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ANO 7 - ED 78 - MARÇO DE 2006


Fraternidade e pessoas com deficiência?

Por Ana Luzia Palka

Evaristo Eduardo de Miranda (foto) realiza palestra em Curitiba sobre o tema da Campanha da Fraternidade, abordando aspectos humanistas e espirituais relacionados ao universo das pessoas com deficiência

O professor, agrônomo e ambientalista Evaristo Eduardo de Miranda foi o palestrante convidado pela Universidade Católica do Paraná para o lançamento da Campanha da Fraternidade 2006 nos meios acadêmicos. A palestra, realizada em meados de março, no teatro da PUC-PR, abordou a questão da deficiência a partir de uma visão humanista e espiritual. Autor dos livros "Corpo: Território do Sagrado" e "Maravilhas a caminho: acolher um deficiente, viver nossas deficiências" (Ed. Loyola, 2005), o professor teve uma participação decisiva na confecção do texto base da campanha da CNBB.

A condição de deficiência, na abordagem de Evaristo Eduardo de Miranda, é inerente ao homem e à vida. "Se Deus te abençoar e te der 80 ou 90 anos de vida, você vai ser um deficiente", diz o professor. Alguns entram na deficiência no momento da concepção, outros no momento da gestação e do parto, e há aqueles que adquirem a deficiência ao longo da vida, por um acidente. "Se você viver bastante, também vai entrar na deficiência visual, auditiva, mental, sensorial e motora. Por isso, a deficiência é uma benção", explica, lembrando que a tradição bíblica mostra que grandes líderes e juízes estão sempre associados à deficiência. "Deus não escolhe os capacitados, ele capacita os escolhidos".

A campanha da fraternidade é oportuna, na visão de Evaristo de Miranda, porque o período da quaresma evoca à conversão, o que significa "mudar de rumo". A Campanha da Fraternidade propõe que os brasileiros mudem a direção em relação às pessoas com deficiência. "Os deficientes já fizeram muito. Chegou o momento de nós nos levantarmos e irmos ao encontro deles", afirma. O lema da campanha, "Levanta-te e vem para o meio", é uma convocação não só para as pessoas com deficiência, mas para toda a sociedade.

Numa análise do termo "deficiência", Evaristo de Miranda explica que ela está associada à falta de alguma coisa, a uma carência ou imperfeição. "Ela é uma realidade, como a alegria e a tristeza, a saúde e a doença. Faz parte da vida. O essencial, contudo, é que deficiência não é assimilável à pessoa. A pessoa é muito mais do que qualquer deficiência que ela possa ter", diz. Para o professor, quando esses valores se invertem, o resultado é trágico. "Quantas vezes os médicos, ao invés de apresentar aos pais a pessoa que acabou de nascer, apresentam a deficiência. Começam a dizer o que ela vai poder fazer e o que não vai, como se de fato soubessem".

Deficiência não é sinônimo de incapacidade. Esse é outro aspecto reforçado no texto base da campanha e destacado pelo professor Evaristo em sua palestra. "Esse raciocínio tem que ser combatido. O cego só não consegue utilizar o elevador se o painel não possuir braille. O cadeirante só não consegue circular pelo centro da cidade se não houver guia rebaixada. É a sociedade que incapacita", afirma. Para Evaristo de Miranda, a forma de nomear um deficiente não é um aspecto relevante da campanha. "Existe todo um cuidado de como nomear um deficiente. Os preconceitos sociais são muito fortes.

Vejam o caso dos deficientes mentais. Já foram tratados como imbecis (que originalmente não era uma palavra agressiva), alienados, excepcionais. As palavras logo ficam velhas, contaminadas pelo preconceito. Não precisamos perder tempo suavizando termos, recriando paradoxos. Existe uma realidade inegável e diferenciada - os cegos não enxergam mesmo, os surdos não ouvem, agora isso não faz deles melhores nem piores que ninguém", destaca. O professor reitera que a campanha não está muito preocupada com os termos. "Tem coisa muito mais importante para tratarmos, até porque todos temos as nossas deficiências. Por exemplo, somos todos coxos - pisamos nos irmãos, na mãe, nos filhos, passamos por cima dos colegas e não percebemos, achando que caminhamos perfeitamente por esse mundo."

