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ANO 7 - ED 79 - ABRIL DE 2006


Servos de Maria
uma vida a serviço de Deus e dos homens

Por Ana Luzia Palka

Frei Valdir Borges, prior dos Servos de Maria em Curitiba.

Com mais de 130 seminários masculinos e femininos, Curitiba é considerada um dos principais centros de formação para a vida religiosa. Diferentes ordens e congregações estão inseridas em atividades pastorais e missionárias, atendendo as comunidades mais pobres, e envolvidas na iniciação espiritual de novos frades e irmãs. Com esse propósito, instalou-se também em Curitiba a Ordem dos Servos de Maria - pouco conhecida, pouco numerosa, mas com uma história secular. No convento, localizado no Bairro Alto, os servitas se preparam para a vida em comunidade, de serviço e oração, sob a inspiração mariana.

A Ordem dos Servos de Maria, fundada por sete santos, nos arredores de Florença (Itália), em 1233, tem pouco mais de dois mil representantes em todo o mundo, bem menos do que os 22 mil franciscanos ou 20 mil jesuítas espalhados pelos cinco continentes. Arregimentar um maior número de irmãos nunca foi a preocupação dos servitas. "Nunca fomos muitos", confirma o frei Valdir Borges, prior do seminário e pároco da capela Maria Mãe da Igreja. "Temos características próprias. A vida fraterna em comunidade é um dos nossos principais valores. Para nós, é mais importante ser um religioso do que se tornar padre", explica. Em todo o Brasil, são apenas 32 padres Servos de Maria e pelo menos vinte deles realizaram parte da sua formação no seminário de Curitiba.

Nas escadarias do convento, a imagem dos sete santos fundadores em veneração à Virgem Maria.

Os servitas têm uma história recente na cidade. Chegaram em 1977, ocupando parte das instalações do Colégio Madalena Sofia. Em 1980 ganharam a atual sede, numa aprazível área verde, cercada de araucárias e de onde se avista, ao longe, o centro da cidade. No convento Santa Maria dos Servos vivem hoje 16 jovens que exercem o postulantado e mais cinco que estão na etapa do professado solene, ao término da qual os seminaristas abraçam definitivamente a condição de religiosos. Durante o postulantado, os jovens fazem o curso de Filosofia na Universidade Católica do Paraná, e durante o professado especializam-se com cursos de mestrado e doutorado em Teologia no Studium Theologicum (escola agregada à PUC-PR, filiada à Pontifícia Universidade Lateranense de Roma). O noviciado, uma das etapas intermediárias da formação, não é realizado em nenhum dos seis conventos dos Servos de Maria existentes no Brasil (além de Curitiba, eles estão presentes também em São Paulo, São José dos Campos, Rio de Janeiro, Rio Branco-AC e Turvo-SC). Para realizar essa etapa, os seminaristas brasileiros da Ordem são encaminhados para conventos da Argentina ou do Chile.

Os servos de Maria são hoje uma das principais referências no Bairro Alto, onde atuam em atividades de catequese, evangelização, assistência social e animação litúrgica. Junto à paróquia de Maria Mãe da Igreja funciona o Centro Social Marta e Maria, que presta atendimento a 110 famílias carentes da região. Por influência dos religiosos, também se formou ali um movimento de leigos associados à Ordem dos Servos de Maria. Com 35 membros que compartilham os mesmos ideais, eles integram a Ordem Secular Servita. A do Bairro Alto é um das três fraternidades leigas estruturadas e atuantes no Brasil, além de outras que estão em formação. Também na mesma região vivem quatro irmãs Servas de Maria Reparadoras - uma das várias congregações de irmãs e monjas que, ao longo dos séculos, assumiram a mesma espiritualidade propagada pelos setes santos fundadores da Ordem.

Os conventos servitas são repletos de iconografias que simbolizam os valores propagados pela Ordem, como o mural que representa os sete santos fundadores.

Além do prior, o frei Valdir Borges, atuam no mesmo seminário o frei Marcos Roberto Huck, formador dos postulantes, e o frei Clodovis Boff, um dos mais renomados teólogos da América Latina. Após contribuir com a teologia da libertação, que ajudou a propagar junto com seu irmão, Leonardo Boff, o frei Clodovis dedica-se atualmente à produção teológica e ao magistério. É professor da Universidade Católica do Paraná, do Studium Theologicum, do Instituto Vicentino e da Pontifica Universidade Católica Marianum, de Roma. É assessor teológico da Conferência dos Religiosos do Brasil e tem várias obras publicadas, inclusive traduzidas para outros idiomas.

