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Aroldo Murá G.
Haygert, jornalista
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ANO 7 - ED 79 - ABRIL DE 2006
IMAGO
Luiz Carlos Delazari
o homem que sabe demais
Por Aroldo Murá G. Haygert
Se o governador é o guardião do Estado, Luiz Carlos Delazari, corregedor e ouvidor do Paraná, é identificado como "o zelador da coisa pública", olhos e ouvidos do Estado. Para os afeitos aos clássicos, ele lembraria Catão, o primeiro pensador importante da literatura latina, notabilizado pelo espírito de austeridade, personagem íntegra, de forte sentido moral. Difere do legendário romano num dado substantivo: o corregedor e ouvidor jamais foi censor, é o democrata revelado em lutas estudantis, passagem por prisão no DOPS mineiro e militância bem sofrida nos tempos do "velho MDB de guerra", partido que foi forte instrumento para a redemocratização do País pós-1964.
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| Luiz Carlos Delazari, ouvidor e corregedor, uma história a partir do antigo MDB. (foto Diego Singh) |
O rigor com que o procurador de justiça aposentado - ex-procurador Geral de Justiça do Paraná (chefe dos procuradores de justiça) - imprime em suas ações faz com que até às vezes seja visto como "um falcão", um intransigente. Mas intransigência há só no apontar comportamentos aéticos no relacionamento de fornecedores com o Estado, e de servidores no exercício da função pública. No mais é o homem cujo telefone celular atende tocando o Hino do Palmeiras ("quando surge o alviverde imponente..."), uma paixão que contagia a ampla família, dezenas de parentes que, como ele, podem viajar juntos centenas de quilômetros, por rodovias, para ver o alviverde jogar. Trata-se de clara obsessão de paulistas de origem italiana, herança do avô Fernando. É, enfim, um "torcedor congênito", o que levou Luiz Carlos a ser cônsul do Palmeiras em Colorado, Noroeste do Paraná - a primeira paisagem paranaense dos Delazari -, posição idêntica ocupada pelo filho, Luiz Fernando, secretário de Estado da Segurança, só que este em Curitiba.
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| Posse na presidência do Centro Acadêmico de Direito, Presidente Prudente, 1967. (arquivo) |
A luta continua O futebol é mais que um interlúdio. Mas na verdade o compromisso maior - atestam seus amigos mais próximos - é "sua total imersão na causa pública". Calmo, discretíssimo, fonte de informação pouco produtiva para jornalistas, freqüentemente traindo no sotaque um certo acento paulistano, Luiz Carlos Delazari, 61 anos, não brinca em serviço quando se trata de compromissos de vida.
A sua mais forte marca, para o bom observador, é a do engajado em causas sociais, uma opção cristalizada na mocidade. E que ele deixa transparecer naturalmente, parecendo que o antigo militante do MDB (hoje PMDB) e o ex-presidente do Diretório Acadêmico Castro Alves, da Faculdade de Direito de Presidente Prudente, São Paulo, ganham nova estatura, sempre alerta, em momentos paradigmáticos. Tal como aconteceu em abril de 2005, quando, ao presidir a entrega de indenizações a ex-presos políticos do Paraná. Ali assegurou, numa fala, lembrando um pregador de púlpito inspirado:
- Não aposentamos nossas idéias e a mais generosa de todas as utopias que o homem concebeu. A utopia da justiça, da igualdade, da fraternidade e da liberdade. A luta não acabou. O sonho não acabou.
Delazari, depois de citar uma das suas mais notórias admirações, o governador Requião, como parceiro no sonho democrático, declinou o que acredita ser a nova palavra de ordem: resistir às desigualdades, à exploração do trabalho, à discriminação, ao novo colonialismo travestido de globalização e à participação do País como mero fornecedor de mão-de-obra e matéria-prima.
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| Com o filho Fernando. Londres, 1987 (Arquivo) |
O teatro, o cinema, a "justiça e paz" Nasceu em Domélia, um distrito de Agudos próximo de Bauru, 20 quilômetros distante de Santa Bárbara do Rio Pardo, São Paulo. Filho de Hermínio Delazari e Adelaide Bataglian Delazari - tem mais três irmãos - vem de uma família de origem italiana (os avós).
Os avós tinham propriedades rurais em terras paulistas, o pai mudou-se no ano de 1957 com outros irmãos para o então "eldorado" do Noroeste paranaense. Em Colorado, além de fazenda - café, gado, algodão - Hermínio tinha comércio na pequena cidade, com a qual Luiz Carlos e a família nuclear têm grandes referenciais afetivos e onde ainda mantêm sítio, essencial para alimentar as ligações telúricas.