Evaristo remete ao episódio da Anunciação para mostrar o caráter extraordinário do nascimento de uma criança com deficiência, assim como foi a concepção de Jesus. "Muitos pais são confrontados diante do nascimento de um filho extraordinário, mas conceber a vida não é um capricho, é algo muito sério", diz. O professor levanta um paradoxo da sociedade atual. "Nunca se defendeu tanto os direitos humanos, o direito das minorias e dos povos, o direito à liberdade. Entretanto, nunca se ameaçou tanto a vida como hoje.

Especialmente os cientistas, meus colegas, ameaçam a vida num nível inacreditável. Nosso primeiro desafio é dar ao deficiente o direito à vida, porque há um investimento tecnológico enorme para que ele não nasça", denuncia. Evaristo relatou o caso de um médico brasileiro de Teresina (Piauí) que foi chamado a atender um caso em Marselha, na França, para garantir o nascimento de uma criança com deficiência. "Lá essas crianças não nascem. Na França a prática abortiva é generalizada. É o país que mais pratica aborto", diz. O primeiro espaço de inclusão para as crianças e jovens com deficiência é a família. Segundo Evaristo de Miranda, se esse espaço não funciona ou funciona mal, dificilmente vai se chegar à inclusão nos outros setores. Também não adianta falar em inclusão levando em conta um processo centrado somente na criança ou no jovem. A transformação deve ocorrer no meio ambiente. Tem que melhorar o contexto todo - a família, a escola, o trabalho. Na opinião de Evaristo de Miranda, os modelos educacionais pecam pela forma de encarar a questão. "O deficiente não tem problema nenhum. Ele tem circunstâncias. Circunstancialmente é cadeirante, cego, surdo, e tem que lidar com isso", explica. Essa visão pede uma nova escola, que parta do princípio de que todos são capazes de aprender. "O melhor currículo para isso é o da vida cotidiana., é o viver o mundo".

Nesse tema da inclusão, o professor considera que a situação do ensino de uma maneira geral é catastrófica. "Qualquer escolinha de periferia, com vidro quebrado faz mais inclusão que os colégios super bem equipados. Esse é ainda um desafio enorme para as escola católicas, que estão longe de ser a ponta ou a liderança do movimento", diz Evaristo. Ele propõe o desafio da inclusão para a própria Igreja, para que também acolha os deficientes nos sacramentos.

PUC-PR lança programa de inclusão das pessoas com deficiência

Participaram da mesa de debates a psicóloga Isabel Parolin; o Padre Ricardo Hoepers, coordenador da Campanha da Fraternidade na Arquidiocese de Curitiba; Carlos Alberto Echeverria, diretor de Recursos Humanos da PUC-PR e Evaristo Eduardo de Miranda

 

A Universidade Católica do Paraná se engajou na Campanha da Fraternidade deste ano lançando o programa "Ser em Ação", para inclusão das pessoas portadoras de necessidades especiais no ambiente de trabalho da instituição. O objetivo é criar uma cultura de contratação de pessoas com deficiência dentro da universidade. Além de formar e capacitar os portadores de necessidades especiais, proporcionando o desenvolvimento de suas competências, o programa prevê um trabalho de conscientização dos gestores das áreas onde os deficientes vão atuar. As edificações, que ainda não estão adaptadas para receber os portadores das diversas necessidades, deverão receber melhorias ao longo do tempo. O programa reside em algumas etapas, a começar pelo recrutamento dos candidatos, que deverão preencher um perfil mínimo (ter pelo menos o segundo grau completo) e em seguida passar pelo curso de capacitação. Duas turmas serão formadas este ano - uma em abril e outra em agosto, cada uma com 40 pessoas portadoras de necessidades especiais.
"Estamos lançando esse programa não somente por conta da legislação em vigor, que estabelece a contratação de um percentual de portadores de necessidades especiais, mas por um imperativo ético e de solidariedade", disse o irmão Benê Oliveira, diretor de Relações Internas da Universidade Católica do Paraná. A opção pelo professor Evaristo Eduardo de Miranda para abrir as discussões no âmbito da Universidade deve-se, segundo irmão Benê, ao fato de ser um especialista do assunto, um pensador cristão, amigo da instituição e que traz toda uma bagagem crítica e vivencial sobre o tema. Também participaram da mesa de debates o padre Ricardo Hoepers, coordenador da Campanha da Fraternidade na Arquidiocese de Curitiba, a psicóloga Isabel Parolin, uma das autoras do livro "Aprendendo a incluir e incluir para aprender", lançado na ocasião, e o diretor de Recursos Humanos da PUC-PR, Carlos Alberto Echeverria.

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