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Otto Leopoldo Winck é graduado em teologia pela PUCPR e mestrando em letras pela UFPR


ANO 7 - ED 78 - MARÇO DE 2006


A religião na galáxia pós-moderna

Otto Leopoldo Winck

Apesar de todos os prognósticos em contrário, a religião sobreviveu à modernidade - é verdade que não sem baixas.

Desde a Revolução Francesa, passando pelas revoluções liberais do século XIX e socialistas do século XX, a religião chegou relativamente bem ao terceiro milênio e a esta época que se tem chamado, não sem polêmicas, de pós-moderna. No limiar desta nova fase, também não faltaram vaticínios decretando a sua morte e intelectuais dispostos a redigir o seu obituário. Portanto, não deixa de ser sintomático que duas das maiores figuras da atualidade sejam, ou se declarem, religiosas: o ex-alcoólatra George Bush e o ex-playboy Osama Bin Laden. Ambos provenientes de abastadas e tradicionais famílias em seus respectivos países, ambos convertidos após uma crise existencial, ambos associados a grupos fundamentalistas dentro de suas tradições religiosas. Hoje, um deles é o presidente da maior potência do planeta e o outro o líder da maior organização terrorista da história. Um quer a morte do outro, mas todos os dias os dois não deixam de cumprir suas devoções diárias, seja nos salões da Casa Branca, seja em alguma obscura caverna entre o Afeganistão e o Paquistão.

Só isso já nos alertaria sobre as análises simplistas do desaparecimento da religião em tempos pós-modernos. Para não falar que o segundo escritor mais vendido no mundo no ano passado se diz mago: Paulo Coelho, que só perdeu para J. K. Rolling, a autora das histórias sobre o bruxinho - olha aí outra vez - Hary Potter. No entanto, a religião - se não escapou incólume ao período anterior - também não se furtará a mutações e deslocamentos significativos em nossa época. Mas aí é bom também se precaver contra análises reducionistas. Não são poucos os estudiosos do fenômeno religioso que afirmam que, enquanto a religião diminui, ou se rarefaz, a religiosidade infla.

Em outras palavras, a pós-modernidade é testemunha do esfacelamento das instituições - entre as quais as grandes religiões -, ao passo que uma religiosidade híbrida, mutante e provisória vem se instalar em seu lugar. Este dado é inegável - e as estatísticas estão aí para comprová-lo - mas não explica tudo, como os exemplos aventados acima atestam. Não explica o surpreendente crescimento do fundamentalismo - ou do integrismo, conforme a nomenclatura - em todas as religiões, e não só nas monoteístas, as quais, segundo alguns, por suas tendências monológicas, conseqüência da crença de serem as portadoras exclusivas da revelação, estariam mais propensas a esta patologia.

Uma hipótese de explicação para este fenômeno - o ascenso do fundamentalismo - seria a seguinte: a pós-modernidade é a época da liquidação de todos os valores e crenças. Se a modernidade - Marx, Nietszche, Freud - já havia anunciado a morte de Deus, a pós-modernidade apregoa a morte do homem - Foucault - e de tudo aquilo lhe dava apoio após o fim da transcendência: a crença na história, no progresso, nas ideologias, etc. Com a perda de todas as referências, as celestes e as terrestres, o homem e a mulher contemporâneos se viram de repente sem eixo, sem solo, perplexos, prontos para aderir ao primeiro pregador de certezas que lhes restituísse ao menos um sucedâneo de chão. E aí que aparecem tanto as versões fundamentalistas das religiões milenares quanto a miscelânea dos novos movimentos religiosos, com verdades e explicações para todos os gostos. É verdade que estas correntes, em nosso mundo, nunca serão majoritárias, dado o alto grau de adesão - e o sacrificium intellectus - que exigem em troca da segurança metafísica e identitária.

Portanto, na pós-modernidade, assistimos, por um lado, à erosão das grandes instituições religiosas - pelo menos no Ocidente e nos países atingidos pela globalização ocidental (o Islã é uma incógnita) -, e por outro, ao surgimento, à margem destas mesmas religiões, e em disputa com a religiosidade diluída e fragmentária que lhes sucede, de pequenos grupos coesos, organizados, messiânicos, que não negociam - embora possam se servir de seus instrumentos, como a internet - com a (pós)modernidade, mas, ao contrário, querem convertê-la a qualquer custo. Um mundo de muitos relativistas desanimados, pois o relativismo não empolga ninguém, e minorias consideráveis de empedernidos fundamentalistas. De um lado, os sem certeza alguma, do outro os que têm certezas demais - este parece ser o cenário religioso do século que se abre. Entre um e outro, no entanto, sempre haverá espaço para aqueles que se equilibrarão entre a luminosidade da razão e o fulgor da fé, dosando dialeticamente a dúvida metódica do Iluminismo com o salto confiante da mística. Mas estes serão poucos.

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