Como se desenvolveu esse personagem cujo olhar e observações judiciosas têm sido óbices para fornecedores que tentam burlar os cofres públicos, especialmente em concorrências?
Em que cenários se desenvolveu o agora ouvidor e corregedor do Estado cujos pareceres não poucas vezes emperraram imbróglios lesivos ao erário? Qual o locus em que se criou esse tipo humano que, sabe-se, forma com o procurador geral, Sergio Botto de Lacerda, e o jornalista Benedito Pires um inner circle de assessoramento do governador? De Botto de Lacerda foi amigo. Hoje se tratam quase cerimoniosamente.
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| Ponto alto da carreira; empossado procurador geral de Justiça em 1992. (Arquivo) |
- Requião não tem conselheiros, muito menos conselheiros privilegiados, diz Delazari, repelindo a idéia que se criou de gozar ele de acústica particular junto ao governador como conselheiro.
Para o governador Requião, Luiz Carlos tem palavras não só de amizade. Acha-o administrador com amplo domínio da administração pública, capacidade de trabalho e lastro intelectual ímpares, dados que o colocam - opina - "no rol dos brasileiros com feições de estadista". Tem tudo, enfim, "para ser um bom presidente do Brasil", acentua.
Nas raízes dessa personalidade gentil e astuta, silenciosa e eficiente, plácida e operacional, vamos encontrar Shakespeare, Tolstoi, Marx, Dostoievski, os filmes do neo-realismo italiano [De Sicca, Rosselini, Visconti], e também os filmes de lendários diretores, como Stanley Kubrick e John Ford.
E, nos tempos de morador de São Paulo - ou, depois, quando à Capital viajava -, foi um infatigável consumidor de teatro - "a primeira peça foi A Chuva, com Dulcina". Depois vieram O Rei da Vela e um sem número de espetáculos, nos anos 60-70, em teatros paradigmáticos, como o Arena e o Oficina. Não perdeu peça que valesse à pena, como O Balcão, do "maldito" Jean Genet, direção de Victor Garcia, e para cuja montagem foram desmanchados três andares de um prédio, loucura de meta certa processada por Ruth Escobar.
Delazari guarda 500 exemplares de programas de teatro das peças vistas. São documentos hoje históricos, atestados de uma formação cultural de muitas faces. Resumem parte dos mil espetáculos teatrais assistidos.
Essa formação cultural, de muitos faciens, incomum na administração pública e política, se completa em outra frente de muitos saberes musicais. Prefere a MPB e os clássicos - Mozart, Schubert, Beethoven que fazem freqüentemente o fundo musical do apartamento em que ele e Alda moram, no Batel. Com o jornalista e publicitário Almir Feijó cumpre tempo de lazer, curtindo jazz e falando de cinema [Almir, também palmeirense, é respeitado crítico de cinema, autor do livro Descríticas, um itinerário para se entender os quês e porquês de centenas de filmes antológicos]. Ópera é assunto que partilha com outro connaisseur, o jornalista é Benedito Pires.
Alda e Luiz Carlos Delazari enamoraram-se quando ela ainda era normalista em Presidente Prudente. O casamento foi em 1969, ele já formado havia dois anos, depois de ter passado por cursos de Ciências Sociais e Letras, sem concluí-los. Mais tarde, pela acatadíssima Universidade Estadual de Londrina, recebeu o título de Mestre em Direito.
O casal tem três filhos, todos na área do Direito: Luiz Fernando, 35, que a família chama de "Lula", o secretário, e que foi escolhido para o cargo aos 32 anos; Fabíola, advogada, 34, concursada do Tribunal de Contas do Estado; e Emiliano, concluindo Direito, 27.
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| Com Alda, companheira de vida. (Arquivo) |
Alda, mineira, dona de melodioso e sábio falar, é a maior incentivadora do ouvidor e corregedor: assistiu a todos os 150 júris populares em que ele atuou, ao longo da carreira de promotor. Delazari ganhou quase todos, as perdas não passaram de dez, ela apressa-se em observar, não escondendo orgulho, a tietagem justíssima.
As vitórias das argumentações consistentes atestam a eloqüência que Luiz Carlos colocou nos júris e nas amplas batalhas retóricas da política estudantil em Prudente e em andanças nacionais. Em 1966, passou 20 dias preso, no DOPS, em Belo Horizonte, com outros estudantes - oitenta no total -, "subversivos" porque participavam de congresso estudantil, "crime", então.
