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João Batista Libânio, 74, mestre e doutor em teologia, autor de "Eu Creio - Nós Cremos" (Loyola), entre outras obras, já ministrou conferência no Instituto Ciência e Fé, em 1996




ANO 7 - ED 79 - ABRIL DE 2006


Sensacionalismo passageiro, realidade perene

João Batista Libanio

O cristianismo é uma realidade histórica de 2.000 anos que se vem construindo, em perspectiva sociocultural, por duas forças convergentes: a tradição e a cultura do momento. Sob o prisma da fé, nesse jogo humano, acredita-se na atuação do espírito de Deus, garantindo-lhe fidelidade.

O Evangelho de Judas não atinge em profundidade nem o momento atual nem as origens da tradição cristã. Portanto, não vai impactar no cristianismo. Sua descoberta e o lançamento ao grande público pertencem antes ao sensacionalismo mercadológico, e não garantem nenhuma relevância teológica.

Para a cultura atual, tal documento apenas interessará aos especialistas em egiptologia, em língua copta ou em gnosticismo. Rincões freqüentados por especialistas. E para a tradição cristã? E para o imaginário religioso popular? Nova interpretação da figura de Judas influenciará a compreensão desse apóstolo traidor e de Jesus? Creio que não. Será mais uma das infinitas informações jornalísticas que nos assediam todos os dias e que passam com a velocidade das notícias sensacionalistas.

A questão se põe mais seriamente para a compreensão dos escritos do Novo Testamento. Nesse caso, a influência do Evangelho de Judas será de modo indireto e não afetará a compreensão da pessoa de Jesus nalgum elemento fundamental para a fé.

Desde o início, as comunidades se defrontaram com a pluralidade de escritos sobre Jesus, já que ele mesmo não escreveu nada. Nos anos seguintes a sua morte, redatores de comunidades cristãs recolhiam testemunhos oculares, pregações de discípulos, tradições orais que se iam escrevendo em diversos gêneros literários e elaboraram relatos mais longos e estruturados, que são os evangelhos. Os documentos escritos mais antigos testemunhando a missão cristã são algumas cartas de Paulo.

As comunidades cristãs, no início, se defrontaram com a produção de muitos textos sobre Jesus. Procederam a um trabalho difícil, lento e firme de selecionar aqueles que elas julgavam corresponder à autêntica fé. Chamamos tais escritos de canônicos. E, por sua vez, rejeitavam aqueles que a contrariavam. São os evangelhos apócrifos, entre eles, esse que se acaba de descobrir.

Com efeito, desde o século 2º, temos listas dos livros aceitos pelas comunidades cristãs. Isso se fez por causa da proliferação de escritos espúrios, mirabolantes sobre a vida de Jesus a partir da metade daquele século. Vários concílios do século 4º em diante tomaram decisões sobre a lista dos livros autenticamente revelados.

Os numerosos evangelhos apócrifos, quer os já conhecidos, quer algum que eventualmente se venha a descobrir, por serem apócrifos, não alteram o dado básico da fé. O atual texto canônico da escritura está aberto a ser aperfeiçoado com a descoberta de manuscritos dos primeiros séculos que atestam melhor versão. Textos apócrifos ou dados culturais da época de Jesus ajudam a situar melhor o contexto da redação dos textos canônicos. Assim, o Evangelho de Judas, de origem gnóstica, permitirá aos estudiosos entender melhor a reação das comunidades cristãs na sua já conhecida luta contra o gnosticismo. Conhecê-lo tem importância para entender por que ele provocou uma reflexão reativa por parte dos cristãos.

A gnose apresentava-se como ensinamentos esotéricos que conduziam os iniciados à salvação pelo conhecimento das grandes verdades religiosas, ou êxtase. Refletiam uma rejeição das realidades materiais ou carnais, vinculadas ao mal, a um outro princípio criador divino. No desprezo pela matéria, propunham uma espiritualização e intelectualização da salvação.

São João, no Evangelho e na primeira carta, oferece elementos que podem ser interpretados como contraposição aos gnósticos. A verdadeira gnose do cristão é a fé na revelação de Deus por e em Jesus. E Jesus é o Verbo que veio na forma de carne, e não espiritualmente. Não é se livrando do corpo que Jesus nos salva, mas morrendo e ressuscitando. A salvação não se faz pelo conhecimento, especialmente esotérico (gnose), mas pelo sangue de Cristo. Há identidade entre o Cristo crucificado e ressuscitado. A insistência antignóstica da tradição cristã do início, valorizando o corpo de Cristo na vida terrestre e depois de glorificado, é dado essencial da fé que não será abalado por nenhuma descoberta gnóstica. No Evangelho de Judas, Jesus pede-lhe que o liberte do corpo.

Passados, portanto, o sensacionalismo da publicidade e os jogos de mercado, voltaremos às águas tranqüilas de uma fé no Jesus histórico, interpretado pelas comunidades cristãs à luz da ressurreição. Dado inabalável e fundamental do cristianismo, que sofre muito mais o impacto da cultura atual que o de tais descobertas peregrinas.

Transcrito da Folha de São Paulo de 16 de Abril de 2006

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