatamente o seu potencial, estima-se que existam mais de dois mil poços perfurados no aqüífero, com profundidades entre 100 e 300 metros, e algumas centenas de outros em seus domínios confinados, com profundidades entre 500 e 2 mil metros. Os governos dos países envolvidos estão começando a se mexer para tentar evitar a superexploração e a poluição desse manancial. O projeto conjunto de Proteção Ambiental e Gestão Sustentável do Sistema Aqüífero Guarani é financiado pelo Global Enviromental Facility (GEF) e contará com a verba de US$14 milhões, a ser repassada pelo Banco Mundial (Bird). Clarke considera que os governos vão gradualmente perceber de que se trata de uma questão que está unindo pessoas em todo o mundo. "Há uma tendência crescente, as pessoas estão finalmente despertando e entendendo que há uma ameaça ao acesso que elas têm à água. Existem companhias que estão na tocaia, esperando oportunidades para lucrar muito com a privatização de serviços de água. Então, os governos e os partidos correm o risco de serem descartados, simplesmente por alimentar a idéia de privatizar esses serviços", afirmou o escritor canadense.

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Veja também a matéria "Conferências Mundiais de Biossegurança e Biodiversidade", de Alzeli Basseti

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