História de oito séculos
A Ordem dos Servos de Maria remonta ao período medieval. Na época, sete ricos mercadores de Florença decidiram abandonar seus negócios e famílias, distribuir seus bens aos pobres, e iniciar uma vida de devoção à Virgem Maria. Desejando levar uma vida contemplativa, de oração e penitência, retiraram-se para o alto do Monte Senário, onde construíram o convento e uma igreja dedicada à Nossa Senhora. Monte Senário é hoje considerado o berço dos Servos de Maria e ponto de referência, para onde afluem frades, irmãs e leigos de todo o mundo. Lá se encontram as relíquias dos sete santos fundadores - Bonfilho, Aleixo, Amadeu, Bonajunta, Maneto, Sóstenes e Hugo, canonizados pelo papa Leão XIII em 1888.

O convento Santa Maria dos Servos, no Bairro Alto, com vistas para o centro de Curitiba.

Nossa Senhora das Dores é a padroeira principal da Ordem, pelo seu exemplo de vida e papel que desempenhou na história da salvação. Em sua oração à padroeira, os servos invocam as sete dores vividas por Maria até a morte do filho: quando escuta a profecia de Simeão, foge para o Egito com o menino para escapar da fúria de Herodes, perde o filho em Jerusalém, encontra-se com Jesus no caminho do calvário, está presente junto à cruz, recebe nos braços o corpo descido da cruz e deposita Jesus no sepulcro.

O grupo cresceu, novos conventos foram abertos e a Ordem ultrapassou as fronteiras italianas, espalhando-se por toda a Europa e, a partir do século XIX, pelas Américas. Chegou primeiro aos Estados Unidos, em 1852, depois ao Canadá (1912), e em 1914 à América Latina, estabelecendo sua primeira missão na Argentina. Os Servos de Maria chegaram ao Brasil em 1919, num período em que o clero incentivava a vinda de religiosos europeus para suprir a carência de dioceses no país.

A casa dos seminaristas, local de moradia, estudos e orações.

Centenas de ordens e congregações, masculinas e femininas, lançaram-se nessa empreitada, inclusive assumindo a missão nos pontos mais longínquos. Os servitas instalaram-se inicialmente no Acre, onde desenvolveram importante trabalho de evangelização, e depois foram abrindo outros conventos, multiplicando suas obras no campo religioso, educacional e assistencial. No país também atuam quatro das mais de 20 congregações femininas que assumiram os ensinamentos de Santa Juliana Falconieri, considerada a fundadora do ramo feminino da Ordem dos Servos de Maria - as Servas de Maria Reparadoras, Servas de Maria de Galeazza, Servas de Maria de Ravena e Servas de Maria do Brasil.

Teologia como caminho para libertação

  O teólogo Clodovis Boff: cristianismo é libertação  


Num breve encontro na sede do convento Santa Maria dos Servos, no Bairro Alto, o frei Clodovis Boff nos expõe algumas reflexões sobre o caráter libertador da fé cristã. Prestes a lançar um livro de 980 páginas sobre Mariologia Social (Ed. Paulus), Boff diz que entender o fenômeno religioso é fundamental para compreender a sociedade atual. Daí a importância da teologia. "Não basta ser sociólogo, antropólogo, cientista social, porque só a teologia investiga a religião em seus mistérios e em suas raízes. A teologia é a ciência que interpreta a existência humana em profundidade. A filosofia conta com as forças humanas da razão, porém a teologia conta com uma razão superior, a razão de Deus", afirma.

Teólogo da libertação como o irmão Leonardo Boff, Clodovis faz uma avaliação do movimento que, na sua visão, está hoje plenamente incorporado pela Igreja. Ele explica que a teologia da libertação passou por dois momentos distintos. Primeiro, foi a sua emergência, quando apareceu nos cenários teológico, pastoral, social e político, em contraposição às teologias mais conservadoras. Exercia um papel mais revolucionário e defendia as propostas do socialismo. A partir dos anos 90, ela não mais se entendeu como uma ideologia ou uma corrente à parte, com seus escritores, teólogos, suas obras, seus encontros e congressos, mas assumiu uma nova dimensão dentro da própria igreja e da própria fé. "Ou seja, ela não é um todo à parte, é uma parte do todo", diz. "Assim como a água do mar é salgada, a teologia cristã é libertadora".

Para Clodovis Boff, um dos pontos especiais da teologia da libertação foi ter olhado para o pobre como sujeito, não como objeto de caridade e de assistencialismo. Esse pensamento, segundo ele, foi reconhecido como algo autêntico da Igreja, de forma que não é preciso mais carregar essa "etiqueta". "Vamos carregar a etiqueta cristã, que já é pesada. Nela a libertação está intrínseca", propõe Boff. Quando era necessário, nos anos 70, explicitamos essas idéias. Agora não precisa mais. Dizer cristianismo basta. Cristianismo é libertação".

 

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