E também foi voz de muita acústica em tempos difíceis, na Comissão de Justiça e Paz da Diocese de Apucarana, escolhido pelo aglutinador bispo Dom Romeu Alberti, em plenos anos de chumbo. A mesma diocese que abrigara padre Alberto Martins - conhecido como padre Albertinho - intelectual, professor do Instituto de Filosofia, e companheiro de Delazari em jornadas pelos direitos humanos e na montagem de frentes políticas de resistência ao arbítrio que então imperava. Resistência clandestina, muitas vezes, porque assim os tempos pediam.
Tem uma rede do bem, informação essencial Na história política do Paraná os Delazari fazem um capítulo à parte: ao que consta, é a primeira vez que, no secretariado do Governo estadual, pai e filho estão juntos compondo o primeiro escalão do Governo.
Para bons avaliadores da escolha, o fato só mostraria o nível de confiança depositado pelo governador nos dois secretários oriundos do Ministério Público "e que não poucas vezes encamparam teses defendidas pelo então senador, em defesa do interesse público", recorda um antigo companheiro de Luiz Carlos no MP.
Embora pudesse ter-se filiado ao antigo MDB, a partir de 1968, quando foi morar em Colorado - nem depois havia impedimento legal na carreira de promotor, então -, Delazari preferiu trabalhar com uma certa discrição na montagem local do partido. Uma cautela que se explica para a época. A mesma que o corregedor e ouvidor mantém hoje. Para apoiá-lo, por exemplo, dispõe de uma ampla rede de informações, que permearia órgãos da Secretaria de Segurança e outras áreas vitais do Governo. Luiz Carlos Delazari vai negar a existência dessa rede, o que se explica. Mas seu universo de apoiadores [não confundir com arapongas ou carcarás] é basicamente de gente que partilha do mesmo zelo.
- O Luiz Carlos, quando trabalhando, e ele trabalha 24 horas, faz-me lembrar aquela expressão do salmista - zelus domus (Dei) comedit. O zelo pela casa (no caso, o Estado), me consome -, resume um padre católico, velho observador dos itinerários de Delazari, desde 1970, quando Luiz Carlos entrou, por concurso (quarto lugar), na carreira de promotor.
Serviu em Colorado, Cascavel, Paranavaí, Maringá e Curitiba. Um itinerário funcional que depois o identificaria na chefia do gabinete de Horácio Racanello, na Secretaria de Estado da Justiça, e na Defensoria Pública, 1983, Governo Richa. Em 1985, eleito Requião prefeito, começa a forte identificação dos dois: Delazari torna-se seu assessor para assuntos de segurança, depois chefe de gabinete de RR.
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| Tempo de cuidar do futuro: com Marina, Leonardo e Lucca (Arquivo) |
A partir de 1989, atua como promotor na Capital e em 1992, passa a procurador geral da Justiça (foi indicado na lista tríplice dos procuradores). Conclui em 1994 o mandato contabilizando quatro maços diários de cigarros fumados e um enfarte, puro stress. Do cigarro se curou. Continua um obcecado por trabalho.
Tem colegas que lhe votam admiração antiga, como o também procurador de Justiça aposentado, Roberto Ayres de Toledo Arruda. Arguto avaliador de nossa história recente, Arruda vê em Delazari uma espécie de reserva de qualidade, profissional e moral. O termo, para alguns, pode soar exagero ou meio clichê. Mas é o mais adequado para o Delazari que consegue, sem dificuldades, conciliar uma formação psicológica de enxadrista trazida da mocidade "a um coração sabidamente generoso", diz Almir Feijó.
- Quanto à generosidade, não se pode duvidar, é a marca maior dele, garante um deputado estadual oposicionista que, ao mesmo tempo, registra observação apimentada: "Honesto como é, Delazari deve ter lutado muito para conciliar seu senso de justiça com suas devoções peemedebistas...".
Placidamente, com Raimundo no colo, o gato siamês cujo nome "lembra o maior palmeirense" que ele diz ter conhecido, Delazari agora aposta fichas nos bebês Leonardo e Lucca, netos, filhos de Luiz Fernando e Michelle, e de Fabíola e Fabrício Stadler Correia, respectivamente.
Os adjetivos com que é qualificado por amigos e adversários vão do "justo" a "alma boníssima", opinião dos primeiros. Ou "linha dura, intransigente", segundo alguns críticos.
Para o genro Fabrício, "a gente carrega a carga boa da imagem do seu Luiz".
Em poucas circunstâncias esse tipo humano Luiz Carlos Delazari escapará dessas qualificações.
A explicação que se encaixa na medida sobre esse tipo psicológico especial é dada por auxiliar dele: "O secretário é ótimo, previsível, tratável, justo. Desde que o Palmeiras não perca...".
Palmeiras, pois, é o "pecado dominante" de Delazari. Afinal, o corregedor vive na terra dos homens...
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